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Por Paula Soprana (Folhapress)

O Brasil tem ao menos 20 bases federais que guardam dados de documentos como CPF, RG, passaporte e cartão do SUS. Um cadastro ligado ao INSS, por exemplo, tem 51 bases replicadas nele, com dados sensíveis, como a biometria do título de eleitor. Considerando ministérios, autarquias, institutos e universidades públicas, o número de bases pode ultrapassar 500, segundo estimativa de especialistas baseada no Sisp, o sistema federal de tecnologia de informação.

O governo pode saber da vida econômica, das relações empresariais, do histórico estudantil, do parentesco e do local onde os cidadãos moram, além da cor da pele e a impressão digital. A partir das bases já disponíveis, não seria preciso, por exemplo, quebrar o sigilo de dados bancários para combinar a base do CPF com a do Caepf (Cadastro de Atividade Econômica da Pessoa Física) e mapear a atividade econômica de uma pessoa.

Também não seria necessário instalar um sistema chinês de câmeras inteligentes na rua para atrelar essas informações financeiras ao rosto de alguém. Bastaria ligar dados do Caepf à foto da carteira de habilitação. O governo também tem informações sobre o piso da casa, se a pessoa faltou ao trabalho, se é parente de presidiário ou se a residência dispõe de energia elétrica. Dados assim estão no CadÚnico, cadastro para fins de assistência social como Bolsa Família.

O cruzamento de informações nesses bancos é necessário para políticas públicas. O fluxo de dados foi facilitado por dois decretos editados em 2019 pelo governo Jair Bolsonaro. A ação integra uma estratégia que busca digitalizar e unificar os serviços ao cidadão.

PONTOS ESTRUTURAIS

Por meio das secretarias de Governo Digital e de Desburocratização, o Ministério da Economia intensificou a pauta este ano. Diz ter digitalizado mais de 500 serviços, que podem gerar uma economia anual de R$ 100 milhões.

Para prestar esse serviço, o governo mexe em pontos estruturais e menos visíveis. Tornou mais fácil para um ministério usar dado de outro e implementou um cadastro cuja plataforma tecnológica estará relacionada a dezenas de bases públicas.

Uma das ideias é que o cidadão não precise mais atualizar seus dados em uma série de órgãos, mas em apenas um.

- Temos o objetivo de aumentar o compartilhamento de dados dentro do governo. Estamos em um programa acelerado, e o dado tem que circular - diz Luis Felipe Salin Monteiro, secretário do Governo Digital.

Segundo ele, é preciso sincronizar as bases distribuídas, como do Ministério da Infraestrutura e da Receita, por exemplo, para evitar duplicidade:

- Um cidadão que quiser receber benefício do auxílio-desemprego ou licença-maternidade vai conseguir de forma menos burocrática porque diferentes órgãos poderão checar sua biometria, hoje cadastrada em tribunais eleitorais ou na PF para passaporte.

RESISTÊNCIAS

Desde 2010 foram criadas políticas para governança de dados e, em 2016, a estratégia de governo digital.

Apesar de objetivos desejáveis como mais praticidade e diminuição do tempo de espera em filas, algumas medidas encontram resistência no Congresso e na comunidade acadêmica.

- A ideia de ter um governo com acesso a todos os dados, independentemente da finalidade, é absurdo. Isso pode escalar para casos extremos de mau uso para segurança pública, discriminação e vigilância - diz Adriana Meireles, cientista política da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisadora de proteção de dados.

O ponto crucial do debate é o da finalidade. Apesar de mencionar a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), o decreto que cria o cadastro-base minimiza o fato de que o cidadão fornece um dado porque sabe que ele será usado para determinado fim, não para outro.

Além disso, os decretos não preveem um canal de transparência para que as pessoas tenham conhecimento sobre o uso de suas informações por diferentes órgãos. Outro ponto de atenção é que estatais operadoras de grandes bases de dados, como Serpro e Dataprev, deverão ser privatizadas. Pesquisadores temem que haja abuso do setor privado.

- Vários países têm unificação, já é uma realidade. O que é crítico é que assumiu-se que o comitê gestor [um conselho que vigiaria o uso de dados do poder público], criado só por pessoas do governo, estaria sob vigilância da recém-criada autoridade de proteção de dados, mas isso não está explícito no texto - diz Alexandre Barbosa, engenheiro e pesquisador do ITS-Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio).

A preocupação central é que, se o poder público também não for vigiado, ele terá recurso para saber o que quiser de um cidadão sem prestar contas disso, o que iria contra princípios da LGPD e da OCDE, que sugere que sejam especificados os propósitos diferentes para os quais um dado foi coletado.

Além de identificar um cidadão por dados simples preenchidos em qualquer cadastro, o governo pode criar um retrato preciso da vida de uma pessoa.

- Cria-se uma imensa capacidade de perfilamento com dados de saúde e até de lugares frequentados, porque o cidadão coloca o CPF na nota ao comprar em um supermercado - afirma José Laranjeira de Pereira, advogado e pesquisador de direito e internet. - Se dados biométricos forem incluídos no cadastro, como a face captada por uma câmera, será possível saber se a pessoa atravessou a rua fora do semáforo, se jogou chiclete no chão, onde vai, com quem vai...