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Por Rodrigo Fonseca, especial para o Correio da Manhã

PARIS - Reunindo retratos clicados entre 1949 e 2018, dando conta de situações cotidianas embaladas pelo inusitado e pela poesia, um livro com as fotografias produzidas pela cineasta Agnès Varda (1928-2019), em paralelo à sua trajetória nas telas, está sendo gestado neste momento, assim como um documentário sobre a mítica realizadora de “Cléo das 5 às 7” (1962), a partir de um olhar que põe em relevo o colorido do que há de mais corriqueiro na Europa. Esse tal olhar que a figurinista e produtora Rosalie Varda tem se faz notar por uma breve espiada no tapete da sala do Hotel de L’Hotel du Collectionneur, onde esta entrevista com o Correio da Manhã ocorreu. Filha de Agnès, há tempos reconhecida como uma referência de excelência na confecção de vestuário para óperas e filmes cults, Rosalie desfoca a atenção do papo, por alguns segundos, para avaliar as cores e a textura do carpete sob seus pés. 

- Cor é aquilo que mais me inspira e, de certa maneira, quando minha mãe viajava para países bem distantes aqui da Europa, era no colorido dessas terras que mais prestava atenção, para poder traduzir expressões de humanidade, de vida, de beleza. Eu sou de uma geração em que ninguém comprava fantasias prontas para uma criança ir a um baile. Você ia a um brechó ou a lojas bem baratas, comprava trapos, retalhos, restos, juntava com cacarecos que tinha em sua casa, e confeccionava uma roupinha de princesa ou do que fosse. E essa confecção era guiada só um critério de bom gosto para cores e a imaginação - diz Rosalie, em entrevista durante o 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, fórum anual, realizado em janeiro, para promover os novos longas-metragens francófonos do Velho Mundo.

Envolvida agora na preparação de um box de DVDs com os sucessos de sua mãe para os EUA, Rosalie tem ainda a tarefa de proteger os filmes de seu padrasto (que chama amorosamente de pai), Jacques Demy (1931-1990). Ele foi o realizador do fenômeno popular “Os guarda-chuvas do amor”, ganhador da Palma de Ouro de 1964. Ela e seu irmão mais moço, o diretor e ator Mathieu Demy, desenvolvem agora um projeto de um documentário sobre a produção de Jacques. E eles tocam ainda o plano de organizar, internacionalmente, uma exposição com as videoinstalações de Agnès.

- Minha mãe passou os últimos 15 anos mais dedicados às artes visuais, nesse formato de instalação, do que ao cinema e pouca gente conhece a fundo o que ela fez. Assim como poucos jovens de hoje conhecem os filmes que Demy rodou. O legado deles precisa seguir adiante e ser prestigiado pelas novas gerações - diz Rosalie, que mantém o desejo de faz novos figurinos. - Não fiz tantos filmes, mas sou chamada para a ópera toda hora.

Eu vesti duas apresentações de “La Traviata”, três de “Carmen”, dois “Don Giovanni”. E meu critério sempre foi o cuidado de nunca querer aparecer mais do que os encenadores ou mais do que os cantores. Mesmo em óperas que se reportam a outras épocas, a outros séculos, o que exige um figurino mais requintado, você nunca pode deixar a vaidade falar mais alto do que a voz da soprano ou do barítono.

“Paixão” (1982), de Jean-Luc Godard, foi o primeiro longa do cinema francês vestido por Rosalie, que trabalhou com mitos como Samule Fuller (“Ladrões do amanhecer”). Mas sempre que precisa dar uma masterclass sobre seu histórico no design de figurinos ela usa como exemplo o filme que deu o Leão de Ouro de Veneza à sua mãe, em 1985: “Os renegados” (“Sans toit ni loi”). Estrelado por Sandrine Bonnaire, a produção foi um dos seis filmes de Agnès escolhidos por uma enquete de críticos, promovida em 2019 pela BBC, para elencar os cem maiores (e melhores) longas-metragens dirigidos por mulheres.

- É muito fácil vestir um nobre, arrumar uma roupa emperiquitada para uma aristocrata. Difícil é traduzir a pobreza extrema num figurino. A andarilha vivida por Sandrine era maltrapilha. Como representar essa condição sem cair num olhar preconceituoso, excessivo, que representa a miséria de modo excessivo e cafona. Só a vida ensina como fazer. Para isso é preciso muita atenção às diferenças - pontua.