Metamorfose Social

Por Fernando Mendes Leite*

Ter nascido no início da década de 1990 me fez experienciar grandes mudanças de comportamento da sociedade enquanto crescia. Uma vez, quando ainda cursava História na PUC, me deparei com algumas fotos do famoso “Pilotis” (pátio principal) da universidade ao longo do tempo. Ora, o que teria de tão interessante naquelas fotos que tenha me feito refletir? Num primeiro olhar, tudo parece bastante normal, mas quando percebemos a disposição dos estudantes, vimos uma grande mudança no padrão do comportamento. Nas fotos antigas, podemos observar filas para pagamentos bancários e filas para os saudosos orelhões (na PUC não eram bem orelhões e sim telefones grudados na parede do elevador). No mesmo dia que vi essas fotos, desci para o Pilotis para observar a movimentação das pessoas. No período que lá estive, e em outras oportunidades desde então, não vi nenhuma pessoa sequer usando o telefone público e nenhuma fila nas agências bancárias. Parecem situações banais, mas é impressionante como as mudanças tecnológicas mudaram – e continuam a mudar – o nosso dia a dia, a forma como nós nos comportamos e nos organizamos em sociedade.
O ano de 2020 foi mais um paradigma de mudanças, que poderiam até acontecer no futuro, mas foram aceleradas exponencialmente pela grave pandemia que estamos acometidos.

O ponto principal desse artigo é o sobre o preconceito. Qualquer tipo de mudança traz aspectos positivos e negativos, e poderíamos debater incessantemente sem que cheguemos a conclusões definitivas. Mas, por quê temos tanto preconceito com algumas mudanças, principalmente as tecnológicas? Não é fácil mudar o estilo de vida da noite pro dia. O smartphone, hoje difundido no mundo todo, não surgiu de um ano pro outro e demorou muito para que as mudanças por ele consolidadas tivessem aceitação da maior parte da população. Com o serviço de streaming a coisa foi ainda mais rápida.

Quando assinei meu primeiro serviço desse tipo, ficava pensando se a imagem não ficaria travando toda hora, afinal de contas, isso acontecia no meu computador, por quê não aconteceria também com a televisão? Para minha surpresa, nunca tive problema com qualquer serviço de streaming e hoje não consigo me imaginar sem. Imagina ficar de fora de roda de conversas sobre o controverso Castor de Andrade, tema de uma espetacular série documental do Globoplay. Foram muitas as mudanças que vivenciei ao longo dos meus quase trinta anos. Entretanto, nunca nutri tanto preconceito quanto pela última mudança, a que me motivou escrever esse artigo. Sou formado em História, atuo na educação e estou acostumado a ler. Sempre foi parte do meu cotidiano. Nos últimos anos, cada vez mais atarefado, me distanciei da leitura rotineira. Senti duramente. Ler é fundamental, nos mantem antenado no mundo, nos abre horizontes e exercita nossa capacidade mental. Precisava reconquistar esse hábito. Me despi do preconceito que tinha com o tal do “kindle”, o tablet dos livros.

O processo de ler um livro físico é encantador. Ir numa livraria, observar a capa, folhear o livro numa viagem imaginativa, e por fim virar a página que dá final a ele, com sensação de dever cumprido e orgulhoso. Era um hábito que durante muito tempo não estive disposto a abri mão. Até que a hora chegou e, para minha surpresa, consegui me adaptar e reconquistar o hábito que havia perdido. Poder ler no escuro, para mim, talvez tenha sido o grande “pulo do gato”. Sem dúvida, ainda continuarei a comprar livros físicos, mas o meu horizonte agora está mais amplo, pois tenho comigo, as duas opções. Penso no tempo perdido por puro preconceito. É preciso experimentar, seja o streaming, seja o tablet de leitura, seja o que for. Podemos ou não nos habituar a essas mudanças, mas não devemos ignorá-las. Como dizia o grande Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

*Coordenador do Colégio CEMP e Conselheiro Estadual de Educação