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Por Anna Virginia Balloussier (Folhapress)

De regata e calça brancas, a tatuagem de caveira à mostra no muque esquerdo, o dançarino rodopia sua parceira ao som de "Corazón Partío", de Alejandro Sanz.

Rei do mambo é como colegas do zouk, dança de influência caribenha, o conhecem. O mesmo homem que baila em múltiplos vídeos publicados no YouTube, em cenários que vão do Brasil à Rússia, estrela outra gravação bem menos boa praça.  

Eduardo Fauzi Richard Cerquise, 41, é um dos protagonistas de um ato filmado em setembro no centro no Rio de Janeiro. 

Nele, militantes do neointegralismo, movimento nacionalista de matizes fascistas, queimam uma bandeira da extinta União Soviética e pisoteiam outra, da França - ainda pegava fogo a briga entre Jair Bolsonaro e o francês Emmanuel Macron em torno da Amazônia em chamas.

Quase quatro meses depois, Fauzi ganhou o noticiário após ser apontado como um dos autores do atentado contra a sede do Porta dos Fundos, na véspera do Natal. A produtora foi alvejada após seu especial de fim de ano retratar Jesus Cristo como gay.

Dias depois, em entrevista ao Projeto Colabora, ele confessou o crime e disse que o grupo evocado num vídeo sobre o ataque, um tal de Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira, "é apenas uma estratégia de marketing, uma peça midiática, uma roupagem que abusa de elementos pastiche e de uma estética agressiva e simbólica para gerar impacto". 

E impacto Fauzi gerou, numa narrativa que mixa integralismo da década de 1930, milícia, neofascismo à moda russa e uma fuga para Moscou um dia antes de virar alvo de um mandado de prisão. 

Fauzi embarcou num voo da Air France a três dias do fim de 2019. Era o único reconhecível nas imagens de câmeras de segurança na data do crime. 

"Achavam que fui muito estúpido pra não cobrir o rosto e não alterar a voz, mas fui conectado o suficiente pra ser avisado do mandado a tempo de viajar pra fora do país", disse. 

Seis anos antes, ao canal virtual Linha de Frente, chamou a Prefeitura do Rio de fascista ao falar sobre outro episódio violento em seu currículo. Em 2013, ele chegou por trás e socou o então secretário da Ordem Pública do Rio, Alex Costa. Tudo ao vivo.

"O cidadão brasileiro é tomado por uma cólera, por uma fúria, que às vezes extravasa", afirmou à época.

"Foi a tapa mais bem dada que já pude dar na minha vida. Tenho certeza que minha mão teve o peso de um milhão de pessoas que foram removidas irregularmente, tiveram suas mercadorias apreendidas."

Nas manifestações que sacudiram aquele ano, Fauzi acabou exaltado por líderes da esquerda, que até greve de fome fizeram para que fosse solto da prisão provisória. Em 2019, ele foi condenado pela pancada e recorre em liberdade.  

 Fauzi teve uma juventude confortável. Versado em russo, inglês e espanhol, estudou em bons colégios e se formou em economia na UFRJ, período em que era um "bufê de ideologias", como o define um conhecido desses tempos.

"O integralismo hoje apresenta uma grande miscelânea ideológica com a presença de diversos tipos", afirma o historiador Leandro Pereira Gonçalves, autor de "Plínio Salgado", biografia do pai do movimento. "Estudantes, conservadores, católicos, neopentecostais, monarquistas e, no caso do grupo do Rio, ex-policiais e indícios da presença de grupos ligados à milícia."

Se sete anos atrás Fauzi recebeu o desagravo da esquerda, hoje é associado à extrema-direita. Também admira o cientista político russo Aleksandr Dugin, um velho rival de Olavo de Carvalho. Em 2019, o ideólogo do bolsonarismo reproduziu uma entrevista em que o aliado de Vladimir Putin dizia ser necessário criar uma frente anti-Bolsonaro.

