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Por Daniela Arcanjo/ Folhapress

Entidades de jornalismo classificaram de violento e sexista o ataque que a repórter da “Folha de S.Paulo” Patrícia Campos Mello sofreu na última terça-feira (11), na CPMI das Fake News no Congresso. Manifestaram-se a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Em depoimento à comissão parlamentar de inquérito, Hans River do Rio Nascimento, ex- -funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, mentiu e insultou a repórter. Sem apresentar provas, afirmou que a jornalista queria “um determinado tipo de matéria a troco de sexo”, declaração repercutida pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante o depoimento e nas redes sociais. Hans disse ainda que não havia encaminhado documentos para a repórter e afirmou não saber como o jornal acessou um processo que é público. A “Folha de S.Paulo” desmentiu as acusações.

Cid Benjamin, vice-presidente da ABI, afirmou que “a grosseria de que foi alvo a jornalista Patrícia Campos Mello está relacionada com dois fenômenos: os contínuos ataques à imprensa e aos jornalistas em geral e a multiplicação de comportamentos cafajestes”.

Para a Abraji, é “assustador que um agente público use seu canal de comunicação para atacar jornalistas cujas reportagens trazem informações que o desagradam, sobretudo apelando ao machismo e à misoginia”

Já a Fenaj e o sindicato paulista dos jornalistas entendem que os insultos são “reflexos dos ataques deliberados e estimulados pelo governo”.

“A Federação e o Sindicato repudiam, ainda, o caráter misógino, violento e sexista do ataque à profissional jornalista, utilizado para colocar em dúvida a credibilidade das informações apuradas por Patrícia, uma das profissionais mais respeitadas e premiadas do país. O ataque atinge não só a repórter da ‘Folha’, mas também os princípios democráticos, constitucionais e a liberdade de imprensa”, diz a nota.

Para Marcelo Rech, presidente da ANJ, “a tentativa de intimidar e deslegitimar o jornalismo profissional é uma das práticas típicas de autocracias”.

Hans River trabalhou para a Yacows, empresa especializada em marketing digital, durante a campanha eleitoral de 2018.

Em dezembro daquele ano, reportagem da “Folha de S.Paulo” baseada em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos de Hans mostrou que uma rede de empresas, entre elas a Yacows, recorreu ao uso fraudulento de nome e CPF de idosos para registrar chips de celular e assim conseguir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

“Quando eu cheguei na ‘Folha de S.Paulo’, quando ela [repórter] escutou a negativa, o distrato que eu dei e deixei claro que não fazia parte do meu interesse, a pessoa querer um determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção, que a minha intenção era ser ouvido a respeito do meu livro, entendeu?”, disse Hans no Congresso.

A repórter nunca se insinuou para Hans. Desde o primeiro contato, ela afirmou que fazia uma reportagem sobre o processo trabalhista. Parte dele o convite para assistirem a um show. A repórter não respondeu e não foi ao show.

O Código Penal estipula que fazer afirmação falsa como testemunha em processo judicial ou inquérito é crime, com pena prevista de dois a quatro anos de reclusão, além de multa. Na condição de testemunha, Hans se comprometera em falar a verdade à comissão.