Epifanias urbanas

Por Vicente Loureiro*

No poema “A Flor e a Náusea”, publicado no livro “A Rosa do Povo” de 1945, o poeta Carlos Drummond de Andrade anunciava um milagre: uma flor havia furado o asfalto e, segundo ele, também o tédio, o nojo e o ódio. Era uma epifania. Uma tentativa de nos fazer compreender a essência das coisas. Quem sabe anunciar que a esperança pode renascer onde e quando menos se espera. Se havia ou não uma flor nascendo no asfalto, jamais saberemos. O fato é que virou verdade, sem talvez ter sido. Produto da mais pura poesia.

Há uns 10 anos, um pombo de asa branca construiu em Atibaia, no interior de São Paulo, um ninho inusitado usando fios elétricos, arames, clipes, entre outros materiais industriais recolhidos na cidade. Comprovando assim, na prática, a Teoria de Darwin: “na natureza não são as espécies mais fortes ou mais belas que sobrevivem, mas sim as que melhor se adaptam ao ambiente”. Seu instinto de sobrevivência permitiu substituir gravetos e folhas normalmente utilizados, mas não disponíveis, por assemelhados coletados provavelmente em construções da vizinhança. Um caso de epifania factual.

Esta semana, um amigo chamou minha atenção com um relato: “uma árvore brotou e viceja na cabeça de um poste”. Claro que não acreditei. Exigi prova. A foto enviada por ele e que ilustra este artigo não bastou. Corri ao local para, feito um São Tomé da urbis, conferir a impropriedade botânico/urbanística, se me permitem. Batata. Estava lá a árvore e seus já frondosos galhos. O tronco, pasmem, era mesmo um poste de concreto de uns 6 ou 7 metros de altura. Ao mesmo tempo indiferente e suporte daquela atitude improvável da natureza. Parece continuar a ser verdade que dinheiro não dá em árvores. Já árvore em poste...

Enquanto em cidades chiques penduram-se jardineiras coloridas nos postes para embelezar as ruas principais, aqui em Nova Iguaçu, cidade raiz, as árvores já nascem em poste. Pragmaticamente, sem precisar da mão humana. E com algumas indiscutíveis peculiaridades: ficam imunes ao vandalismo. Já aparar seus galhos exigirá uma poda daquelas, com auxílio até de escada Magirus. Dificilima de cortar. Queria ver aquele ex ministro do Meio-Ambiente, amigo da motoserra, derrubar essa majestosa árvore poste. Pensando bem, é capaz da Light, alegando motivos de segurança, cortar essa epifania ao mesmo tempo poética e factual.

Esse incrível fato é uma prova de que existe cidade para além de suas concretudes, resultante dessas mais que prováveis impossibilidades. Onde a capacidade de adaptação ao meio agressivo e, por vezes, inóspito é surpreendente e inspiradora. Brotar onde seria impossível, mais do que uma prova de resiliência, é um ato de superação da vida. De afirmação de que as adversidades podem ser obstáculos, nunca empecilho. Essas e outras epifanias urbanas devem ser consideradas enquanto sensação profunda de realização, não como uma manifestação espiritual ou do divino. Ou será que não?

*Arquiteto e urbanista