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Por Patrícia Campos Mello (Folhapress)

Jair Bolsonaro deve aceitar convite feito pelo primeiro-ministro Narendra Modi para visitar a Índia no final de janeiro, segundo fontes do governo.

A intenção é que o presidente brasileiro seja o convidado de honra para as celebrações do Dia da República da Índia, em 26 de janeiro, quando é comemorada a entrada em vigor da Constituição indiana.

A mudança, em 1950, marca a transição completa do país para uma democracia após a independência da Grã-Bretanha, em 1947.

Os últimos líderes brasileiros a receberem esse convite foram os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, em 2004, e Fernando Henrique Cardoso, em 1996.

Modi e Bolsonaro, alinhados em suas políticas nacionalistas e pró-mercado, se encontrarão nos dias 13 e 14 de novembro em Brasília, durante a cúpula dos Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O presidente brasileiro e o premiê indiano também estavam entre os poucos líderes mundiais que participaram do Fórum de Investimentos da Arábia Saudita, o chamado "Davos no deserto", em Riad, promovido na semana passada pelo príncipe regente Mohammed bin Salman, acusado de ser o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

Antes, Bolsonaro foi à China, onde anunciou isenção de vistos para chineses e indianos viajarem ao Brasil, uma forma de estimular a integração e os negócios entre os países.

A visita à Índia, caso se concretize, será um sinal importante para a política externa brasileira, que de início apostava todas as fichas no alinhamento com os Estados Unidos, de Donald Trump.

Apesar de a política Sul-Sul dos governos petistas já ter sido ultrapassada, a recente vista à China e a possibilidade de ir à Índia mostram que o país continuará dando muita importância a esses parceiros.

Brasil e Índia têm acordo de preferências tarifárias ainda limitado a poucos produtos, e os países disputam algumas questões comerciais -o Brasil contestou, na abertura de um painel na OMC (Organização Mundial de Comércio), as medidas indianas de proteção ao açúcar, por exemplo.

Também na OMC, o Brasil se alinhou aos EUA para acabar com o status de Tratamento Especial e Diferenciado de alguns países, enquanto a Índia se opõe veementemente à manobra.

O atual presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos Brics, é o indiano K.V. Kamath, e o próximo será um brasileiro -o Brasil abrirá um escritório da instituição em São Paulo.

ABE DEVE CANCELAR VISITA AO BRASIL
Autoridades japoneses avisaram o governo brasileiro que o premiê do país, Shinzo Abe, não deve mais visitar Brasília no dia 18, como estava previsto e havia sido confirmado recentemente pelo próprio presidente Jair Bolsonaro.

Abe faria uma rápida passagem pelo Brasil após participar da conferência da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) em Santiago, no Chile. A reunião estava agendada para 16 e 17 de novembro e 20 líderes mundiais eram esperados -entre eles Donald Trump (Estados Unidos), Xi Jinping (China) e Abe.

A cúpula, no entanto, foi cancelada devido à recente onda de protestos contra a desigualdade social que eclodiu nas ruas chilenas em 18 de outubro.

Com isso, a escala do líder japonês pelo Brasil também deve ser cancelada, segundo informaram à reportagem interlocutores no governo brasileiro.

Durante visita oficial ao Japão para participar da entronização do novo imperador, Naruhito, o presidente Bolsonaro comentou publicamente as suas expectativas para a visita de Abe a Brasília.

Segundo o mandatário brasileiro, seria uma oportunidade para impulsionar conversas sobre um possível acordo comercial entre o Mercosul e o Japão.

"Ele [Abe] vai no final do ano, está previsto, para o Chile, para no Brasil. Está confirmado, vamos na churrascaria. Demos mais um passo na questão do Mercosul. Há interesse por parte deles também", disse Bolsonaro durante sua passagem pelo Japão.

Pessoas no governo que acompanham o tema afirmaram ainda que, sem a agenda no Chile, há inclusive impedimentos legais para a visita de Abe ao Brasil em novembro.

Elas dizem que o premiê japonês só pode se ausentar do país enquanto o Parlamento (Dieta Nacional) está em sessão para participar de cúpulas multilaterais. Sem a Apec, não haveria mais como justificar a parada no Brasil.