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Por Cecília Costa

Neste último mês de janeiro, a Editora Glaciar, de Jorge Reis-Sá, lançou em Lisboa a “Poesia Completa” do poeta carioca Ivan Junqueira, com o apoio da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Fundação Calouste Gulbekian. Trazendo na capa um corvo com um coração pendurado no peito, trabalho do artista gráfico Rui Garrido, a edição ficou primorosa. Contém os nove livros de poesia de Ivan Junqueira, dez poemas inéditos, introdução do crítico Ricardo Vieira Lima, longa entrevista também feita por Ricardo, posfácio do acadêmico, poeta e professor Antônio Carlos Secchin, cronologia literária, e, por fim, uma fortuna crítica selecionada.

Os livros de poesia reunidos no volume de quase 500 páginas são “Os mortos” (1956- 1964); “Três meditações da corda lírica” (1968), “Opus descontínuo” (1969-1975), “A rainha arcaica” (1979), “Cinco movimentos” (1982), “O grifo” (1983-1986), “A sagração dos ossos” (1989-1994), “O outro lado” (1998-2006) e “Essa música” (2009-2013).

Além de poeta, Ivan Junqueira foi ensaísta, tradutor e membro da ABL. Nasceu em 3 de novembro de 1934, no Rio, onde morreu, em 3 de julho de 2014.

O título “Essa música” foi publicado postumamente pela Editora Rocco em dezembro de 2014, por ocasião dos festejos dos 80 anos do poeta recém-falecido, assim como seu último livro de ensaios, “Reflexos do sol-posto”. Os inéditos, que datam de 1954 a 1958, pertencem a uma coletânea de 36 poemas, organizada pelo poeta, possivelmente com vistas à futura publicação.

A possibilidade ler Ivan Junqueira na totalidade deverá conceder ao leitor português - e também ao brasileiro, já que o livro deverá ser vendido na Livraria da Travessa – a oportunidade de obter um contato mais profundo com sua lírica, que deverá acabar com a percepção mais difundida de que foi um “poeta da morte”.

Como explica Ricardo Vieira Lima no estudo introdutório, se quando foi publicado “Os mortos”, em 1974 (tinha 30 anos), Ivan Junqueira poderia ser considerado um poeta obcecado pelo término físico da existência humana, a sua e a alheia, por não acreditar na imortalidade da alma, mais maduro foi se libertando do exaspero metafísico, não por ter se tornado um homem religioso, mas por considerar que existe um mistério na condição humana que ultrapassa a fronteira da morte e da vida.

Mesmo assim, é inexorável o fato de a poesia de Ivan ser dotada de uma unidade de temas, que gira em torno de morte e vida, dor e amor, e um lamento permanente quanto à perda da infância, como se quisesse manter intato dentro de si o menino inocente que fora um dia e que olhava para a realidade com olhos de espanto e admiração.

Quanto à forma, erudito e adepto da pureza lexical, expressou-se por meio de todos os ritmos e métricas canônicas, tendo criado réquiens, baladas, madrigais, toadas, canções, elegias, sonetos, terzinas, dísticos e oitavas, com total domínio de seu ofício. Virtuosi ou master, assinala Ricardo Vieira Lima, o poeta carioca não temia decassílabos, redondilhas, tetrassílabos, hexassílabos, octossílabos e alexandrinos, sendo notável o uso da rima toante. Com raízes profundas no passado, não descartava o novo, tanto que também trabalhou com versos livres e haicais. O inescrutável embate com as palavras foi abordado em vários versos metapoéticos, como em “Poética” de “Sagração dos ossos”. “A arte é pura matemática/ como de Bach uma tocata/ ou de Cézanne a pincelada/ exasperada, mas exata.”

“Poeta do pensamento”, como o denominou o amigo Secchin, Ivan manteve a unidade do começo ao fim, não tendo nenhum livro com qualidade discutível, já que o que considerou ruim ou mediano ele destruiu. Mesmo os primeiros poemas, os inéditos, são bons, porque auxiliam a entender suas opções, indagações e tormentos. As influências é que foram sendo alteradas. Se no começo da caminhada os principais modelos foram Carlos Drummond de Andrade, Augusto Frederico Schmidt, Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, ao longo da vida os poetas de predileção passaram a ser Charles Baudelaire e T.S. Eliot, tanto que os traduziu para melhor compreendê-los.

Reconhecido ainda em vida, tendo ganho cinco prêmios Jabutis e entrado para a ABL, ocupando a cadeira 37, que pertencera a João Cabral de Mello Neto e posteriormente seria ocupada por Ferreira Gullar e Arno Wehling, o poeta carioca gostaria de ter tido mais leitores. Mas acontece que seus poemas não são assimilados facilmente. Devido à exigência formal, Ivan não nos agarra logo de cara; nós é que temos que descobri-lo e incorporá-lo ao panteão dos poetas que amamos, por ter sido o grande poeta brasileiro que foi, é e sempre será. Com isso, vale a pena lê-lo atentamente e ouvir sua voz dolorida até chegar a “Essa música”, o livro mais luminoso, no qual rende-se ao enigma de Deus e da alma.

Ao analisar sua obra, Ricardo Vieira Lima faz uma divisão perceptiva e inteligente, dividindo-a em quatro partes: o poeta maior que a morte; a morte maior que o poeta; a vida maior que a morte, e a morte equivalente à vida, equivalência essa que surge, sobretudo, em “O outro lado” e em “Essa música”, com destaque para o livro póstumo. Em “O outro lado”, Deus é citado sete vezes. Já em “Essa música”, na qual o Ivan cai de joelhos diante da “nua luz da alma humana” (poema “O relâmpago”), há 14 menções à palavra morte, 12 menções à palavra vida e 11 citações ao vocábulo alma.

Deus se faz presente no belíssimo final do poema dedicado à Joana D’Arc (no fim da vida Ivan chorava ao ver filmes sobre a Donzela de Orléans): “Eu mal sequer completara/dezenove anos de idade!/ Uma outra vez era maio,/ o último ao que eu chegara.//E foi só. Houve um fugaz/ clarão. As trombetas soaram/ Vi Deus face a face. E acordei na eternidade”. E Cristo é mencionado em dois poemas, um deles o maravilhoso “Ecce Homo”, que termina da seguinte forma: “Este homem, que hoje se esquece/já não mais se reconhece//a si ou à sua história,/ ao ser humano, essa escória.//No entanto, vê-se que ele ora/por nós agora e na hora/ da minha e da tua morte,/mesmo que isso não te importe.”

Dizendo-se “apenas um poeta a quem Deus deu voz e verso”, Ivan Junqueira merecia esta “Poesia Completa”, que com certeza o deixou muito feliz, esteja onde estiver. Se o corpo físico morre, a alma imortal fica, especialmente quando metamorfoseada em poesia. “Faz do sangue a tua tinta e verás que o sangue é espírito”, afirmou no poema “Último”.