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Por Sylvia Colombo/ Folhapress

A primeira reunião entre o ministro da Economia argentino, Martín Guzmán, e a diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva, foi de conversas "muito boas e construtivas".

Sinal positivo para os argentinos, que apelidaram esta quarta-feira (5) de "super miércoles", dado o desafio de enfrentar a renegociação de dívidas com credores externos e internos.

São duas frentes de negociação, a mais importante é justamente com o FMI. 

Durante a gestão do ex-presidente Mauricio Macri, em 2018, a Argentina pediu uma linha de crédito junto à entidade de US$ 57 bilhões (R$ 240 bilhões), dos quais foram recebidos US$ 44 bilhões (R$ 186 bilhões) -o atual governo rejeitou a última parcela.

Essa dívida começa a vencer em 2022, e o atual presidente, Alberto Fernández, afirmou que "a intenção é pagar, mas é necessário mais tempo, pois precisamos crescer antes". 

Este é o mantra que vem sido repetido pelo ministro da Economia, Martín Guzmán, cada vez que indagado sobre isso nas evasivas entrevistas que vem dando no anfiteatro do ministério, em Buenos Aires. 

Detalhes sobre o que será proposto pela Argentina, além de um adiamento, e da negociação de um "cronograma sustentável" para o pagamento, não são conhecidos até o momento, e nem aquilo que a entidade pedirá em troca. 

As conversas oficiais com o FMI começaram com um encontro entre Guzmán e Georgieva em Roma. Depois, devem continuar quando a Argentina receber, nos próximos dias 12 e 14 de fevereiro, uma missão do fundo, com quem se negociarão aspectos técnicos do novo acordo. O ministro afirma que pretende ter o novo cronograma de pagamentos pronto até o fim de março.

A rapidez em tentar chegar a um acordo divide economistas. Para o analista Diego Ferro, o "governo está desesperado por um acordo para evitar que se diga no mercado que a Argentina está em default". 

"Porém, uma reestruturação ruim da dívida pode ser pior que um default, porque pode gerar desconfiança se, num futuro próximo, for necessário fazer ajustes por conta de a Argentina não conseguir cumprir com o novo cronograma", acrescentou Ferro. 

Já para outro economista, Alberto Bernal, ter um cronograma "é positivo, porque passa uma mensagem clara, de que se tem a intenção de avançar rápido". 

Enquanto Guzmán tenta avançar na parte técnica, o presidente Fernández faz um tour internacional em busca de apoio. Nas últimas semanas, encontrou-se com empresários e políticos europeus, e com o papa Francisco, que disse estar disposto a ajudar junto ao FMI se necessário.

Da alemã Angela Merkel, com quem se encontrou na última segunda-feira (3), ouviu palavras de apoio. 

Em declaração à imprensa, Merkel disse: "a Argentina não se encontra numa situação econômica fácil, e por isso é importante que falemos de nossas relações econômicas no sentido de pensar como a Alemanha pode apoiá-los e ajudá-los nos encontros como o FMI".

Do americano Donald Trump, com quem falou ao telefone, Fernández também ouviu que teria seu suporte para a negociação com o FMI. Fernández também esteve com os chefes de Estado da Itália e da Espanha.

Outra frente que deve avançar nesta "super quarta" é a votação no Senado do projeto de lei chamado de "Reestruturação da Sustentabilidade da Dívida Pública Emitida sob Lei Estrangeira". Essa essa dívida que está sob moratória (atrasada) desde agosto do ano passado, decisão anunciada pela gestão Macri.

Já aprovado na Câmara de Deputados na semana passada, o projeto de lei começa a ser discutido nesta terça-feira (4) e será votado na quarta (5). 

Para sua aprovação, são necessários três quartos dos votos da casa, e ainda há dúvidas sobre a capacidade do governo de obtê-los. A lei permite que o Executivo tenha mais autonomia para negociar prazos e condições de pagamentos das dívidas interna e externa até o próximo dia 31 de março.

O total das dívidas argentinas é de US$ 311 bilhões de dólares, o que equivale a 91,6% do seu PIB, segundo dados divulgados pelo ministério da Economia.