Coluna Luiz Antônio Mello: A corajosa viagem de Neil Peart pela África de bicicleta

Foi uma grande coincidência. Um amigo, Luiz Alves, o Chumbão, baixista e profundo conhecedor do trio canadense Rush, deixou na portaria de presente de Natal o livro “O ciclista mascarado”, um diário que o falecido baterista Neil Peart fez de uma corajosa viagem de bicicleta pela África Ocidental nos anos 1990. Ele morreu em 7 de janeiro último, aos 67 anos, de câncer no cérebro.

Não conheço o Rush muito bem. Como muitos também fui atropelado pelo seu fantástico álbum de estreia, em 1974, que abre com aquele petardo chamado “Finding my way”, mas foi voo de galinha, coisa rápida. Perdi contato com a banda (imperdoável) que só ouvia esporadicamente, apesar de ser uma das preferidas de alguns gurus como o saudoso Big Boy, que não cansava de enaltecer o baixo demolidor de Geddy Lee, a lancinante guitarra de Alex Lifeson, fundador da banda, e a bateria visionária com alma jazzista de Neil Peart.

Mas em 1990, Luiz Alves era produtor da Fluminense FM para onde eu havia retornado temporariamente para dar uma ajustada por lá. Ele, Cláudio Salles e Marcelo Scobino, também produtores e músicos, me apresentaram dignamente ao Rush que tocava muito na programação, especialmente bootlegs que eles levavam.

Eu achava que o Neil Peart era bronco, fechadão, recuado, mas me surpreendi lendo “O ciclista mascarado”, como me surpreendi, positivamente, ouvindo e vendo entrevistas dele depois de sua morte. Falador, simpático, irônico, o mais comunicativo do trio, creio. Comunicação e sensibilidade não faltam em “O ciclista mascarado” e, pelo que me dizem, também em seus outros livros. Um amigo, Hilário Alencar, me disse há tempos que “Ghost rider: a estrada da cura”, também do Neil, foi um dos melhores que leu.

Em seu relato sobre a odisseia de bicicleta pela África Ocidental, que durou um mês, ele mostra um ou outro surto de felicidade, de algumas crianças e idosos, mas no geral não passa panos quentes. Descreve condições humanas deprimentes, o esgoto a céu aberto, carcaças de carros abandonados em sub estradas sem pavimentação, a falta de higiene, saneamento, escolas, luz, água, falta de tudo, uma paisagem social desgraçadamente familiar para brasileiros sensíveis.

Neil Peart quis fazer esse tour pelo inferno em sua frágil bicicleta porque os dramas do Terceiro Mundo lhe interessavam. Ele conta que em Camarões, por exemplo, sobra corrupção, achaque por parte dos soldados que fazem barricadas para ganhar dinheiro em blitzes.

Na viagem, ele defronta com milícias armadas até os dentes, suas crises estomacais e um único prazer, pedalar a sua bicicleta, rápida para ir de uma cidade a outra em apenas uma manhã e lenta o bastante para perceber as pessoas humildes pelo caminho. Há um pouco de alegria no semblante de algumas. Uma longa jornada proporciona surpresas, choques culturais, momentos de fome, sede e conflitos internos.

Ele e um grupo de outros quatro desconhecidos dormiam em sleep bags no chão de sub habitações infestadas de baratas e outros insetos, temperatura ambiente de 45 graus, sensação de 50. Neil levou um livro de Aristóteles e um outro clássico, “Cartas a Théo””, com as cartas de Van Gogh para seu irmão, que teve a primeira publicação em 1914.

Escreveu muito em seu diário, inclusive algumas reflexões: “Há dois modos de se apreciar o ciclismo. Como meio para um fim, é o jeito perfeito de se viajar por um lugar desconhecido. Podemos encarar o ciclismo como um fim em si mesmo: girar os pedais e devorar a estrada é uma ação rítmica, revigorante e desafiadora que ajusta a mente numa rotina contínua e reconfortante. O mundo parece um lugar amistoso sobre o assento de uma bicicleta, e tudo o que não se pode realmente enxergar a partir desse ponto de vista tende a perder a importância.”

Ao longo do livro ele descreve com precisão sensações e sentimentos característicos das pedaladas. Recentemente li em um artigo uma entrevistada dizer que “toda vez que pedalo começo a chorar; não é uma sensação ruim, é só uma vontade, sem explicação.”

Sobre bicicleta e felicidade, Neil escreveu que “felicidade não é uma estação para se chegar, mas um modo de se viajar. Assim sendo, a felicidade é uma bicicleta. Andar de bicicleta é um bom modo de viajar em qualquer lugar, mas principalmente na África, onde você se torna independente e móvel, e assim viaja na “velocidade das pessoas” – rápido o bastante para se deslocar até a próxima cidade nas horas mais frescas da manhã, mas devagar o suficiente para conhecer o povo: o velho agricultor na beira da estrada que ergue a mão e diz “Vocês são bem-vindos”, a mulher incansável que oferece um sorriso tímido ao ciclista, as crianças das risadas que transcendem a casinha mais humilde.”

“Minha filha Olivia me apresenta aos amigos da escola dele como ‘Meu pai é um baterista aposentado.’ Isso é verdade. E não me dói perceber isso, é como todos os atletas, há um momento no qual você sai do jogo. Eu prefiro me retirar a ter de enfrentar o que descrevemos em ‘Losing it’ (‘Mais triste ainda por vê-lo morrer, a nunca ter conhecido isso’)”, encerra o músico.

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