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Por Affonso Nunes

A maior fama de João Roberto Kelly pode mesmo até ser as marchinhas carnavalescas, mas, com seu piano, produziu muito mais que isso. Seu primeiro reconhecimento de público e crítica veio na voz de uma jovem e promissora cantora, que fazia sua estreia fonográfica em 1961. Era Elza Soares.

- Meu primeiro sucesso é o primeiro da Elza também: “Boato” - lembra ele.

A canção marcou a trajetória da cantora, que a regravou em vários álbuns. Apesar de naquela época existir uma certa rixa de cantoras não gravarem músicas que se tornaram sucesso com outra artista, Elizeth Cardoso regravou “Boato”, assim como outras composições de Kelly, como “Esmola” e “Se vale a pena”.

Elis Regina também gravou uma canção de João Roberto Kelly em seu primeiro álbum.

- Era “Dor de cotovelo”, que está em seu primeiro long play - lembra o compositor com orgulho.

Mas a canção que mais lhe agrada é “Rancho da Praça Onze”, parceria com Chico Anysio e eternizada na voz de Dalva de Oliveira. Uma ode aos antigos carnavais. “Esta é a Praça Onze tão querida/ Do carnaval a própria vida/ Tudo é sempre carnaval/ Vamos ver desta Praça a poesia/ E sempre em tom de alegria / Fazê-la internacional”, cantava Dalva em seus primeiros versos.

Os estudos de piano começaram cedo em casa. Mas o grande aprendizado para compor rápido (e bem) foi a televisão, que dava seus primeiros passos no Brasil.

- Quando comecei, foi fazendo trilhas de televisão. Fiz trilhas e mais trilhas - lembra.

A primeira trilha, no entanto, foi para um espetáculo do teatro de revista, “Sputnik”, de 1957, de Leon Eliachar e Geysa Boscoli. A peça estreou no Teatro Jardel, o primeiro teatro de bolso fundado em Copacabana, por Geysa, e que abrigou inúmeros espetáculos de revista.

Estreia na TV

Das revistas para a TV foi um pulo. Em 1963, Kelly foi contratado pela TV Excelsior para fazer aberturas de programas. No ano seguinte, Chico Anysio e Carlos Manga o convidariam para musicar os quadros humorísticos do programa “Times Square”. Depois viria “My fair show”, com direção de Carlos Manga e Maurício Sherman.

O gosto pelas marchinhas carnavalescas, que repetiam as crônicas de costumes das revistas em forma sintética e de fácil apelo popular, fizeram o jovem compositor aventurar-se no gênero. Composta para o carnaval de 1963, “Cabeleira do Zezé” tornou-se sucesso instantâneo num compacto de Jorge Goulart. Ele ainda daria voz a outra marcha de Kelly: “Joga a chave, meu amor”, também sucesso no carnaval.

- Os grandes compositores de marchinhas eram Lamartine Babo, Braguinha e Haroldo Lobo. Eles tiveram a generosidade de me incluir no time e hoje sou o último representante dessa turma. É uma honra estar nesse quarteto. Já na TV Rio, em 1965, Kelly foi compor as trilhas do programa “Praça Onze”, com textos de Meira Guimarães e J. Rui.

Com personalidade carismática e uma carioquice explícita, passou, a pedido de Walter Clark, a produzir e apresentar os programas “Noites Cariocas” e “Musikelly”.

Em 1966, apresentou no Canal 5 de São Paulo o programa “Alegro” e “Tonelux”, na TV Globo. Na década de 1970, voltou para a TV Rio e apresentou o programa “Rio dá samba”, que ficou 12 anos no ar, trazendo todas as novidades do mundo do samba. Eram divertidos os programas que levavam ao estúdio da emissora intérpretes, passistas e ritmistas de todas as escolas de samba cariocas e, obviamente, tudo acabava num grande baile, com sambas enredos e marchinhas.

Tricolor apaixonado, João Roberto Kelly nutre amor idêntico por uma instituição do carnaval carioca, o Cordão do Bola Preta, para o qual compôs, em 2018, a marcha “Cem anos de Bola”, gravada por Neguinho da Beija-Flor.

- O Fluminense não está lá essas coisas, mas minha outra paixão, o Bola Preta, sempre me traz alegrias – diverte-se Kelly, que não perde a oportunidade de expressar o seu amor pelo maior bloco da cidade.

Serviço

JOÃO ROBERTO KELLY E SUAS MARCHINHAS

Teatro Rival Refit (Rua Álvaro Alvim, 33 - Cinelândia);

19/2, às 19h30;

Ingressos: R$ 60 e R$ 30.