Por João Victor Ferreira

A sequência de filmes em torno dos demonologistas Ed e Lorraine Warren começou em 2013 com “Invocação do Mal” e já rendeu quase cinco filmes derivados desse universo sombrio que achou um público muito fiel. O que antes era domínio do estúdio Universal, conhecido pelos clássicos filmes de monstro como Drácula, Frankenstein e a Múmia, hoje passa o bastão para as mãos de outros monstros como Anabelle e a Freira.

Mas sem dúvida alguma, a maior influência que “O Iluminado” tem para os fãs do gênero é o crescimento de filmes classificados como “pós-horror”. O termo foi criado por um crítico de cinema americano que pretendia explicara nova tendência de filmes de terror, mais focados em tramas psicológicas e que apostavam mais na construção de clima do que em sustos para gerar o horror. Uma referência que sempre vem na fala dos diretores de filmes como “A Bruxa”, “Hereditário”, “Corra” e “Ao cair da Noite” é o filme de Kubrick. Da mesma forma que o filme de 1980, esses novos títulos de terror focam no horror dentro do drama dos protagonistas, dos enquadramentos sugestivos e de uma edição que cria uma imagem mental pregressa da monstruosidade que pode vir a acontecer, mas nunca de fato aparece em tela. Esses filmes apostam muito mais no clima, do que no visceral.

Toda a construção do medo no filme de Stanley Kubrick é um processo extremamente sofisticado e polido. Assim como definido em textos e entrevistas do próprio Stephen King, existem basicamente três níveis do medo. Primeiro a repulsa como o nível mais baixo, onde o medo é decorrente da contração física ao vermos algo nojento, violento ou escatológico. Logo em seguida vem o horror, quando elementos que “não deveriam estar ali” aparecem no mundo normal – é aqui que surgem monstros e eventos sobrenaturais. O último estágio – que é o que Kubrick mais trabalha em seu filme – é o terror. O terror é basicamente a sugestão de algo desconhecido, de modo a instigar o público a experimentar o medo na sua mais pura forma. Quando o perigo é sutil e sugestionado, ele funciona muito mais dentro da cabeça e das expectativas do público, do que efetivamente uma aparência física para esse “mal”. “O Iluminado” entendeu muito bem isso no cinema, construindo gradativamente a tensão, até o momento em que esse “balão explode” no final, incutindo visceralmente a paranoia e o medo em qualquer um que o tenha assistido.

DOUTOR SONO

Lançado em setembro de 2013, como continuação do Best Seller “O Iluminado” (1977), “Doutor Sono” é o 61º livro da extensa carreira de Stephen King e veio para as livrarias como o grande retorno de King ao terror ‘mantenha as luzes acesas’, que é aquele estilo mais explícito e gráfico, tentando assustar o leitor com a formação de imagens aterrorizantes na mente de quem acompanha a história. Ele foi bem recebido pelo público e chegou à primeira colocação da lista de Best Sellers do jornal americando New York Times. Além de ter saído como vencedor do prêmio Bram Stoker de Melhor Romance do ano de 2013.

Na trama, acompanhamos Danny Torrance vários anos após os eventos do Hotel Overlook, enquanto ele tenta lidar com as marcas de seu passado e uma grave crise de alcoolismo. Porém, nesse tempo, os espíritos do Hotel passaram a persegui-lo atrás de seu “brilho”. Por conta disso, Danny se envolve em uma série de desventuras que podem terminar com consequências trágicas.

Na trama, acompanhamos Danny Torrance vários anos após os eventos do Hotel Overlook, enquanto ele tenta lidar com as marcas de seu passado e uma grave crise de alcoolismo. Porém, nesse tempo, os espíritos do Hotel passaram a persegui-lo atrás de seu “brilho”. Por conta disso, Danny se envolve em uma série de desventuras que podem terminar com consequências trágicas.

Após os eventos macabros de “O Iluminado”, Danny Torrance (Ewan McGregor) é agora um homem adulto, ainda atormentado pelos demônios do seu passado. Ele encontra Abra (Kyleigh Curran), uma garota com o mesmo dom de iluminação que Danny tem, só que muito mais forte. Então cabe ao - agora adulto - Dan proteger Aba de um culto estranho que caça e mata indivíduos portadores dessa intrigante força sobrenatural.

O diretor, Mike Flanagan realiza várias mudanças em relação ao tom abordado por Stanley Kubrick no filme O Ilumidando.

A primeira diferença notável é estabelercer a proposta de aproximar a história do longa-metragem ao material original, o livro de Stephen King - algo que Kubrick não levou em consideração, trazendo uma interpretação própria do terror escrito de King, tanto que a loucura de Jack Torrance é abordada de forma mais humana, deixando o sobrenatural em segundo plano.

O novo filme não é tão sugestivo quanto “O Iluminado”, e aposta em uma fisicalidade sobrenatural mais palpável. Sai aquele terror humano e entra o assustador místico. De modo algum isso é trabalhado como demérito, já que a longa duração do filme (cansativas duas horas e meia) nos dá tempo de absorver tudo isso, não sendo desenvolvida de forma apressada como um trem fantasma. 

A duração do filme, em alguns momentos dá a sensação de estar prolongando algo desnecessário, chegando ao ponto de confundir o próprio tom estabelecido. Ele parece não se decidir entre ser uma história intimista, uma história sobrenatural ou uma história de “caça entre gato e rato”.

A direção consegue se sustentar sem tentar copiar o trabalho pregressista de Kubrick, de modo que os planos e conceitos repetidos do primeiro filme, soam mais como uma justa homenagem do que uma cópia em si. Flanagan inclusive cria algumas soluções imagéticas muito interessantes na representação do místico e sobrenatural, diferente do primeiro filme, que é mais pé no chão.

A alma de “Doutor Sono” passa diretamente pela interpretação de Ewan McGregor, que atua de forma brilhante, conseguindo passar muito bem a fisicalidade e os traumas de um adulto quebrado e assombrado pelo seu passado problemático. 

A questão do alcoolismo gera um paralelismo com as atitudes “herdadas” do pai, Jack Torrance, e ajuda muito bem a construir o método de atuação de McGregor, além, claro, de aprofundar o roteiro.

O filme funciona muito bem em um núcleo curioso, que é “dentro da cabeça de Danny”. O segmento do culto paranormal e suas motivações não é lá muito bom, embora a personagem Rose the Hat, vivida pela fantástica Rebecca Ferguson, consiga redimir tudo isso.

A jovem Abra, personagem de Kyleigh Curran, funciona bem ao lado de Danny nessa jornada macabra. O que mais pode gerar controvérsia entre o público é o terceiro ato que não abre mão das referências ao filme de 1980. Pode- -se dizer que, como ferramenta utilizada para fechar e amarrar os dois filmes, as referências funcionam bem. Analisando como segmento do roteiro, que precisa fazer com que o filme se sustente por si só, o uso demasiado das referências não parece tão bem justificado, e acaba testando um pouco a paciência do espectador.

Enfim, “Doutor Sono” não é melhor do que “O Iluminado” e sabe disso. É uma continuação devida para a história de Danny Torrance e consegue achar um meio termo entre adaptação para agradar aos fãs dos livros, mas sem perder os entusiastas da visão de Stanley Kubrick sobre a obra. É uma visão interessante e que merece ser conferida nos cinemas, apesar de não ser nenhuma obra-prima.