Coube ao diligente jornalista Fernando Molica, da revista “Veja”, a tarefa de lavar a alma de milhões de brasileiros que se viram indignados com uma agressão recente à atriz Fernanda Montenegro - uma das poucas unanimidades nacionais (pelo menos até semana passada), que está prestes a completar 90 anos no próximo dia 16 de outubro e é nossa capa do 2º Caderno desta edição.

Explica-se: na segunda-feira (23), o burocrata Roberto Alvim, diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, escreveu nas redes sociais que Fernanda é uma pessoa “mentirosa” e “sórdida”. Isso porque a atriz posou para a revista “Quatro cinco um” caracterizada como uma bruxa pouco antes de ser queimada em meio a uma fogueira de livros. É uma crítica, evidentemente, ao pouco-caso com que o governo federal tem tratado a cultura do país.

De acordo com o burocrata - que, por insondável mistério, trabalha com teatro e, por isso mesmo, deveria prezar a liberdade de expressão - a cena da bruxa Fernanda estaria projetando uma imagem negativa do Brasil no exterior. Ele também escreveu, via redes sociais, que sentia certo desprezo pela atriz por esse seu ataque ao governo federal.

Vamos esquecer que o governo federal já sinalizou para o mundo, por livre e espontânea vontade, que não está lá muito preocupado com cultura e educação. A culpa é, então, da Dona Fernanda.

Supondo que a atriz fosse o nosso grande mal contemporâneo, ainda assim não caberia a um burocrata das artes a missão de repudiar - e muito menos em termos tão tolos - uma performance artística (e política) que representaria o pensamento não só de Fernanda Montenegro, mas também de milhares de operários das artes em todo o país.

Quando Roberto Alvim assume esse papel, candidata-se a ser qualquer coisa, menos um gestor público da cultura. Pelo contrário, enterra na areia até seu passado criativo - que, segundo dizem, já teve de fato. Agora fica claro que ele furou a fila para tornar-se o Censor-Geral da República - cargo que, se não existe ainda, deve estar sendo gestado em algum porão da “burrocracia” que está sempre à espreita das ousadias artísticas.

Mas sim, voltemos ao Fernando Molica. Logo que Roberto Alvim regozijou-se, então, com alguns minutos de fama, o Molica fuçou e descobriu uma história deveras preocupante sobre o cidadão carioca, nascido em 1973. Em resumo: Alvim tentou contratar a mulher, a atriz Juliana Galdino, para assumir a direção artística, em Brasília, do Projeto de Revitalização da Rede Nacional de Teatros. Pelo trabalho, que percorreria dezenas de teatros no país até setembro de 2020, a produtora Flo Produções e Entretenimento, que representa Juliana, receberia R$ 3,5 milhões. Esse valor - do seu, do meu, do nosso dinheiro - seria pago em quatro parcelas.

Fazer um agrado ao santo de casa usando-se dinheiro público é algo, no mínimo, inconveniente. Mas, pior ainda, foi que a escolha da mulher do Roberto Alvim e da produtora não passou nem por licitação, nem por processo seletivo.

Sórdido, muito sórdido.

Molica conversou com Roberto Alvim - que é apenas o nome artístico de Roberto Rego Pinheiro. Este garantiu ao repórter que sua mulher não receberia qualquer remuneração para exercer o cargo e para atuar em “Os Demônios”, peça que ele vai dirigir e que é baseada em um romance do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881).

Entretanto, nenhum dos documentos obtidos pelo repórter para embasar a reportagem cita que Juliana trabalharia de graça, num louvável e raro desapego em nome da arte. E diga-se também que os documentos estão devidamente assinados pelo diretor do Centro de Artes Cênicas.

A história sobre o agressor (verbal) de Fernanda Montenegro é basicamente esta. Espera-se que ainda renda novos capítulos. Pelo que se viu até agora, percebe-se claramente que o administrador Roberto Rego Pinheiro está (ou estava) agindo por má-fé ou por incompetência.

Qualquer um desses motivos já seria o suficiente para ele ser afastado do órgão federal responsável justamente pela produção e pela difusão das artes. Um terceiro motivo - a insensatez de entrar na história do teatro pela porta dos fundos - devia fazer o burocrata cobrir-se com o manto da vergonha e afastar-se espontaneamente da vida pública, para todo o sempre. Não faria qualquer falta.