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Por João Victor Ferreira

A história da cultura popular sempre sofre as mudanças estéticas e políticas das transgressões que marcam um período específico. Os anos 1980 no Brasil não foram diferentes. A ditadura e a censura começavam a arrefecer, e a perspectiva de um governo civil nos fazia sonhar com ares democráticos. Mas a mordaça dos anos anteriores deixava cicatrizes - e a nova geração respirava rebeldia e transgressão. Ou seja, era dia de rock.

Nesse contexto nasceram bandas de toda parte do país como Paralamas do Sucesso, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, Blitz, Plebe Rude, Kid Abelha, Ira!, Celso Blues Boy, Capital Inicial, Zero, Picassos Falsos, e Hojerizah que verteram para o português a atitude contestadora sob o signo do esquema clássico dos quatro acordes. Mas havia uma questão: onde exatamente essa nova música se faria conhecida?

A ausência desse nascente rock brasileiro no dial criava uma lacuna que impedia que sua música se disseminasse além das casas daqueles jovens rebeldes com os seus vinis. Criada em 1977, a Rádio Cidade começou a romper essa bolha, mas nada se compara à revolução iniciada com a reformulação de uma emissora de Niterói.

Berço esplêndido do Rock

E foi assim, em 1982, a Fluminense FM (94,9) tornou-se “A Maldita”, como passou a ser conhecida. O berço esplêndido da nata do rock brasileiro passou pela emissora muito antes de atingir o estrelato. A trajetória da rádio é o tema do documentário “A Maldita” (2019), da cineasta Tetê Mattos.

Em sua narrativa, o filme lança um olhar sobre o apego afetivo que existia com a rádio Fluminense, tanto como plataforma de lançamento não apenas das bandas que estourariam, mas também na divulgação de trabalhos independentes de rock, blues, reggae e ritmos alternativos que jamais teriam voz em outras rádios de perfil mais comercial como, por exemplo, os niteroienses de A Mosca, o Água Brava, Sangue da Cidade, Finis Africae, Maurício Melo & Cia. Mágica e Vid Sangue Azul, entre outros.

A Maldita entendia o rock como atitude da juventude dos anos 1980, e não apenas como um gênero musical em si. E conquistou uma audiência fiel por anos seguidos. Esse é o quarto filme de Tetê, sendo o seu primeiro longa de documentário, que teve como ponto de partida um curta metragem de 2007.

- A ideia para esse curta surgiu quando um dia entrei em uma livraria em Niterói e vi na estante um livro do Luiz Antônio Mello. Eu pensei que essa era uma boa história da minha cidade, que era Niterói, uma história potente que poderia ser contada - lembra a diretora.

O curta circulou em vários festivais, inclusive o Festival do Rio do ano em que ganhou o prêmio de melhor curta-documentário pelo voto público. O gostinho de quero mais era um comentário recorrente do espectador nostálgico, auxiliando ainda mais na expansão narrativa. A linha de raciocínio começa a mudar, dando mais enfoque ao apego afetivo dos ouvintes entrevistados que nos servem de personagens que fazem o link com o público que viveu essa época e até se fazendo entender para aqueles que não conhecem essa história.

O projeto do longa ganhou fôlego em 2010, quando a Rio Filmes abriu um edital, junto com a Secretaria de Cultura, para a produção de documentários para o Canal Brasil.

Historiadora de formação, Tetê exerceu o rigor profissional, mas não abriu mão de uma narrativa despojada e informal, sempre que necessário. A ideia das cartas narradas, por exemplo, surgiu durante a edição de Alan Ribeiro com Tetê.

- Quando surgiu a ideia da narração das cartas, eu mesma as gravei para que pudéssemos utilizar como guia para a montagem. Algumas pessoas envolvidas no filme diziam que eu deveria fazer a narração, para que me colocasse no filme. Mas não me sentia nem um pouco confortável com esta situação – conta a cineasta, que convocou Ana Paula Lopes para a missão. - O timbre de voz da Ana Paula me agradava bastante. Fizemos algumas tentativas até chegar no ponto certo do que acreditávamos que seria bom para o filme.

Esquema de guerrilha

Remier Lion, pesquisador de imagem e conteúdo, teve papel-chave na produção. A precariedade das imagens em vídeo, e também de áudios, era grande. A rádio funcionava no esquema de “guerrilha”, desafiando a curadoria. A vantagem de a produção ter durado seis anos foi um fator decisivo para enriquecer o acervo.

- Em nenhum momento o filme se propôs a dar conta de todo o universo musical dessa história. Seria impossível. Foram mais escolhas a partir de materiais de arquivo que fomos encontrando, a partir também das liberações de direitos pelos músicos. Então algumas músicas acabaram saindo do projeto inicial - explica.

O processo de edição baseou-se inteiramente nos áudios recuperados que construíam a narrativa do filme, o ponto de partida do roteiro. O filme consegue se construir inteiramente em cima desses áudios, fazendo valer a transposição de uma mídia auditiva para uma inteiramente audiovisual. Os áudios criaram a progressão do filme, fazendo a história andar de forma muito orgânica sem escorar-se em pontuações narrativas (locução) ou de cartela expositivas. A boa decupagem do material sonoro permitiu o acréscimo das imagens nos momentos certos, em inserções abruptas