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Por João Victor Ferreira

Em ritmo da maior premiação do cinema, conferimos todos os grandes nomes que constam na grande lista da nonagésima segunda edição do Oscar, que acontecerá no dia 9 de fevereiro de 2020. Para facilitar a sua vida e evitar maiores confusões, vou colocar o meu “chapéu de recepcionista de locadora” para te dar uma noção mínima de cada um dos nove indicados a melhor filme. Façam as suas apostas e “os indicados a melhor filme são...”

1917

Durante a Primeira Guerra Mundial, dois cabos ganham a difícil tarefa de atravessar em segredo pelas linhas inimigas, com a intenção de entregar uma mensagem ao fronte de batalha, a fim de salvar mais de 1600 soldados. Todo ano – ou quase todo – há um filme de guerra que consta na grande premiação do cinema americano e, sem surpreender muito, 1917 foi o escolhido para encabeçar essa posição. Não sendo nenhuma injustiça, o que temos aqui é de fato um filme muito ciente de si mesmo e que transforma uma história muito simples em um espetáculo do entretenimento, por conta do primor de sua direção.

Sam Mendes chega no seu mais novo trabalho com um pé na porta, sendo a melhor direção de 2019, pelo menos na parte técnica. O controle do plano sequência, somada a coreografia e as marcações em um ambiente caótico da guerra, tornam a experiência única pra quem ama cinema e filmes de guerra no geral. A imersão por trás de uma imagem sem cortes, onde as ações acontecem de forma natural, passa uma credibilidade absurda pro filme, te colocando dentro dele em questão de segundos. Alguns momentos o filme até começa a abusar um pouco do seu rigor técnico, compondo sequências surrealistas e oníricas tão bem coreografadas, em composição com a fotografia e a trilha, que mais parecem iscas para conseguir uma estatueta na premiação, do que de fato necessárias para o filme. Nada disso atrapalha o peso emocional e humano por trás dos terrores de um massacre bélico, sendo um filme muito bem dirigido e relevante no seu gênero. NOTA // 9,2

Adoráveis Mulheres (Little Women)

Greta Gerwig ocupa mais uma vez a sua posição no Oscar, com a representatividade feminina de um roteiro baseado no livro homônimo de uma família de irmãs com personalidade forte, nos EUA do século XVIII. Da mesma forma que em 2017, com o seu aclamado Lady Bird, Greta mostra a que veio com a sensibilidade de uma história que foca principalmente no drama social e estrutural de mulheres fortes, em meio a uma realidade austeramente machista. 

O roteiro tem os seus pontos fortes ao combinar de forma bem elegante, junto com a edição, os momentos de passado e presente na vida das irmãs que são muito bem caracterizadas. Por mais que alguns momentos pareçam estar “sobrando”, o trabalho de adaptação é muito bem feito e elevado pela interpretação das personagens que são muito bem caracterizadas e diferentes entre si, rendendo inclusive a indicação de Saoirse Ronan e Florence Pugh. NOTA // 7,0

Coringa (Joker)

Em sua quinta grande aparição nas telonas, o icônico e sádico vilão do Batman ganha a sua mais nova encarnação na pele de Joaquim Phoenix que não deixa a desejar o peso do legado que veio antes com o excepcional Heath Ledger em Batman, o Cavaleiro das Trevas. O longa que agora conta com a primeira grande origem do enlouquecimento de Arthur Fleck, puxa diversas referências de filmes como O Rei da Comédia e Taxi Driver, repaginando o olhar do movimento da Nova Hollywood para os dias de hoje.

Todd Philips cria um roteiro único e bem pensado, que ao mesmo tempo usa de respaldo o ambiente dos quadrinhos a quem diz se basear, mas sem usar muito do que antes foi escrito sobre o grande palhaço. A parte técnica é muito operante e de bom gosto – com destaque para a trilha sonora –, de modo que tudo contribui em elevar a interpretação de Joaquim que é sem dúvida o ponto mais forte do filme, sendo mais do que merecida a sua indicação e possível vitória. NOTA // 8,7

Era uma vez em...Hollywood (Once upon a time in...Hollywood)

O nono filme do aclamado diretor Quentin Tarantino deu o que falar durante a temporada de festivais em maio e, com a sua estreia em agosto nos cinemas do mundo inteiro, o burburinho foi elevado à décima potência. Voltando a sua vibe de licença poética, combinada por um revisionismo histórico, Quentin reúne o seu elenco de peso (ao qual hoje ele se refere como “The Gang”) para contar a história de um grupo de atores e profissionais de cinema, na Los Angeles de 1969.

