Por Gustavo Uribe (Folhapress)

O presidente interino Hamilton Mourão disse nesta quarta-feira (30) que o depoimento de um porteiro no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) não tem força para derrubar a atual gestão, mas o general reconheceu que ele atrapalha o andamento do governo.

Segundo reportagem da TV Globo, baseada em depoimento de um porteiro do condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem casa, o ex-policial militar Élcio Queiroz, suspeito de envolvimento na morte, disse na portaria que iria à casa do presidente no dia do crime.

"Não, não dá para derrubar o governo dessa forma, mas que perturba o bom andamento do serviço, como se diz na linguagem militar, perturba", disse Mourão.

Ele ponderou, no entanto, que achou o depoimento "muito fraco" e que não era o caso de ter feito, de acordo com ele, "o escândalo todo que foi feito". Ele saiu em defesa de Bolsonaro e disse que o presidente "reagiu com bastante calma até".

Em transmissão nas redes sociais, no entanto, Bolsonaro se alterou e atacou a Rede Globo e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a quem chamou de "inimigo".

"Toda a pessoa que é atingida de forma desleal e quando sabe muito bem que não tem nada a ver com o processo se sente, vamos dizer, se sente triste, se sente enraivecida muitas vezes. Acho que o presidente reagiu com bastante calma até", disse Mourão.

O presidente interino disse acreditar que, apesar do episódio perturbar o "bom andamento do serviço", não deve atrasar o anúncio de medidas econômicas, como um pacote de estímulo para a geração de emprego e a reformulação do funcionalismo público.

"É um assunto que não sustenta um interrogatório normal desse cidadão aí", disse. "Está na mão do estado ainda, do Rio de Janeiro, é um crime cometido lá, não é um crime federal. Agora, tem de ser investigado de forma correta."

O general da reserva ponderou, contudo, que o crime poderia passar para a esfera federal caso se chegue à conclusão de que o inquérito "não está sendo conduzido de forma correta". "Eu acho que o presidente tem toda autoridade para tentar buscar uma defesa dele, de modo que esse cidadão seja ouvido por outras pessoas", afirmou.

Em uma estratégia combinada, um grupo de ministros saiu em defesa do presidente e contra a Rede Globo nas redes sociais. O ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, escreveu, por exemplo, que tentam desestabilizar Bolsonaro.

"A Rede Globo sensacionalista ignorou a ética, a honestidade intelectual e os fatos para tentar ligar o presidente ao caso Marielle. Usou, levianamente, o depoimento de um porteiro, com o objetivo de desestabilizar Bolsonaro a qualquer custo", disse.

No mesmo tom, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, escreveu que a reportagem "envergonha a história" do Jornal Nacional em uma matéria "tendenciosa" e com suspeitas "infundadas".

"Matéria claramente tendenciosa e deturpando fatos e criando suspeitas infundadas. A direção da TV Globo deveria ter mais responsabilidade com sua história", disse.

GLOBO LAMENTA DECLARAÇÕES

Em nota na noite desta terça-feira, a Globo afirmou que lamenta que o presidente demonstre "não conhecer a missão do jornalismo de qualidade e use termos injustos para insultar aqueles que não fazem outra coisa senão informar com precisão".

Disse que "não fez patifaria nem canalhice" e que a mera citação do nome do presidente leva o Supremo a analisar a situação.

"[A reportagem] ressaltou, com ênfase e por apuração própria, que as informações do porteiro se chocavam com um fato: a presença do então deputado Jair Bolsonaro em Brasília, naquele dia, com dois registros na lista de presença em votações. O depoimento do porteiro, com ou sem contradição, é importante, porque diz respeito a um fato que ocorreu com um dos principais acusados, no dia do crime."

Sobre as declarações de Bolsonaro de que renovará em 2022 a concessão se o processo estiver "enxuto", a Globo disse que não poderia esperar do presidente outra atitude. "Há 54 anos, a emissora jamais deixou de cumprir as suas obrigações."