Sociedade anestesiada

Anestesiada por uma polarização política estimulada todos os dias, a sociedade brasileira precisa acordar urgentemente para a gravíssima crise econômica que terá de enfrentar nos próximos anos, com sérios danos aos empregos, à produção em geral e à própria sobrevivência da população. Embora os temas políticos sejam permanentemente importantes - o contrário do relacionamento político elevado é a ditadura -, as lideranças políticas, sociais, acadêmicas, todas elas, pecam por desconsiderar o cenário de desastre que temos à frente, agravado pela pandemia global de coronavírus, capaz até de provocar convulsões sociais, que certamente interessam a grupos políticos oportunistas.

Há uma série de exemplos para ilustrar a gravidade do momento. As restrições aos empregos são assustadoras. Aproximadamente 17,7 milhões de brasileiros não conseguiram buscar emprego no último mês de maio, em meio à pandemia, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Outras 10,9 milhões de pessoas estavam desempregadas no período e não encontraram ocupação. Paralelamente, como publicamos, os pobres sofrem maior risco de serem infectados pelo coronavírus, revela o impacto socioeconômico da doença, medido pela USP e pelo Hospital Alberto Einstein.

Todas os setores da economia estão prejudicados. O de serviços caiu 11,7% em abril, em queda recorde, a pior desde o início da série histórica, em 2011. Os efeitos do distanciamento social ainda derrubaram a indústria, que teve queda de 18,8%, e o comércio, com recuo de 16,8%, ambos os piores registros na série histórica pesquisada pelo IBGE. Exemplo revelador da gravidade da situação - entre tantos - está no setor aéreo, onde as empresas perdem mais de R$ 1 bilhão por dia e são mais penalizadas pelo coronavírus, segundo levantamento feito pela Folha de S. Paulo.

Enfim, as lideranças da sociedade estão esperando o que para dedicar atenção redobrada, triplicada, a este temário, na busca de alternativas que, ao menos, minimizem os problemas que teremos?