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Por Affonso Nunes

Após três EPs lançados ao longo do ano, a cantora e compositora Mariana Aydar acaba de lançar o álbum “Veia Nordestina”, que consolida o projeto apoiado pela Natura Musical, que ainda engloba um minidocumentário em quatro episódios. 

- O forró para mim é um modo de vida. Minha primeira banda profissional foi de forró, meus primeiros vinis, meu primeiro beijo, minha filha é fruto do forró e agora, finalmente, nasce o meu primeiro disco de forró, um forró feito do meu jeito - festeja Mariana, que sintetiza essa relação quase umbilical com versos da faixa-título (“Na veia nordestina, eu tenho a minha visão/ Carrego emprestada a força do sertão”).

O caldeirão sonoro nordestino incluí o xote altamente dançante e com batida de pagode baiano “Se pendura” (Duani), que trata do empoderamento feminino; “Forró do ET”, de autoria de Mariana, que combina elementos do galope, frevo, axé e kuduro e tem a participação especial de Elba Ramalho.

“Veia nordestina” tem, segundo Mariana, uma sonoridade mais tradicional embora ela não resista a colocar o seu coentro nesse caldeirão de influências.

- Quis ser bem específica dentro do universo forrozeiro e trazer músicas que estão em seus pilares: o rastapé da quadrilha, o xote que chora e o forró sambeado - justifica. 

Em “São João do Carneirinho” (Isabela Moraes), a sanfona de Mestrinho derrama acordes jazzísticos pelo ar, ladeada por guitarras psicodélicas, pela marcação sincopada de zabumba e baixo e pelos floreios elétricos de um MPC. Também é de autoria da pernambucana Isabela o xote “Represa”, em que Mariana opta por uma formação pé-de-serra. “Xilique” (Mariana Aydar / Jorge do Altinho) recria a atmosfera dos cocos de Jackson do Pandeiro e conta sobre a forma debochada e irreverente com que uma mulher empoderada e dona de si lida com as agruras de uma desilusão amorosa.

O álbum ainda traz “Condução”, um xote moderno com elementos sampleados do forró – zabumba, triângulo e sanfona – que mostra uma mulher que anseia não apenas conduzir uma dança, mas a sua própria existência. “Triste, louca ou má” recebeu arranjo diferente de seus os integrantes da banda Francisco, El Hombre. Trata-se de um hino feminista com a participação especial de Maria Gadu. “Na boca do povo” (Fernando Procópio/ Tinho) é um samba de partido alto à moda baiana. A letra é uma divertida crítica à sociedade machista, conservadora, preconceituosa e violenta que, infelizmente, está mais presente do que nunca.

Completam o álbum regravação pop do clássico de Accioly Neto, “Espumas ao Vento” (Accioly Neto), “Venha ver” (Anastácia / Liane) e “Para Dominguinhos” em que Mariana presta tributo a uma das maiores referências da música nordestina.

A introdução da temática feminista nesse cancioneiro é de extrema necessidade para Mariana Aydar.

- Os temas deste projeto são muito de dentro do meu sertão, todo mundo tem o seu próprio sertão: suas tristezas, seus lamentos, suas questões. Onde quer que a gente esteja, não importa a região do Brasil e do mundo, a gente se encontra nesse sertão de dentro. Quero traduzir o meu forró, a minha maneira de ver o gênero reinventando, instigando, trazendo elementos contemporâneos na poética e na sonoridade. Quero guitarras psicodélicas e MPCs sem perder a alma pé-de-serra do clássico power trio formado pela zabumba, pelo triângulo e pela sanfona - teoriza.