Milhares vão às ruas da França em protestos contra ultradireita a uma semana do 2º turno

Milhares de manifestantes tomaram as ruas de pelo menos 30 cidades da França neste sábado (16) em passeatas contra a candidata da ultradireita, Marine Le Pen, que disputará o segundo turno da eleição presidencial contra Emmanuel Macron no próximo dia 24.

Pesquisa publicada neste sábado pelo instituto Ipsos mostrou que, se a eleição fosse hoje, Macron conquistaria a reeleição com 55,5% dos votos, contra 44,5% de Le Pen.

No centro de Paris, milhares de pessoas se reuniram e entoaram gritos contra a candidata e disseram que a democracia do país está em risco. Uma faixa dizia: "Contra a extrema-direita. Por justiça e igualdade. Não a Le Pen no [palácio do] Eliseu", referindo-se à residência oficial do presidente francês.

"Se a extrema direita estiver no poder, veremos um grande colapso dos campos democráticos, antirracistas e progressistas", disse Dominique Sopo, presidente do SOS Racismo, que convocou os protestos junto de dezenas de grupos de direitos humanos, sindicatos e associações.

"As pessoas precisam perceber que, apesar de sua raiva contra Emmanuel Macron e suas políticas, não há equivalência entre um candidato liberal e conservador e uma candidata de extrema-direita", afirmou

Em frente ao prestigiado Instituto de Ciência Política, cerca de 150 estudantes bloquearam a entrada do centro na quinta-feira, com faixas que diziam "Não à extrema-direita" e "Não há bairros para fascistas, não há fascistas em nossos bairros".

A polícia havia alertado sobre possíveis incidentes, mas os protestos terminaram de forma pacífica.

Em comício em Marselha, Macron, que tenta conquistar a simpatia de eleitores de esquerda, afirmou neste sábado que "a extrema direita é um risco para o nosso país." Na cidade, o candidato esquerdista Jean-Luc Mélenchon ficou em primeiro lugar no primeiro turno, em 10 de abril.

Já Le Pen, em evento de campanha também no sul da França, chamou os protestos de antidemocráticos. "O establishment está preocupado", disse ela. "Que as pessoas estejam protestando contra os resultados das eleições é profundamente antidemocrático. Eu digo a todas essas pessoas que vão e votem. É tão simples quanto isso."

Antes do primeiro turno da eleição, Le Pen conseguiu usar a seu favor a insatisfação da população francesa com o aumento do custo de vida e a percepção de que Macron está desconectado das dificuldades do dia a dia do povo. Com isso, ela terminou o primeiro turno com 23,1% dos votos, em comparação com 27,85% de Macron.

Com o eleitorado fragmentado e indeciso, a eleição provavelmente será vencida pelo candidato que conseguir convencer os eleitores de que a outra opção será pior.

Por décadas, uma frente republicana formada por eleitores de diferentes espectros conseguiu manter a ultradireita fora do poder ao apoiar candidatos populares. Mas há dúvidas se Macron conta com esse apoio, depois de um mandato com políticas pendendo para a direita e recheado de conflitos. Neste sábado, por exemplo, parte dos manifestantes carregavam faixas em Paris que diziam "Nem Le Pen, nem Macron".

"Esta eleição não nos deixa escolha entre um candidato de extrema direita com ideias repugnantes e um candidato que durante cinco anos deixou a questão ecológica de lado e mentiu", disse um professor de história identificado como Lou, 26, que se manifestou com o grupo ambientalista Extinction Rebellion.

Em Marselha, Macron focou a pauta ambiental. "A política que vou promover nos próximos cinco anos será ecológica", disse. Ele prometeu tornar a França a primeira "grande nação a sair do petróleo, gás e carvão" e nomear um primeiro-ministro encarregado da pauta ambiental.

Também afirmou que vai investir em tecnologias renováveis e alimentos orgânicos e que quer melhorar a eficiência energética das casas.

Ambos os candidatos tentam agora seduzir o eleitorado que votou no candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno das eleições de domingo passado. O eleitorado do esquerdista reúne diferentes grupos, especialmente jovens entre 18 e 24 anos atentos ao aquecimento global e a pautas como feminismo e antirracismo.