Onça-parda é submetida a cirurgia inédita de catarata em MG

O Hospital Veterinário de Uberaba, em Minas Gerais, realizou o que pode ser a primeira cirurgia de catarata em uma onça-parda no país. O procedimento considerado inédito ocorreu no fim do mês passado.

A felina Kiara, de 31 kg e 11 meses de vida, ficou cerca de 50 minutos na mesa de operação. Por se tratar de um procedimento de alta complexidade, cerca de dez médicos-v eterinários participaram dos trabalhos de anestesia e cirurgia.

A onça-parda chegou com cerca de 15 dias de vida ao Cetras (Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres), em Patos de Minas (MG), no fim de 2020.

Kiara apresentava um quadro neurológico de convulsões e outros sintomas causados por traumas na cabeça. O animal recebeu cuidados médicos e se recuperou bem ao longo de 11 meses, mas foi diagnosticado um quadro progressivo de catarata nos dois olhos.

Além da sequela dos traumas na cabeça, exames oftalmológicos apontaram que a onça tinha predisposição congênita para o desenvolvimento da lesão nas vistas. De acordo com o médico-veterinário do Cetras Rafael Ferraz de Barros, sem realizar a intervenção cirúrgica, Kiara não teria condições de voltar para a natureza. "A catarata é basicamente uma opacidade da lente do olho que impede que o animal enxergue normalmente e, portanto, também impede seu retorno à natureza. Com a cirurgia, a expectativa é que a onça possa ser reabilitada", afirma.

Responsável pela cirurgia, o médico-veterinário Glauber Tasso relata que inicialmente seriam operados os dois olhos do animal de uma vez, mas o quadro clínico não permitiu. "O procedimento teve que ser feito apenas no olho esquerdo. Foi detectada luxação posterior do cristalino no olho direito, o que inviabilizava o procedimento cirúrgico para esse olho. O olho esquerdo apresentava subluxação anterior e microfaquia, o que tornou o procedimento extremamente desafiador", conta.

A "paciente" agora está em recuperação no Cetras. Após uma primeira avaliação ocular, foi constatado que a cirurgia foi bem-sucedida. A onça-parda nem precisará operar o outro olho.

Segundo a informação da equipe do centro, o prazo de recuperação da cirurgia é estimado em três meses, mas Kiara pode permanecer até um ano sendo acompanhada em cativeiro.

O gerente-clínico do Hospital Veterinário de Uberaba, Cláudio Yudi, afirma que expectativa é repassar a experiência adquirida para outros centros de atendimento a animais.
"Ficamos felizes em ajudar a onça a ter novamente a visão recuperada e repassar conhecimento para que outros profissionais possam realizar a cirurgia em outros grandes felídeos em centros de triagem e zoológicos", disse.

A oftalmologista-veterinária Gabriela Madruga participou dos exames oftalmológicos pré-cirúrgicos no animal e acompanhou a operação do lado de fora do bloco cirúrgico. Ela foi responsável por explicar aos alunos, durante a transmissão, o passo a passo do que estava sendo feito.

Apesar de não ter entrado na sala de cirurgia, a profissional afirma que a experiência também foi oportunidade única para a carreira.

"Acompanhar a cirurgia da onça foi desafiador, inclusive, para quem não estava diretamente na operação", afirmou a médica. "A córnea da onça é mais dura do que a de um
gato, por exemplo, e o olho apresenta muitos bastonetes, o que permite que ela enxergue muito bem no escuro. Eu não tinha presenciado nada parecido antes."