Na semana em que os teatros retomam a atividade, com estreias e a continuação de temporadas interrompidas para o recesso de fim de ano, entram em cartaz duas peças que guardam algo em comum –espetáculos com criação de dramaturgia e direção de dois artistas vindos de um mesmo cenário, o das companhias e coletivos.

São elas "A Floresta", de Alexandre Dal Farra, e "A Corda, Alice", de Juliana Sanches. Um artista e uma artista que não partilham hoje do mesmo tipo de visibilidade –e a conversa com Sanches e Dal Farra pode aqui nos dar a dimensão de como a questão do gênero é um elemento simbólico para a condução de uma criação para o palco em 2020.
Sanches vem do grupo XIX, Dal Farra vem do Tablado de Arruar, e eles iniciaram suas carreiras ao mesmo tempo.

Mais um ponto em comum, os grupos foram criados em 2001, um ano antes da criação da Lei do Fomento ao Teatro pela prefeitura paulistana. O edital irrigaria um cenário cênico que buscou a sua essência na criação coletiva. Tanto ele como ela, agora, chegam à maturidade conduzindo criações autônomas.

Em "A Corda, Alice", Sanches costurava depoimentos de 24 atrizes. Para a estreia no Teatro de Contêiner, da companhia Mungunzá, serão 20 intérpretes, todas elas egressas do núcleo de pesquisa que o grupo XIX criou em sua sede, na Vila Maria Zélia, bairro da zona leste de São Paulo.

Esse núcleo tem atividades anuais de formação e reúne atores em geral recém-formados. Para as duas últimas edições conduzidas por Sanches, foram selecionadas só atrizes.

Os estudos do grupo, em 2017, resultaram na peça "In Cômodos", que já se dedicava a estudar e mapear as vozes femininas na literatura. "Eu comecei a perceber, quando perguntava 'qual livro marcou a sua vida?', que a gente lê pouco as mulheres", diz a diretora.

"A Corda, Alice" é uma extensão do trabalho anterior. Também se abastece da literatura de escritoras consagradas –Adélia Prado, Hilda Hilst, Carolina de Jesus, Jane Austen, Virginia Woolf - e do processo de criação de um texto que foi sendo composto por meio do depoimento do próprio elenco.

Dal Farra afirma que se sente à parte de um cenário em que despontam as representatividades, de mulheres, negros e transexuais. "Antes, acho que estava num lugar que me dava mais impulso."

Ele se recorda de uma década, a anterior, em que o debate sobre as linguagens tendia a um tipo de análise política que perdeu pujança agora.
Dal Farra fez parte desse cenário. Ele foi autor da trilogia "Abnegação", iniciada em 2014, que observava os anos de lulismo e procurava pontos críticos aos que estavam no mesmo lado do espectro partidário dele, à esquerda.

"Abnegação" não era condescendente. Vasculhava a violência por trás de histórias como a do assassinato do então prefeito de Santo André Celso Daniel e se abria para questões sobre a rede de corrupção em governos petistas.

"Agora estamos em um momento difícil, mas interessante", afirma. "Agora existe o perigo de falar o óbvio, que o Bolsonaro é um filho da puta, o que para mim não interessa em nada", diz. "As pessoas que vão ao teatro não são de direita, o Bolsonaro não vai ver minha peça", crê.

A sensação, para ele, é a de que o lugar ocupado pela arte quando em oposição ao governo, bem como o universo criado pela representatividade de mulheres, negros e travestis, o põem numa espécie de vácuo temporal.

"Hoje há tendências muito claras. O teatro negro chega com muita força. Em 2019, fui curador do Festival Internacional de Teatro [em São José Rio Preto, no interior paulista], e isso era evidente", diz. "Nesse novo cenário estou num lugar diferente, um lugar que é menos claro para mim."

O dramaturgo, porém, se recusa a exercer um teatro político que caia, segundo ele, num "lugar de autocomplacência".

"O que tento fazer com essa nova peça é respirar, abrir espaço na nossa mente para lidar com o mundo. Sinto que, nesse novo cenário, a gente está se afogando. Estamos naquele movimento desesperado para tentar não se afogar, aquele movimento que pode nos levar mais para baixo."

"A Floresta" reflete essa inquietação. Carrega um universo levemente onírico, porém realista na essência. A situação é a de uma família que habita uma casa numa espécie de refúgio. Essa casa será invadida por dois estranhos.

As relações de submissão e violência vão sendo criadas sem correspondência com o que seria esperado de uma situação parecida na vida real. No elenco, estão atrizes de longa experiência, como Gilda Nomacce e Nilcéia Vicente, e integrantes do Tablado, como Clayton Mariano, ainda que a peça não seja do grupo.

"A Corda, Alice" não tem a mesma linearidade do drama, ainda que haja um fio condutor narrativo. Na peça, um grupo de seis mulheres chega a um lugar habitado por outras personagens femininas.

Sanches se abastece aqui de uma experiência que ganhou terreno principalmente nesta década, a do teatro de depoimentos. É um gênero que abandona a concepção clássica de personagens e de enredo, dando lugar ao compartilhamento de questões mais pessoais, às vezes íntimas.

Ela conta que 92 atrizes se candidataram para participar do espetáculo. "Eu tinha uma busca por faixas etárias diferentes. Cheguei a 24 nomes, entre 21 e 63 anos. E começamos a pesquisa", diz.

A diversidade de faixas etárias deu campo a um estudo específico. Cada atriz ligava para sua própria mãe, ou, no caso de ausências e mortes, para pessoas que pudessem falar sobre a figura materna.

"Vieram relatos dos mais variados. E, entre as meninas negras, surgiram muitas histórias de mães que haviam trabalhado, em casas de família, como empregadas domésticas", conta a atriz e diretora.

A questão da representatividade, para ela, é algo recente no teatro. "Na minha turma da faculdade não tinha negros. Essa abertura começa a partir de uns dez anos para cá. O grupo XIX não tinha negros."

Sanches conta que, quando esse cenário recente, só com brancos, "é apresentado para atrizes negras do grupo", fica patente que elas pertencem "a uma primeira geração que não teve que trabalhar como empregada doméstica".

As atrizes somam seus depoimentos às questões pescadas nas obras das autoras escolhidas. Esse tipo de experiência, diz Sanches, tende a permanecer. "Até as coisas se equilibrarem e essas vozes [mulheres, negras, transexuais] serem ouvidas de maneira igual, vai permanecer".

Correio Expresso - Edição 23.475

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