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Por Nelson Vasconcelos, especial para o Correio da Manhã

Alvíssaras! Tem novo livro do Marcelo Moutinho chegando às boas casas do ramo. “Rua de dentro” (Ed. Record - R$ 39,90) reúne 13 contos curtos e muito, muito cariocas, como seu autor, nascido na carioquíssima Madureira e, até por isso mesmo, fiel benemérito da Império Serrano. Coisa fina.

Moutinho vem consolidando com louvor sua carreira de homem das letras numa cidade que sempre foi muito feliz em produzir escritores ocupados em explorar suas belezas e tristezas, doçuras e amarguras.

Além de marcar presença em inúmeras coletâneas, o escritor chega agora à marca de sete títulos seus, sempre bem recebidos. “Ferrugem” (Ed. Record, R$ 39,90) levou o Prêmio Clarice Lispector/Biblioteca Nacional de 2017, deferência que merece respeito nestes tempos tão complicados na hora de reconhecer seus heróis.

Como se vê na “Rua de dentro”, o carioca, nascido em 1972, continua à vontade perambulando pela cidade. Seus livros anteriores, como “Na dobra do dia” (2015) ou “A palavra ausente“ (2011), já sinalizavam essa facilidade para retratar, a seu modo, os personagens e cenários do Rio, que tem sofrido cada vez mais com uma infame imobilidade por parte dos seus moradores.

Mais que isso, Moutinho mostra grande sensibilidade para ouvir e interpretar as palavras não ditas, os silêncios e os olhares dos seus personagens. Numa cidade que esbanja sensualidade e adora mostrar-se gratuitamente, eis aí um talento incomum. Mesmo em seus diálogos com sotaque suburbano, Moutinho deixa de lado o humor fácil das ruas e faz fluir o lirismo que ainda povoa a alma encantadora das ruas, apesar dos pesares.

Os contos de “Rua de dentro” circulam pelos subúrbios e pelas vias periféricas dos bairros. Deixemos de lado a Zona Sul Maravilha para conhecer outras versões da história. Das histórias, melhor dizendo, porque são muitas. Ganham voz, nos contos de Moutinho, travestis, peladeiros, garçons, crianças, costureiras...

Seus personagens são mais vivos do que quando os encontramos nas ruas - e eis outro mérito de Moutinho, que é trazê-los da escuridão, deixá-los falar sem intimidação.

Já os enredos, tão verossímeis, são bem bolados, intrigantes, curiosos - como o do cabo eleitoral que decididamente só está trabalhando numa campanha para garantir uns minguados tostões. Os conflitos são reais - como nas histórias de preconceito, racismo, estupidez.

Empatia é uma palavra-chave para entender o olhar carinhoso de Moutinho pelos seus personagens, os merdunchos de que falava João Antõnio e tanto têm chamado a atenção da literatura carioca mais recente, com autores como André Luis Mansur, Luiz Antonio Simas e Raphael Vidal, entre outros. Assim como esses, Moutinho tem a manha de prestar atenção nas cores da vida miúda.

E o melhor: “Rua de dentro” será lançado sábado (01/02) na mais carioca das livrarias, a Folha Seca (Rua do Ouvidor 37, no Centro). Tudo tremendamente informal, com direito a muito samba, choro e até uma roda de jongo. Mais carioca, impossível.