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Por Affonso Nunes

Um ano depois de estrear com grande sucesso o espetáculo “Bloco na rua”, Ney Matogrosso volta a se apresentar na cidade, mais uma vez no palco do Vivo Rio nos dias 10, 11 e 18 deste mês. Agora, o artista vem embalado pelo lançamento nas plataformas digitais do álbum e DVD do espetáculo do mesmo nome distribuído pela Som Livre e pela MP,B Discos.

A longa turnê não chega ser novidade para o camaleônico Ney que correu Brasil e mundo por cinco anos com o espetáculo anterior, “Atento aos sinais”.

“Bloco na rua” é o título de uma canção emblemática de 1972 composta pelo “maldito” Sérgio Sampaio. Nem todos conhecem o compositor, mas o poderoso refrão é mais do que cantado desde que a música foi gravada pela primeira vez, com várias referências indiretas à necessidade de liberdade em pleno período autoritário (“Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer/ Eu quero é botar meu bloco na rua/ Gingar, pra dar e vender”).

O DVD, gravado em julho passado, partiu de uma concepção muito diferente do que Ney costuma fazer que é lançar o título após a gravação de várias apresentações. Desta vez, o artista gravou tudo sem plateia e também sem cortes. O conceito é o de um registro cinematográfico.

- O Felipe Nepomuceno, que dirigiu o DVD, teve muita liberdade. O que a gente vê não é a reprodução de um show, apenas, mas uma outra coisa, muito interessante. Tanto que fiz para o Felipe e sua equipe gravarem, não para uma plateia. Eles tiveram total liberdade de entrar e filmar como nunca ninguém filmou. O resultado está mais para cinema do que para o registro de um show, o que me agrada muito – comenta Ney, referindo- -se a planos ousados e muitos closes, além de efeitos especiais típicos de videoclipes.

Além da faixa-título, o álbum reúne 20 canções do repertório do show. O repertório é dominado por canções lançadas na barra pesada da década de 1970, o que confere uma unidade ao roteiro traçado por Ney Matogrosso, que sempre cuida de todos os aspectos que envolvem seus shows.

- Nunca fiz discursos politizados nos meus shows, não faço política partidária: as letras das canções dão os seus recados – avisa o artista que até tem falado mais sobre política nos últimos meses com críticas abertas à perseguição do governo à classe artística.

E os recados estão no palco, no CD e no DVD com suas interpretações marcantes seja no cantar ou na sua conhecida presença de palco, mesmo aos 78 anos, em canções como “Jardins da Babilônia” (Rita Lee e Lee Marcucci), “A maçã” (Paulo Coelho/Marcelo Motta/ Raul Seixas), “Álcool (Bolero filosófico)”, do DJ Dolores , “O beco” (Herbert Vianna/Bi Ribeiro), “Pavão Mysteriozo” (Ednardo) e “Mulher barriguda”, do primeiro álbum dos Secos e Molhados, de 1973 (Solano Trindade e João Ricardo).

Chico Buarque, presença constante na discografia de Ney, aparece em dois momentos: como versionista de “Yolanda”, clássico do cubano Pablo Milanés, e em “Tua cantiga” (parceria com Cristóvão Bastos). Duas canções foram pinçadas do compacto duplo “Ney Matogrosso e Fagner”, de 1975: “Postal do amor” (Fagner/Fausto Nilo/Ricardo Bezerra) e “Ponta do lápis” (Clodô/Rodger Rogerio). De Itamar Assumpção surgem “Já sei” (Alzira Espíndola/Alice Ruiz/Itamar) e “Já que tem que” (Alzira/Itamar). “Como 2 e 2”, de Caetano Veloso, Ney nunca havia cantado; já “Sangue Latino”, outro sucesso dos Secos e Molhados, ganhou arranjo mais pop.  

O figurino de Ney, que começa o espetáculo com a cabeça totalmente coberta por um capuz, é assinado pelo estilista Lino Villaventura. No palco, o artista é acompanhado pela mesma banda que o acompanha desde a turnê “Atento aos sinais”: Sacha Amback (direção musical, arranjos e teclados), Marcos Suzano e Felipe Roseno (percussão), Dunga (baixo), Mauricio Negão (guitarra), Aquiles Moraes (trompete) e Everson Moraes (trombone). O entrosamento entre cantor a músicos está em cada nota. O espetáculo tem a iluminação criada por Arthur Farinon e Juarez Farinon, e vídeo-cenário de Luiz Stein e Marcus Paulista.