Por João Victor Ferreira

Dentro da impecável filmografia do cineasta americano Stanley Kubrick, certamente a sua empreitada no cinema de terror em 1980, com a adaptação do livro “O Iluminado”, é um destaque dentro da sua carreira. Muito polêmico e a frente do seu tempo, Kubrick sempre teve o estilo de inovar o gênero que estava trabalhando, se privando de clichês e vícios
da linguagem do horror. 

O movimento cinematográfico conhecido como a Nova Holywood (mais ou menos de 1960 até 1980) reuniu trabalhos de diversos diretores que pretendiam inovar a linguagem cinematográfica dos grandes estúdios. Experimentações na edição e nos planos, além de narrativas mais soturnas e finais tristes discrepavam com a felicidade hollywoodiana da Era de Ouro do cinema americano (1930 – 1940). Uma moda comum nessa época eram esses mesmos diretores, cinéfilos por natureza, experimentarem essa nova linguagem no terror, gênero até então renegado ao entretenimento B. São com temas mais sombrios, ligados ao satanismo e o sobrenatural, que Roman Polanski faz “O Bebê de Rosemary” (1969) e Brian de Palma adapta o romance “Carrie, a Estranha” (1976). Mesmo assim, não há dúvida de que foi Kubrick quem realizou o trabalho mais emblemático dentro do estilo, sendo referência até hoje para filmes do gênero e para o cinema no geral.

A adaptação do romance homônimo de Stephen King causou diversas polêmicas com o escritor que na época renegou a obra, alegando que estava muito distante da narrativa do livro. Fãs de King podem até entender a consideração, mas não há como negar que Kubrick fez um trabalho primoroso de adaptação, muito acostumado com isso – lembrando que maioria
dos filmes do cineasta são baseados em livros. Nos anos 1990 inclusive, Stephen King trabalhou na realização de uma série de TV de “O Iluminado”, escrevendo um roteiro mais fiel à sua obra. Por conta do apego dos fãs ao filme de 1980, somado a direção morna dos episódios, fez com que a série fosse um completo fracasso na época, não sendo quase lembrada hoje.

Dentro dos aspectos técnicos, o filme também inova a linguagem do gênero. Os movimentos de câmera suaves, quando Danny (Danny Lloyd) anda com o seu triciclo pelo Hotel Overlook, é um dos exemplos mais notáveis. O cenário impecável do Hotel milimetricamente pensado e decorado, transforma o lugar também em um personagem importante na narrativa criada. O poder imagético que “O Iluminado” têm até hoje no imaginário coletivo de terror – e do cinema no geral – é tão notável que imagens emblemáticas perduram para sempre na cabeça de qualquer um que assistiu o filme: a porta do elevador abrindo, enquanto escorre um rio de sangue; as duas irmãs de azul paradas no meio do corredor; o rosto de Jack Nicholson no meio da porta quebrada. Interessante lembrar que o filme tem tanta força até hoje – com quase 40 anos –, que recentemente Steven Spielberg o utilizou como referência que compõe a história de “Jogador N°1” (2018). 

A trilha sonora é antológica, com o primoroso trabalho de Wendy Carlos, primeira “trilheira” transsexual a compor em um filme de grande orçamento. Toda a sequência inicial da
câmera seguindo o carro que anda infinitamente pela longa estrada, ao som de uma trilha violenta e grave, é memorável. É incrível como o filme já estabelece, em poucos minutos, o tom e a temática do que será discutido como principal elemento humano para a criação do terror: o isolamento. 

O estudo de personagem, aliado a interpretação dos atores, é aqui um dos mais bem feitos do cinema. Vemos a progressão gradual de Jack como um professor de inglês ex alcoólatra falido, até tentar ser um escritor desiludido e por fim um assassino que só vê uma solução para se libertar do fracasso que é a sua vida: se matar e matar a sua família. O desespero maternal na interpretação de Shelley Duvall (Wendy Torrance) contrasta muito bem com a loucura de Jack e a impotência do filho Danny, tornando-a o ponto de sustento emocional do público em meio aos horrores que ela é obrigada a viver com o seu marido – e com o diretor.

Vale lembrar que Shelley protagonizou a cena com mais cortes da história do cinema, onde o obsessivo Kubrick, na sequência em que Jack a persegue com um taco de beisebol, a
fez repetir o plano 137 vezes. O diretor era exagerado a ponto de reescrever o roteiro em que pensou durante anos no meio das filmagens, ouvindo inclusive contribuições propostas por Jack Nicholson ( Jack Torrance).

 

MAIOR ÊXITO DO DIRETOR

Não há dúvida de que a recepção de “O Iluminado” mudou completamente a lógica da produção dos filmes de terror, repercutindo no sucesso do gênero ao longo dos anos. Com a arrecadação de mais de US$ 44,4 milhões, o filme foi o mais rentável da carreira do diretor, o que auxiliou a produção de outros projetos independentes que Kubrick pretendia logo em seguida. Antes de “O Iluminado” – e dos outros grandes filmes de terror dos anos 1970 e 1980 –, o gênero era extremamente renegado como entretenimento B, voltado a baixos orçamentos e um público muito pequeno. Foi com os filmes de terror da Nova Hollywood que o gênero ganhou as grandes telas e a importância cinematográfica até por parte da crítica, sendo inclusive assistido por segmentos diferentes do público. 

Algumas tendências do gênero de horror nos dias de hoje são influências passadas pelo sucesso de “O Iluminado”. O grande carro-chefe dos últimos dez anos foram as produções sobrenaturais da Warner Bros, depois de criar o seu próprio universo macabro com os filmes do medonho James Wan.