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Por Nelson Vasconcelos, especial para o Correio da Manhã

Ronan Farrow é hoje um dos repórteres mais badalados do mundo. Algumas de suas matérias detonaram uma grande - e justíssima - onda de combate a abusos e assédios sexuais na indústria cinematográfica dos EUA. Sua investigação sobre Harvey Weinstein, um dos mais poderosos produtores de Hollywood, incentivou o depoimento de mulheres acusando-o de estupro e “comportamento inadequado”. Resultado: Weinstein está em cana desde 2018 e segunda-feira (24) foi condenado, em Nova York, por ataque sexual e estupro. A sentença sai em março - mas ele pode pegar até 25 anos de cadeia.

O caso todo é narrado pelo próprio Farrow, em detalhes, no ótimo “Operação Abafa” (Ed. Todavia - R$ 59,90). No fim das contas, o relato parece mesmo um roteiro para cinema, ou para um seriado da Netflix, daqueles que misturam detetives, cafajestagem, sexo sujo, contra-espionagem e muito, muito dinheiro.

Farrow, diga-se, tem a indústria cinematográfica no sangue. Filho da atriz Mia Farrow com o diretor Woody Allen, nada do que é cinema lhe é estranho. Mais do que isso, acabou envolvido, há décadas, numa polêmica famosa, em que uma de suas irmãs acusava papai Woody de tê-la abusado durante sua infância. O escândalo provocou uma enxurrada de críticas ao diretor e, mais recentemente, até um boicote aos seus filmes, mas ficou tudo no disse-me-disse.

Não é de se estranhar, portanto, que denúncias de assédios e abusos estivessem no radar do repórter, de 32 anos, que acabou ganhando um Pulitzer, o principal prêmio jornalístico dos EUA, entre outros, graças à matéria publicada pela influente revista “New Yorker”, e veiculada pela rede americana NBC em 2018.

Farrow começou a desfiar, ainda em 2017, histórias a respeito de um predador sexual riquíssimo, protegido pela sua fortuna e pelos amigos da imprensa. O personagem era justamente Harvey Weinstein, produtor de mega-sucessos como “Sexo, mentiras e videotape” (1989), “Pulp fiction” (1994) e tantos outros.

A partir do depoimento de uma ex-atriz, Farrow descobriu outros tantos casos que comprometiam Weinstein, resvalando até em figurões como o presidente dos EUA, Donald Trump - que está longe de ser santo, como se sabe. Na verdade, o produtor - hoje aos 67 anos - já era bastante famoso, pelo menos nos bastidores da indústria cinematográfica, pelo seu comportamento criminoso e pelos maus bofes. Sua agressividade era notória, assim como sua insistência em levar para a cama algumas das mulheres mais bonitas do cinema americano.

No início da apuração, Farrow chegou a atrizes e colaboradoras que afirmaram ter sido estupradas por Weinsten mas que, durante anos, ficaram caladas a respeito - ou porque tinham medo de nunca mais conseguir trabalhar na área, ou simplesmente porque receberam dele cheques generosos para que calassem a boca.

Isso dificultou muito o trabalho do repórter, pois muitas delas só concordavam em dar seus depoimentos de maneira anônima, o que enfraqueceria as acusações e as próprias reportagens.

A propósito, a reação do produtor seria imediata. Antes mesmo de tudo vir à tona, tão logo soube que veria seu nome em reportagens e denúncias, Weinstein tentou evitar a veiculação ou a publicação do material.

Como não deu certo, acionou sua grande rede de amizades na imprensa. O objetivo era tentar desacreditar Farrow e intimidá-lo. O repórter até diz que ficou meio paranoico, tendo certeza de que estava sendo espionado e seguido a distância. E estava mesmo, como nos bons filmes.

A esta altura, entretanto, os escândalos sexuais já tinham tomado conta da imprensa dos EUA, sobretudo depois que foram divulgados os depoimentos de atrizes bastante conhecidas, como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Mira Sorvino, Asia Argento e Rosana Arquette, entre outras. A partir daí, as acusações a Weinstein começaram a pipocar, deixando o executivo totalmente sem defesa. Pelo menos 80 mulheres zeram algum tipo de denúncia a respeito dele.

#Metoo

Consequência natural e bem-vinda das matérias de Farrow foi a criação de um movimento que ganhou o mundo. O #MeToo provocou queixas semelhantes às apresentadas contra Weinstein, levando a discussões jurídicas e derrubando executivos de várias empresas, sempre por conta de sua conduta com as mulheres. 

Por essas e por outras, “Operação Abafa” é uma grande aula não só de jornalismo, mas também de justiça e solidariedade. A mensagem é: não podemos mais ficar calados perante injustiças.