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Por Pedro Sobreiro

Quem se encanta com o Rock In Rio pode não saber, mas tudo isso teve início há mais de um século, com o espírito empreendedor de um dos maiores nomes da produção cultural brasileira: Abraham Medina. Envolvido diretamente com o desenvolvimento do Rio de Janeiro no século XX, seja planejando eventos ou investindo no estado, Abraham deixou uma linhagem de muito sucesso. Seus filhos, Roberto, Rubem e Ruy cresceram e se tornaram mega empresários dentro de seus respectivos ramos. O legado mais conhecido da família Medina é o Rock In Rio, mas quem anda pelo Rio de Janeiro, mesmo sem saber, passa por contribuições de Abraham e sua linhagem.

Paraense de nascimento e carioca de coração, Abraham veio para o Rio de Janeiro ainda muito novo. Vivia em uma casa com seu pai, Isaac, seus três irmãos, Jacob, Sol e Guido e a madrasta Reneé. Isaac era dono de uma prestigiada loja de pianos e, apesar de não se falarem tanto, foi na loja que Abraham aprendeu a mexer e a consertar os instrumentos. A infância do menino foi solitária e repleta de momentos abusivos, principalmente quando a situação envolvia Reneé. Aos dez anos, Abraham saiu de casa, após madrasta tentar afogá-lo como castigo por ter “assaltado a geladeira”. Ele foi morar com seu tio, Samuel Garson, de apenas 19 anos. Ele tinha um negócio de conserto de pianos no Rio e colocou o garoto para ajudar no trabalho.

CASA GARSON

Em 1930, os lucros foram o suficiente para que Samuel abrisse uma loja de pianos. A parceria entre os dois mostrou resultado e o estabelecimento se consolidou. Aos 16 anos, Abraham, um jovem visionário que já trabalhava na área comercial da Casa Garson, teve o insight de se colocar à frente do mercado e trabalhar com futuras tendências. Grandes nomes da música brasileira, como Ary Barroso e Noel Rosa, despontavam nas rádios. Então, ele sugeriu ao tio que a Casa Garson investisse então nos aparelhos de rádio. Com o tempo, Abraham foi crescendo comercialmente e passou a tomar conta de parte dos negócios. A Casa Garson virou uma poderosa franquia de venda de eletrodomésticos e o jovem conseguiu um bom poderio financeiro.

Os jovens Roberto e Rubem Medina junto ao pai, Abraham. Foto: Arquivo familiar

O REI DA VOZ

O sucesso na Casa Garson o incentivou a abrir seu próprio negócio. Em homenagem a Francisco Alves, chamado de Rei da Voz, tio de sua esposa e seu ídolo na música, Abraham abriu uma franquia de eletrônicos inovadora: O Rei da Voz. Certa vez, o Medina Pai comprou televisores americanos de último tipo. Mas como a máquina ainda não era popular nos lares brasileiros, ele entendeu que o jeito de vendê-las seria criando e patrocinando um programa que fizesse o povo comprar os aparelhos.

NOITE DE GALA

Dessa forma, Medina uniu nomes como Armando Nogueira, Chico Anysio, Grande Otelo, Boni, Ronaldo Bôscoli e Miele para bolarem um programa tão espetacular que faria as famílias ficarem em seus lares em vez de irem passear ou ir ao teatro.

Assim nasceu o Noite de Gala, que reunia grandes reportagens, humor e esportes, em um formato que viria a inspirar o Fantástico, da Rede Globo. Sua maior reportagem foi uma entrevista exclusiva com o presidente americano John F. Kennedy no auge da Guerra Fria. A entrevista foi realizada por Rubem Medina, filho de Abraham, e bateu recordes de audiência.

“TÔ” NO BELLINI

Dentre as inúmeras estátuas e monumentos doados por Abraham, a estátua do Bellini é a mais famosa. Ponto de encontro dos torcedores cariocas em dia de jogo no Maracanã, o Capitão da Seleção Brasileira e ídolo de Vasco e São Paulo foi imortalizado após o bicampeonato da Seleção no Chile e foi pensado como mais uma forma de atrair turistas para o Rio de Janeiro, que se recuperava moralmente de ter perdido o posto de Capital do País para Brasília.

SECRETÁRIO NÃO OFICIAL

Visando mostrar ao mundo que o Rio ainda era o Cartão Postal do Brasil e merecia ser alvo de investidores, Abraham produziu uma série de eventos faraônicos na ex-capital, como o histórico show de Ray Charles no Maracanãzinho, o Festival da Cultura, os desfiles de natal no fim do ano com a presença de astros internacionais, diversas apresentações artísticas de balé, a festa do IV Centenário do Rio de Janeiro e o I Grande Circuito Automobilístico do Estado da Guanabara, disputado na Barra da Tijuca. Seus feitos eram tão benéficos para o Rio que a imprensa o apelidou de “Secretário de Turismo Não Oficial do Rio de Janeiro”.

MIGUEL PEREIRA

Abraham foi fundamental para o desenvolvimento do município fluminense de Miguel Pereira. Além da construção de um resort para os funcionários de suas empresas, o Medina Pai investiu na construção do Miguel Pereira Atlético Clube, com quadras e piscinas para o uso da população, e no Hospital Fundação Miguel Pereira, além de trabalhar na publicidade do local. Foi ele quem atribuiu o slogan “Terceiro Melhor Clima do Mundo” à região. A justificativa para ser apenas o terceiro é que ninguém inventaria ser o terceiro melhor em alguma coisa, então seria um título pouco questionável. Também foi ele quem surgiu com o nome “Cidade das Rosas”. Para isso, ele contratou diversos jardineiros que encheram o município das mais belas rosas.

DITADURA

Enquanto fazia suas melhorias pelo Rio de Janeiro, o Noite de Gala seguia como líder de audiência na televisão. O humor satírico e politizado era muito forte no programa. Então, apesar de ter apoiado a deposição de Jango, o programa seguia criticando o golpe de 64 e a ditadura militar. O tom crítico dos quadros não agradou o regime ditatorial. Certo dia, em 1967, os membros mais altos do governo, com exceção do General Costa e Silva, foram até o escritório de Abraham para ordenar que o Noite de Gala -na época, transmitido pela Rede Globo - acabasse com as críticas. Revoltado com o que ouviu, Abraham se negou a atender a ordem e ouviu dos Militares que algo seria feito a respeito. No mesmo dia, Roberto Marinho ligou para Abraham Medina para informar que o Noite de Gala, programa líder de audiência há 12 anos consecutivos, seria removido da programação. O empresário pediu um programa de despedida. No último Noite de Gala da história, Abraham abriu com um pronunciamento feito por ele mesmo criticando duramente os militares. O discurso, porém, foi cortado logo no início, quando um militar cortou o áudio do programa.Abraham e Rubem ainda seria levados pelo exército e apanhariam por “subversão”.