Editorial do Jornal Correio da Manhã Edição 23.443

Tem quem não goste de falar no assunto, mas está mais do que na hora de a gente trocar uma ideia sobre os erros que têm sido cometidos pela imprensa, essa velha conhecida que, nos áureos tempos, era representada basicamente por meia dúzia de jornais, revistas e rádios, enquanto a televisão ainda lutava para conquistar seu lugar ao sol.

Por isso, é bom deixar logo claro que hoje a imprensa significa tudo isso aí e muito mais, graças a novas tecnologias digitais, novos dispositivos de comunicação e à ramificação da informação que se deu pela internet ao longo das últimas três décadas.

Isso posto, a questão que tem que ser debatida é: será que a imprensa não anda demasiadamente negativa? Será que a opção preferencial pelas notícias pesadas não ajuda a criar um clima de terror na sociedade? Será que não é responsabilidade dessas publicações a terrível sensação de que tudo à nossa volta está errado e não haverá escapatória para ninguém?

Para contextualizar, vamos dar aqui alguns exemplos de notícias positivas que, se circularam pela imprensa, certamente ficaram restritas a pequenas bolhas - em vez de serem amplamente divulgadas, como mereciam.

1. O presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto 9.723/19, que institui o CPF como documento único e suficiente para fins de acesso do cidadão a informações e serviços, e até mesmo para a obtenção de benefícios perante órgãos e entidades públicas do Executivo Federal. Pelo decreto, para obter a prestação de serviço público no âmbito federal, o cidadão pode apresentar o CPF em substituição a dados disponíveis em outros documentos, tais como: número de identificação do trabalhador – NIT, número de cadastro no PIS/Pasep, número e série da CTPS, número da permissão para dirigir ou da CNH, matrícula em instituições públicas federais de ensino superior, entre outros.

Você sabia disso? É ou não é bom saber que, a partir de agora, ninguém precisa mais ir ao banco, cartório, ou qualquer outra agência levando um carrinho de mão cheio de papéis?
2. Já que estamos falando do presidente, lembremos que ele também já assinou decreto extingue 21 mil cargos comissionados, funções, e gratificações na esfera federal, gerando economia de R$ 195 milhões anuais ao Tesouro,  além de acertar um golpe importante na antiga prática de aparelhamento do governo.

3. O governo também arrecadou R$ 2,377 bilhões com o leilão de três aeroportos. De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o valor superou as expectativas mais otimistas dos analistas do mercado. O ágio médio chegou a 986%. De acordo com os especialistas, o resultado é um claro sinal de que os grupos estrangeiros estão chegando, com vontade de retomar investimentos na área de infraestrutura do país - o que é essencial para a economia brasileira.

4. Essas e outras tantas discretas notícias têm renovado o otimismo com os rumos da economia. Na última quarta-feira (23), o Ibovespa, principal índice da nossa bolsa de valores, a B3, bateu 107.543 pontos, alta de 0,15% em relação ao registrado na véspera - quando já tinha batido num novo recorde. Em outubro, a bolsa já subiu 2,67%. No ano, acumula alta de 22,37%. Outro ponto importante da semana foi que aprovação da reforma da Previdência fez o dólar recuar, caindo 1,05%, fechando cotada a R$ 4,0327.

Por essas e por outras é que muitos leitores estão cada vez menos felizes com a imprensa. Essas notícias relatadas acima, por exemplo, poderiam ter virado manchetes de primeira página em qualquer grande jornal. No entanto, foram ignoradas ou relegadas a planos inferiores do noticiário.

Não é à toa que circulam pela internet, pelas redes sociais e pelos grupos de WhatsApp tantas “teorias da conspiração” dando conta de que “existe um pacto silencioso na grande imprensa para desconstruir a reputação do novo governo com a promoção, difusão e ampliação apenas de notícias ruins ou constrangedoras”.

Não existe isso, claro que não, mas é algo a ser pensado e discutido, até mesmo para a manutenção da própria indústria da imprensa no país - que, como se sabe, não está exatamente no auge de sua saúde financeira e, portanto, deveria ouvir mais os recados do leitor.

Tudo bem (na verdade, tudo mal) que este é um país que não deixa de produzir tragédias diariamente. E tampouco nós, da imprensa, podemos deixar de ser críticos nem em relação a governos, nem em relação a iniciativas erradas cometidas em qualquer setor da sociedade.

Mas fica a dica: o leitor gosta de equilíbrio. O radicalismo, mais cedo ou mais tarde, abusa da inteligência do leitor, que acaba se sentindo manipulado. E é justamente isso que a imprensa saudável não pode permitir, sob pena de morrer sem dó nem piedade.