Vacina não é privilégio, é direito de todos

Por Elika Takimoto*

Enquanto milhares de brasileiros morrem diariamente vitimados pela Covid-19, o plenário da Câmara Federal aprovou um projeto de lei (PL 948/21) que autoriza empresas a comprem diretamente, e sem o aval da Anvisa vacinas contra a doença, desde que doem a mesma quantidade ao SUS. Em outras palavras, vai permitir que essas mesmas empresas furem a fila em busca da imunização, não seguindo o calendário proposto, tornando a vacina um privilégio e não mais um direito de todas as pessoas.

Se pararmos para pensar, o problema central não é a falta de dinheiro para a compra das vacinas, mas sim a oferta dos imunizantes, que está extremamente escassa. Não se engane: sua empresa provavelmente não terá condições de comprar doses para imunizar os funcionários. Estamos falando aqui dos megaempresários, que são os maiores agraciados com o projeto. Esse fato torna o PL aprovado extremamente cruel, porque ignora o Plano Nacional de Imunização, tirando a oportunidade de compra do SUS, fazendo com que a população mais vulnerável fique sem vacina.

Com esse PL, um banqueiro de 40 anos com muito dinheiro, por exemplo, poderá tomar a vacina na frente de uma pessoa de 60 anos, que está aguardando sua vez na fila. Isso parece certo?

No Brasil, cerca de 40% dos trabalhadores estão no mercado informal, desprovidos de direitos. Se colocarmos na conta os aposentados e pessoas desempregadas, é fácil perceber quão perversa é a decisão tomada pelos deputados. Todas essas pessoas, muitas com comorbidades, terão sua vacinação retardada ou até mesmo cancelada, simplesmente porque a elite brasileira não consegue aceitar que a solução mais correta é fortalecer o Sistema Único de Saúde, cobrando dos nossos governantes uma postura mais responsável, garantindo vacina para todas as pessoas, sem qualquer distinção.

Nosso país, mais uma vez, vai na contramão do caminho seguido pelo restante do mundo. China, Estados Unidos e Europa rechaçaram a compra de vacinas pela iniciativa privada pelo simples fato de que essa alternativa não é efetiva. Sabe-se que a atitude correta é garantir um plano de vacinação nacional, que consiga vacinar a maior quantidade de pessoas possíveis em todo o país, ao mesmo tempo que identifica grupos prioritários. Respirem fundo, de máscara e respeitando o distanciamento, porque as vacinas ficaram mais longe ainda!

*Escritora, professora e doutora em Filosofia pela UERJ