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Por Rodrigo Fonseca, Especial para o Correio da Manhã

Saídos de um naipe de ases da transgressão estética, um bamba do quadrinho erótico (Carlos Zéfiro) e um  artífice das cordas da MPB (Chico Mário) enchem a mão de Silvio Tendler para uma cartada de memorialismo e poesia contra a inércia moral dos tempos atuais, na arte e na política. O aniversário de 70 anos do cineasta está chegando... No dia 12 de março, ele entra para o clube dos septuagenários: a ideia do realizador que mais e melhor combinou cinema e história no país é celebrar a data trabalhando a mil, remexendo imagens inéditas de figuras que classifica de heróis transgressores.

A aposta em radicais livres vem desde o berço de sua formação como diretor, quando tomou o circuito nacional de assalto com um par de longas biográficos que estão entre as maiores bilheterias das narrativas documentais nas Américas: “Anos JK” (1980), visto por cerca de um milhão de pagantes, e “Jango” (1984), que vendeu quase 800 mil ingressos. Em agosto passado, Tendler regressou às salas de exibição com “Alma imoral”, um diálogo cinematográfico com o ensaio filosófico homônimo do rabino Nilton Bonder, estruturado como um convite para o espectador refletir sobre conceitos universais como corpo e espírito, matéria e essência, bom e correto, compromissos e rompimentos.

- Sou cineasta, não sou mago, logo, não sei prever em quanto tempo o mundo vai perceber que devemos construir uma economia solidária, que respeite os seres humanos, o meio ambiente, os animais, a diversidade cultural - brincou Tendler à época da estreia. Na entrevista a seguir, ele compartilha com o CORREIO DA MANHÃ angústias geracionais, planos e esperanças.

CORREIO DA MANHÃ: No próximo 12 de março, você chega aos 70 anos. Qual é o balanço estético (e afetivo) que consegue fazer de sua vida de artista e de sua geração no cinema? Aliás, que geração é essa?

SILVIO TENDLER:  Eu sou um cérebro a serviço das utopias. A minha geração sonhou alto, pensou alto e criou forte. Eu começo a ser artista durante o golpe de 1964. Vivi muitas coisas antes. Eu vi coisas modernas em um país que assistia a um golpe de estado se instaurar e me fiz artista para resistir ao golpe. Essa luta continua até hoje. Sou de uma geração que sonhava com utopias e, a partir dela, fez muitos filmes bons, muitas peças de teatro boas. Vivemos grandes sonhos. Estou feliz de estar chegando aos 70 anos com essa maturidade... e com lucidez neste cérebro que caminha.

Qual é o maior medo que você tem relação ao futuro do país e ao futuro de nosso cinema?

Eu não tenho medo nenhum. Vivi dois grandes golpes de estado: o de 1964, no Brasil, quando tinha 14 anos de idade, e o do Chile, em 1973, quando tinha já 23 anos, e acompanhei a movimentação que derrubou o Salvador Allende e o socialismo em liberdade. De lá para cá, houve muita mudança, no meu país e no mundo. Algumas foram positivas, como a Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974, e a vitória dos vietnamitas na guerra contra os americanos, em 1975. Assisti alguns reveses, como a eleição do Collor, em 1989...

Os altos e baixos do processo histórico...

Até hoje, sigo assistindo esses movimentos de vai e vem que são próprios da história. Mas vivi todos esses movimentos, os positivos e os negativos, sem nunca me negar a ir à luta e enfrentar as adversidades. Hoje, estamos vivendo um momento muito difícil, no Brasil e no mundo, mas continuo pensando, sonhando e preparando filmes. É muito fácil você ser um artista quando se tem toda uma estrutura social e política ao seu favor. 

Remar contra a maré então é um combustível valioso para os realizadores da cultura em geral...

Quando se rema contra a maré é que você vê a importância efetiva da arte. Agora, estou trabalhando temas fundamentais para começar a executar a partir dos meus novos 70 anos, falando sobre a desconstrução do Estado brasileiro. Quero trabalhar a questão da Justiça, do bem-estar social, do sindicalismo, da saúde... ou seja, tudo o que está sendo desmantelado por um governo. Os governos vêm e vão e a arte permanece poderosa. Logo vamos ter a certeza se esse trabalho que estou fazendo vai ter a mesma permanência do que fiz até aqui. Eu tenho uma trajetória de luta em nome de um cinema democrático.

Falando nisso, um documentário brasileiro, “Democracia em vertigem”, de Petra Costa, acaba de ser indicado ao Oscar. Qual seria (ou deveria ser) o papel de nossa estética documental nestes nossos tempos de rachas políticos no Brasil?

O documentário cresceu muito durante o governo do PT. Com o projeto de colocação de documentários nas TVs por assinatura, você hoje tem um mapeamento fantástico do Brasil. Eu participei desse projeto com vários filmes e, agora que o governo está tentando exterminar todo o resquício de inteligência dessa nação, temos que mostrar que essa inteligência brota, aos borbotões, das almas rebeldes dos artistas.

E como o seu cinema, de verve histórica, aponta caminhos nessa luta?

Estou dentro desta luta, na discussão de uma sociedade que não vai deixar a história morrer ou ser embaralhada. Vamos continuar fazendo filmes, lutando pela transformação social e democrática por um mundo melhor.

De que maneira o projeto de “A Alma imoral” revelou novos caminhos sobre sua própria identidade judaica e sobre as inquietações metafísicas à nossa volta?

Para mim, foi muito importante fazer “Alma e Imoral” (2019) porque eu queria assumir publicamente a minha identidade judaica. A minha identidade judaica é com os judeus transgressores, os que fogem dos padrões tradicionais e comportamentais. Eu queria fazer esse filme que mostra pessoas que, por meio das suas transgressões, lutam por uma sociedade melhor. É o caso dos gays em uma sociedade que reprime a homossexualidade; os comunistas em uma sociedade que reprime a divergência política. Eu quis mostrar todas essas variações de ser judeu além da visão tradicional do judeu que se benze todos os dias e reza. Eu queria mostrar o judeu que transforma. Sinto que, com esse documentário cumpri, um ciclo da minha vida.

Em que pé estão “Em Busca de Carlos Zéfiro” e o projeto de documentário sobre o violonista Chico Mario (1948-1988)?

Em processo de finalização, o documentário sobre Carlos Zéfiro está praticamente pronto, arredondando a colocação de trilhas sonoras, vinhetas eletrônicas, tratamento visual. Conseguimos uma gravação muito boa dos textos dele, feita pelo Eduardo Tornaghi, pelo Chico Diaz e pela Maitê Proença. Gosto muito da obra de Zéfiro, apesar do medo que existe em torno por conta das transgressões. Já o projeto sobre Chico Mario... nele nós estamos na fase de finalizações das entrevistas. Vamos começar a montar o filme com a certeza de que ele fala sobre um dos artistas mais importantes e mais desconhecido da cultura brasileira.