Quentin chega aqui talvez no seu ápice como diretor ao combinar a originalidade, a sátira e o seu derradeiro bom humor com uma direção arrojada e super estilosa. A reencenação de produtos televisivos e cinematográficos da época, filmados como haviam sido feitos, mas incrementados pelo estilo de diálogo e edição de Tarantino, mostra o tipo de controle e ciência que o diretor tem da sua estética particular. Acima de tudo, o roteiro mostra uma faceta nostálgica e emocional que é surpreendente na filmografia de Quentin. Os diálogos – não tão verborrágicos como em seus outros trabalhos – falam mais dos personagens do que do próprio diretor, dando o espaço necessário para as excelentes atuações de Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie. Era uma vez em...Hollywood é uma excelente homenagem ao cinema, sendo magistralmente bem executada e atuada. Uma diversão leve e extremamente catártica, como todo bom filme do Tarantino precisa ser. NOTA // 9,5

 

Ford vs. Ferrari

Assim como em Johnny e June e a bombástica interpretação de Joaquim Phoenix encarnando nas grandes telas o cantor Johnny Cash, James Mangold volta a sua vibe biográfica e conta a história de como um projetista de carros e um ex-piloto conseguiram tirar a hegemonia de Enzo Ferrari na corrida de 24 horas em Le Mans, usando um carro da montadora Ford.

As maiores virtudes do filme de Mangold – que parece “sobrar” um pouco nessa categoria de melhor filme – é o primor técnico da edição e mixagem de som que combina a excelente escolha de planos de corrida, tornando a experiência sensorial muito positiva de quase estar ali na arquibancada da corrida. A interpretação de Christian Bale é a que mais impressiona, sendo talvez uma injustiça a sua não-indicação nas categorias de atuação. NOTA // 6,5

Histórias de um Casamento (Marriage Story)

Seguindo a vibe do cinema independente nova iorquino, Noan Baubach emplaca mais uma vez no Oscar com a sua história auto biográfica – mesmo ele mesmo dizendo que não se trata disso – do andamento da vida de um casal que está prestes a se divorciar e precisa se adequar a essa nova realidade.

O grande charme do filme melancólico que é Histórias de um Casamento são as atuações por trás do roteiro afiado e intimista que Noan propõe. O filme é carregado de sentimentos e carrega em si uma carga emocional pesada, magistralmente carregada pelas interpretações de Adam Driver e Scarlett Johansson. A direção tem noção que o seu grande trunfo é a dinâmica entre esse casal e existem aqui poucas interferências de cortes e enquadramentos mais abertos e gerais, lembrando algo próximo do que seria o estilo de “cinema verdade” dos filmes franceses dos anos 1960. NOTA // 7,2

Jojo Rabbit

Taika Waititi já havia se mostrado um grande nome para a comédia nonsense, quando em 2014 lançou O que fazemos nas sombras, uma comédia documental de vampiros escondidos na Nova Zelândia. Mais uma vez, em uma onda indie e controversa, temos a direção do neozelandês em um universo fantástico de licença poética, regado de irreverência e ironia histórica.

A direção de Taika é marcada por uma pureza e inocência dos planos limpos e bem conjuntados com a mise-en-scène, lembrando muito os trabalhos do aclamado Wes Anderson. Essa estilização contribui com o ambiente nebuloso, hostil e sombrio da Alemanha nazista. Essa mistura antitética do “sombrio” com o “fofo” é o maior valor da direção que controla o tom do filme, sem parecer em nenhum momento bobo, e se tornando um dos filmes mais “gostosos de assistir” dessa edição de premiações. NOTA // 8,0

O Irlandês (The Irishman)

Baseado no romance aclamado dos últimos anos “I Heard you paint houses”, Scorsese vem para o seu mais novo projeto, voltando as suas raízes dos filmes de máfia, ao contar a história de como um ex-soldado de guerra irlandês conseguiu a confiança de toda uma organização criminosa da Filadélfia.