O russo transita bem entre neofascistas, sobretudo pelo antiglobalismo, e se aproxima do integralismo por sua "visão tradicionalista e conservadora", diz Odilon Caldeira Neto, professor de história contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora. 

Amostra: em 2014, Dugin disse à reportagem ser a favor das leis anti-LGBT em seu país. Putin lutaria "contra a legitimação jurídica do que é considerado perversão moral e psicológica". 

Seu discípulo Fauzi, que evocou valores cristãos para justificar o arremesso de coquetéis molotov contra o Porta dos Fundos, já foi sócio do pai num posto de gasolina e liderou a Associação dos Guardadores Autônomos de Veículos São Miguel - ocupação que difere da de flanelinha, como gosta de frisar. É dessa função que veio sua birra com o ex-secretário da Ordem Pública. 

Em 2011, a Polícia Civil o incluiu numa investigação sobre uma suposta milícia que controlava estacionamentos irregulares no centro carioca, onde Fauzi atuava. O caso está hoje no Ministério Público. Um guardador de carros havia procurado policiais para dizer que foi ameaçado pelo empresário e um "capitão Henry". 

Trata-se da capitão da PM reformado Henry Ribeiro da Costa, que registrou em 2015 um estacionamento na região central carioca em seu nome. Ele estrela o vídeo da marcha integralista no Rio ao lado do acusado pelo atentado natalino. 

Fauzi diz ter militado por uma década na FIB (Frente Integralista Brasileira). Atuou também da Associação Cívica Cultural Arcy Lopes Estrella, a Accale, batizada com o nome de um proeminente camisa-verde, como eram chamados os integralistas dos anos 1930.

À reportagem a Accale o descreve como "um participante ativo que já foi mestre de cerimônias em alguns dos nossos eventos, vide sua boa oratória e voluntariedade para esta função".

Algumas causas do grupo: "A necessidade de uma auditoria da dívida pública e a luta contra o aborto e toda a esquerda cultural". 
Às portas de 2020, a entidade divulgou nota para rechaçar que o ato terrorista de Fauzi tenha sido idealizado por eles. "Nosso embate é no campo das ideias." 

A FIB o expulsou de seu quadro, assim como o PSL, partido ao qual o empresário se filiou em 2001, segundo registro do Tribunal Superior Eleitoral –17 anos, portanto, antes da passagem de Jair Bolsonaro na sigla.

Enquanto uns se distanciam da figura polêmica, outros a incluem: o nome de Fauzi agora, consta na lista de procurados da Interpol.

O foragido, que já morou na Barra da Tijuca e em Botafogo, contou que atualmente tem um quarto com banheiro e sem janela no morro da Conceição (zona portuária carioca). À Band News ele afirmou que pretende retornar ao Brasil no fim do mês e que a viagem à Rússia já estava programada. Teria ido visitar um filho que lá mora. 

Delegado responsável pelo caso, Marco Aurélio de Paula Ribeiro o perfila como "uma pessoa violenta, com diversas ameaças". Praticante de artes marciais, apto a manusear espadas com técnica do kung-fu, Fauzi já foi acusado de agredir a ex-mulher mais de uma vez. 

Em 2016, com os dois já separados, ele teria a ameaçado assim: "Você anda muito sozinha na rua, cuidado com o que pode acontecer com você".

Ao Projeto Colabora Fauzi resgatou a passagem bíblica em que Jesus usa força física para expulsar vendilhões do templo. É seu argumento para defender atos violentos como o que admite ter praticado na data em que se celebra o nascimento de Jesus. 

"Uma ofensa medonha contra o nome de Cristo e, por extensão, contra o nome de todo cristão e de tudo aquilo que Ele representa, é uma violência muito maior do que um foguinho de merda numa parede de vidro sem qualquer material inflamável que pudesse propagar o fogo que foi apagado em 12 segundos."