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Por João Victor Ferreira

No início do século XX, dois faroleiros são contratados para passar quatro semanas juntos – e ao mesmo tempo isolados do mundo. Thomas Wake (Willem Dafoe) é o responsável pelo farol. Ele perde seu ajudante e é aí que surge a figura de Ephraim Winslow (Robert Pattinson), substituindo-o. Conforme o filme progride, a desconfiança entre os dois começa a se transformar em paranoia, suspense e tensão.

Esse é o segundo filme do jovem e promissor Robert Eggers, conhecido pelo seu trabalho controverso em 2015, com o longa “A bruxa”. “O farol” também deve ser controverso, principalmente no meio dos fãs do gênero, uma vez que o diretor não se preocupa nem um pouco com as convenções do terror, resgatando muito mais a sua fundação. 

Na fotografia, Eggers lida muito bem com o clima do expressionismo alemão, que funciona e encaixa totalmente com a proposta do seu filme. O aspecto em “quatro por três”, a iluminação em preto e branco e o design de produção que acompanha os ângulos obtusos dos objetos em cena, evoca essa estética que fundou o cinema de terror, com clássicos como “Nosferatu” (1922) e “O gabinete do Dr. Caligari” (1920). O desconforto já aparece na imagem e isso influencia positivamente na construção do clima surreal que o filme aborda.

A temática do enlouquecimento é a linha narrativa do filme, que no fim das contas tem uma história muito simples. A ambiguidade daquilo que se vê é um dos maiores charmes aqui. O personagem de Pattinson em diversos momentos nos é apresentado como um protagonista não confiável e isso é que abre margem para a discussão entre o real e a imaginação: é difícil confiar em histórias de pescador. O filme é muito mais um estudo de personagem, uma experimentação da tensão pela imagem e tom, uma atmosfera desconfortável e hostil, do que um horror clássico que aposta na aversão por trás de uma imagem monstruosa ou sustos previsíveis.

As atuações são a alma do longa. Pattinson passa bem a imagem de um homem jovem que ainda não tem muito o que perder na vida. Essa inocência é sempre muito estranha e sem credibilidade: ele passa a insegurança por trás de um homem que tem muito o que esconder. No outro polo temos o destaque do filme, com o genial Willem Dafoe, que interpreta um patrão abusivo que não se preocupa em nenhum momento com a vida do seu funcionário. O personagem é nojento, bruto, inconveniente, mas também frágil. Dafoe consegue passar isso tudo, além de entregar talvez o melhor monólogo de 2019 – sendo quase um absurdo não ter sido indicado ao Oscar de ator coadjuvante.

“O Farol” é uma obra-prima moderna. O filme é tenso, climático, estranho, curioso e muito incômodo (o que é um ponto positivo para qualquer terror). Além das excelentes atuações e o rigor técnico, o filme tem muito o que falar sobre enlouquecimento gradual do ser humano, sendo uma experiência muito mais sensorial do que narrativa. Como toda grande obra-prima, vai ser incompreendida no tempo a que ela se faz contemporânea.

NOTA: 10