Por Marcio Corrêa

O mercado editorial quase deixou passar em brancas nuvens os 130 anos de proclamação da nossa humilde república. Mas tudo bem. “Dicionário da República – 51 textos críticos” (Companhia das Letras/ R$ 99,90) salvou a pátria. Com organização da Lilia Moritz Schwarcz e da Heloisa Murgel Starling, o livro de 582 páginas já se tornou referência no assunto. Como tudo o que a Lilia escreve, aliás. Taí um olhar atento. 

Comecemos com ela. Mesmo tratando de priscas eras, seu ensaio “Iconografia da república” parece estar comentando os dias atuais – impressão que aparece em vários textos do livrão. Eis o seu primeiro parágrafo: 

“Novos regimes costumam construir suas próprias narrativas com o objetivo de justificar e naturalizar o que pode parecer improvisado, repentino e sem lastro. Por isso mesmo, muitas vezes se servem da história como fonte de legitimação e com frequência informam, distorcem ou destacam certos elementos em detrimento do silêncio de outros. É assim que dão um jeito de ir ao passado para fazer sentido no presente”. 

Lembrei assim, fortemente, do que tem sido considerada uma apropriação da camisa canarinho da seleção brasileira pela extrema direita nas últimas eleições. Em vez de representar o único momento real em que todo o país se une, tornou-se uniforme de quem estava contra as esquerdas. Graças à polarização que tomou conta da disputa eleitoral de 2018, parece que essa forma de “legitimação” de apenas um segmento da sociedade vai continuar valendo. Pelo menos até a próxima Copa do Mundo, claro. 

Os ensaios do livro permitem que o leitor não só se informe sobre o que aconteceu com a monarquia aparentemente consoli
dada, no século XIX, enquanto se encaminhava para a república, como o que aconteceu a partir de 15 de novembro de 1889. Um marco que, como se discute frequentemente, foi praticamente um golpe. A conferir.

Mas a história republicana vem de longe, claro. Dois ensaios são essenciais para enten
der o começo de tudo: Celso Lafer, em “Justiça e governo nas leis do republicanismo”, e Maria Tereza Aina Sadek, com “Direitos: de indivíduos a cidadãos” - que nos leva a dois milênios antes de Cristo.

Não temos espaço aqui para comentar à altura a riqueza do livro. Mas não podemos deixar  de citar também o ensaio “Vícios da República”, do cientista político Fernando Filgueiras. Trata de um assunto-chave na democracia atual: a corrupção.

Além de mostrar que é um assunto filosófico delicado, deixa claro que, no contexto brasileiro atual, “a corrupção na democracia está proporcionan
do a corrupção da democracia”. Vale muita reflexão.

A propósito, fica outra dica inteligente: “O pêndulo da democracia”, de Leonardo Avritzer, (Todavia/R$ 69,90). Mostra como o país vive oscilando a plena democracia e a direita mais radical. Merece comentário alentado, em breve.