Scorsese fecha aqui o seu extenso trabalho visceral, escatológico e humano dos filmes de máfia, depois de Os Bons Companheiros e Cassino, voltando com o seu elenco de peso, e acostumado com esse tipo de filme, que conta com Robert DeNiro, Joe Pesci e Al Pacino. Por mais que o filme possa passar uma aura de “eu já vi isso”, por conta da história do diretor com os atores que tanto trabalhou e o contexto em que todos da produção se encontram, O Irlandês acaba tendo muito o que dizer sobre os temas da morte, do envelhecimento e principalmente das consequências que nossas escolhas carregam na nossa vida. NOTA // 9,0

Parasita (Gisaengchung)

O drama político-social de uma família pobre que consegue, depois de muitos planos mirabolantes, quase viver na casa de outra família abastada, deu muito o que falar na temporada de premiações, ganhando inclusive a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019. O filme sul-coreano, dirigido pelo promissor e já aclamado Bong Joon-Ho (O Hospedeiro e Okja) é um dos filmes que mais merece o lugar que alçou na premiação, sendo quase um balé perfeito de todos os aspectos que compõem o cinema.

A fotografia do filme, unida a trilha sonora e a montagem delicadamente astuta, cria um senso de urgência, combinada com o esquema situacional do roteiro, fazendo com que o público fique cada vez mais ansioso com o que está por vir. A discrepância na fotografia e no design de produção dos diferentes ambientes entre o “rico vs. pobre”, acrescenta ainda mais camadas ao roteiro que quase homenageia o ato de contar histórias, usando os seus personagens para nos provar isso. Aqui, todos os personagens apresentam narrativas sobre os outros, de modo que entramos nessa brincadeira dramática de saber o que o personagem A falou do B, sem que eles saibam da mesma informação.

O filme transita sobre diferentes gêneros e propostas do cinema, sem nunca perder o compasso do seu tom. Na parte mais superficial, “Parasita” é um filme engraçado, emocionante, que dá medo e em alguns momentos até melancolia. Descascando essa cebola, é um filme com muitas camadas e discussões relevantes para a sociedade capitalista de hoje. Pode ter sido uma história pensada para ser local, mas acabou conquistando o mundo pela universalidade dos seus temas. Parasita é uma história sensacional que em combinação com o primor e a estilização técnica da direção o faz tornar uma obra-prima do cinema. NOTA // 10,0

Rufem os tambores... 

Depois de assistir aos nove filmes – e outros ainda que não constam na lista de Melhor Filme, como Judy e Dois Papas –, além de acompanhar os padrões que sempre aparecem durante as outras premiações do mês de janeiro (como o Globo de Ouro, SAG, DGA e etc.), fica muito mais fácil “chutar” ou ter uma mínima noção dos vencedores desse ano. O Oscar nunca foi conhecido por ser uma premiação extremamente imprevisível – já que os seus votantes são quase os mesmos de todas as outras –, então vamos torcer para não ser diferente esse ano.

Nas categorias de atuação as cartas parecem estar bem marcadas, de modo que Joaquim Phoenix (Coringa) e Renée Zellwager (Judy) sejam os favoritos para Melhor Ator e Atriz. Na categoria de Ator e Atriz Coadjuvante, provavelmente as surpresas não vão fugir muito de Brad Pitt (Era uma vez em...Hollywood) e Laura Dern (Histórias de um Casamento). A direção deve cair no colo de Sam Mendes (1917), por mais que não seja o seu projeto mais estiloso – uma vez que já havia ganhado o Oscar de melhor direção por Beleza Americana em 2000 –, fazendo com que os amantes de Parasita chorem com a derrota de Bong Joon-Ho. Roteiro adaptado não deve fugir muito da vitória de Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres), fazendo com que roteiro original seja a estatueta que Quentin Tarantino (Era uma vez em...Hollywood) garanta nessa premiação. O Irlandês talvez seja esnobado dos grandes prêmios, podendo garantir talvez melhores efeitos especiais, da mesma forma que Ford vs. Ferrari só tenha chance de ganhar prêmios que envolvam o som (edição de som e mixagem de som). Jojo Rabbit dificilmente conquistará algo na noite de 9 de fevereiro.

A maior disputa está em Melhor Filme, de modo que a grande competição seja entre Parasita e 1917, fazendo O Irlandês correr por fora nessa corrida. A maior probabilidade é que 1917 garanta Melhor Filme, seguindo o padrão da estatueta de Melhor Direção ir para Melhor Filme, além de historicamente o Oscar não garantir um longa estrangeiro vencer a categoria– que até pouco tempo nem poderia ser indicado ao grande prêmio da noite. Talvez injustamente, Parasita não consiga garantir o aplauso final da noite, ficando com a estatueta de melhor filme estrangeiro, mais do que merecida, mas talvez não tudo que deveria ganhar.