Pin It

Por Aziz Ahmed

Nos dourados anos 1950 e 1960, Samuel Wainer (1910-1980), dono da extinta “Última Hora”, se reunia até altas horas da madrugada em mesa cativa no badalado piano-bar Sacha, na Avenida Princesa Isabel, em Copacabana, com a fina-flor da grã-finagem carioca. Ao deixar o jornal, recomendava a Jorge de Miranda Jordão, diretor da redação, que lhe telefonasse quando fechasse o vespertino para informar sobre o conteúdo da edição e qual seria a manchete. Lá pelas duas da madrugada, Miranda ligava para o patrão, o garçom levava o telefone com o fio estendido até a mesa onde ele estava com os amigos, Miranda fazia o relato e informava:

— A manchete é “Matou a amante pra ficar com o marido dela”.

Enquanto a turma, curiosa, testemunhava a cena, Samuel dava um tempo de ordenava:

— Essa não, Miranda! Coloca “Matou a amante pra ficar com o marido dela”.

Repetia a mesma manchete. De madrugada, quando saía da boate, os jornaleiros estavam nas ruas apregoando a manchete, enquanto Samuel encarava os amigos com um ar triunfal.

Samuel era tido como “O Rei das Manchetes”.

Jorge de Miranda Jordão, nascido em Salvador (BA), em agosto de 1932, faleceu na segunda-feira (10), de complicações decorrentes de um câncer. Essa e outras histórias, que ele contava, inspirou-me a escrever o livro “Memórias da imprensa escrita”, para o qual deu um rico e fascinante depoimento.

Ele veio cedo para o Rio e começou a trabalhar na “Última Hora” em 1954, tornando-se amigo de Samuel Wainer. Dirigiu a UH de Porto Alegre. Com a morte da “Última Hora”, golpeada pela ditadura, depois de um período tocando uma empresa de comunicação, foi convidado por Octávio Frias (1912- 2007) para lançar a “Folha da Tarde”, em São Paulo. Amigo de Frei Betro, que ele levou para chefiar a reportagem da “Folha da Tarde”, foi preso durante o regime militar.

Frei Betto, que conheceu Jorge de Miranda Jordão em 1967, conta:

— Casos de amor não cabem nos estreitos limites da razão explicativa. Jorge e eu formávamos uma dupla que tinha tudo para dar errado. Ele, ateu e eu, cristão; ele, boêmio nas horas vagas e eu, frade; ele diretor de redação e eu, repórter da Geral; ele notívago e eu, matutino; ele apolítico e eu, de esquerda.

Mas deu muito certo, segundo o relato afetivo de Frei Betto, que o tachava de “irmão”.

Miranda Jordão foi também diretor de Redação de “O Dia”, no Rio, e do “Diário Popular”, em São Paulo. Neste último, protagonizou um fato histórico na imprensa brasileira, como lembra o jornalista Luís Nassif, em artigo no “JornalGGN”.

— Haveria muita coisa a contar de Miranda Jordão, excepcional jornalista, chefe e caráter. Mas a reportagem que o consagrou definitivamente foi a que ele não escreveu. Quando dirigia o “Diário Popular”, proibiu que o jornal entrasse no caso da Escola Base. Foi um momento de grandeza ímpar na imprensa brasileira — concluiu Nassif.

Em 1994, seis funcionários da instituição de ensino foram acusados injustamente de abuso sexual, numa escandalosa fake news. No depoimento para meu livro, Miranda explicou:

— Não publiquei porque não acreditei naquela história, até que foi visto tratar-se de uma farsa. Não publiquei uma linha.

Jorge de Miranda Jordão foi sepultado quarta-feira (12), no jazigo da família, no cemitério do Catumbi. Deixa viúva Lucila, e três filhas: Tatiana e Helena, do primeiro casamento com Marlene Lima e Slva, e Patrícia, do casamento com Germana de Lamare, além de quatro netos e uma extensa legião de amigos e admiradores.