Por Rodrigo Fonseca (Especial para o Correio da Manhã)

E xiste algo de premonitório na frase “Mais cedo ou mais tarde ia acontecer, era inevitável”, escrita por Marçal Aquino num conto de um de seus primeiros sucessos literários, “As fomes de setembro” (1991), quando se avalia seu mais recente trabalho: “Carcereiros – O filme”, que estreia neste fim de semana. É um dos longas nacionais mais esperados deste fim de ano. A expectativa tem a ver com a tal da “inevitabilidade” apontada por seu roteirista: o projeto deriva de um dos seriados de maior sucesso de pública e crítica da TV aberta e do streaming no Brasil nesta década. Derivada dos escritos do Dr. Drauzio Varella sobre o universo dos presídios, a série celebrizou como herói o agente penitenciário Adriano (Rodrigo Lombardi), homem da lei íntegro e avesso à violência. Com ele, desenhado numa fina parceria com o cineasta José Eduardo Belmonte, Marçal criou reputação como autor de televisão tão boa (e bem-sucedida) quanto a que desfruta na literatura, confessadamente sua maior paixão. O escritor e jornalista, hoje com 61 anos, faz, nesta entrevista, uma revisão crítica da educação pela pedra – a da Justiça – que teve em sua viagem pelo universo das casas de detenção.

CORREIO DA MANHÃ: Que Brasil vocês descobriram no tráfego pelo universo dos agentes penitenciários? O quanto Adriano sintetiza esse mundo atrás das grades?

MARÇAL AQUINO: Não tem como sair ileso de um mergulho desse tipo – já são alguns anos imerso no universo carcerário, tanto o masculino quanto o feminino. É o circo de horrores que cada um de nós imagina no conforto de nossos lares. Estamos sempre aprendendo algo sobre a natureza humana, que nos serve como cidadãos, em primeiro lugar, e depois como criadores. O Adriano foi nossa pretensão de voltar a um herói de bons princípios e ótimas intenções, que são sempre questionados nos confrontos inglórios de seu dia a dia. Andávamos meio cansados de focar em anti-heróis, que estão ficando cada vez mais convencionais, e os tempos não são para esse gênero de personagem. Adriano funciona meio como um host, que nos leva pela mão (e pela consciência) a um passeio pelo inferno. 

O quanto o filme dialoga com a tradição do cinema social, de thrillers urbanos, que vão de “Lúcio Flávio” a “Tropa de elite”? 

Mais do que qualquer discurso, a preocupação inicial do time de roteiristas, que inclui o Fernando Bonassi, o Dennison Ramalho e o Marcelo Starobinas, foi criar um filme de ação pura, cheio de adrenalina. Mas, considerando o âmbito onde se passa a trama, é inevitável fomentar reflexões a partir de comentários e situações que aparecem no filme – a “Operação Lava-Jato”, por exemplo.

De que maneira a “prosódia” da TV aberta, em séries como “Os Carcereiros” oxigenam a sua literatura? O que a TV trouxe para sua relação com romances e contos?

É formidável a experiência diária do roteiro: é um aprendizado permanente e uma possibilidade única de realizar certas coisas, para as quais só mesmo a TV tem capacidade e estrutura. Pessoalmente, acredito que a literatura sempre acaba embebida pelas vivências criativas de um escritor em outras áreas, como é o caso da escrita para o audiovisual, seja cinema ou televisão.

O que a sua literatura construiu, ao longo dos anos, de representação da violência, da vida privada e do imaginário de exclusão?

Minha literatura fala de um universo que conheci bem de perto nos tempos de repórter. Olhando para trás, acho que eu não poderia ter escolhido outro gênero de personagem preferencial que não essa gente que vive nas franjas da marginalidade, na exclusão e na indiferença do Estado. É gente descabida, e gente descabida sempre rende boas histórias.

Que novos romances podemos esperar da sua autoria?

Estou trabalhando, já faz um tempo, num romance policial com implicações existenciais. Vai se chamar “Baixo esplendor” e espero publicá-lo no ano que vem.