Luciano Bandeira: ‘Não existe uma advocacia forte sem uma Ordem forte’

O Correio da Manhã entrevistou o advogado Luciano Bandeira, atual presidente da Ordem dos Advogados do Estado do Rio e candidato à reeleição. Na conversa, Bandeira fez um balanço de sua gestão à frente da OAB fluminense e falou sobre seus planos para mais um mandato.

Por: Cláudio Magnavita

Cláudio Magnavita: Luciano, ter reeleição no meio, é ter seu mandato julgado pelos colegas, certo?

Luciano Bandeira: É isso e eu acho muito positivo esse critério de você ter a resposta dos advogados e advogadas nesse momento, se a gente está fazendo uma boa gestão ou não. Eu acredito que estamos fazendo, acho isso muito positivo.

CM: O primeiro mandato é de três anos e eu brinco então que são seis anos com uma revisão no meio. Já que estamos falando sobre a questão de mandato de balanço, diferentemente de quem está entrando, quais são os pontos altos da sua gestão?

LB: Eu acredito que o ponto alto da gestão foi ao enfrentamento desse momento da pandemia. Cláudio, a pandemia foi difícil para todo mundo, mas para a advocacia, especificamente, foi muito duro porque a gente ficou com o Judiciário fechado por muito tempo. Para você ter uma ideia, estive hoje [10] na porta do Tribunal Nacional do Trabalho, pois finalmente nós conseguimos abrir a Justiça do Trabalho. Ela ficou praticamente dois anos fechada. Acredito que o ponto alto foi isso, nós tivemos que nos reinventarmos. Quando ficamos nesse mundo virtual, telepresencial, precisamos entregar para os advogados e advogadas os equipamentos necessários para que eles pudessem continuar trabalhando nesse momento.

CM: Muitos advogados dependem da sala da OAB, correto?

LB: Exatamente! Nós tínhamos chegamos a 242 estruturas em todo o estado, ou seja, o que chamamos de Casa da Advocacia, espalhadas pelas 63 subseções, e tínhamos as estruturas dentro dos fóruns também. O que estava acontecendo? Os fóruns fechados, as estruturas fechadas, isso modificou o sistema porque passou a ser telepresencial. Então os advogados e advogadas passaram a precisar de internet de alta velocidade, mais ainda do que já precisavam, áudio e vídeo… precisamos nos reinventar. Lançamos o projeto dos escritórios digitais, até o dia 15 setembro deste ano já entregamos 316 escritórios digitais em todo o estado. E para que são esses escritórios? Os advogados e advogadas marcam o seu horário, vão ao escritório, o que chamam hoje em dia de coworking, e lá fazem sua audiência, a sua sustentação oral, com total privacidade, ar-condicionado, mesa, cadeira e internet de alta velocidade. A gente sabe que a infraestrutura de internet deixa muito a desejar, então muitas das vezes o advogado precisa dessa estrutura mais potente para poder continuar a trabalhar. Então, isso foi fundamental: dar a possibilidade para que eles possam trabalhar. Hoje a Ordem, nas suas estruturas, no estado todo, a gente ocupa mais de 2.800 advogados e advogadas trabalhando ao mesmo tempo, nessa estrutura da Ordem. Peticionando, digitalização… nesses escritórios digitais. Então, acho que isso foi um desafio colocado em nossa frente.

CM: Mas isso não estava no script, nem previsto em orçamento, certo?

LB: Tivemos que reinventar, como eu te falei e você observou muito bem, primeiro tínhamos aquelas grandes salas dentro do Fórum, mas ele fechado, como é que vamos fazer? Tivemos que tirar de dentro do Fórum, fizemos casas da advocacia fora. Eu dou um exemplo, no Recreio dos Bandeirantes, tínhamos um elenco de 3.500 advogados que tinham uma boa estrutura, tinham uma bela sala dentro do Fórum, tinham a sede da subseção, mas lá no Recreio não tinham nada. Com isso, construímos uma casa da advocacia onde tem escritórios digitais, centrais de peticionamento, digitalização e funcionários da Ordem para atender. Da mesma forma, fizemos lá em Maricá e Itaipuaçu, por serem distantes do Fórum, fizemos na Região Oceânica de Niterói, fizemos até em Carmo, que é uma cidade pequena no interior do estado, que não tinha essa estrutura e a gente levou para fora.

CM: E em nossa Região Serrana?

LB: Lá fizemos um trabalho que eu considero fantástico. Em Friburgo, ampliamos o número de escritórios digitais na própria sede da subseção, que é muito centralizada, muito boa. Mas duplicamos o número de escritório digitais. Em Teresópolis, construímos uma sede nova, do zero, absolutamente pronta para advogados e advogadas. E em Petrópolis, entregamos mais de doze escritórios digitais para que todos os advogados da região pudessem enfrentar esse grande desafio que estamos conseguindo passar. Se Deus quiser, no ano que vem vamos conseguir voltar a todo vapor.

Rio de janeiro

CM: Você acha que a Justiça, na questão das audiências telepresenciais, perdeu um pouco do olho a olho do juiz com o advogado? Ele consegue ser plenamente trocado por uma audiência telepresencial?

LB: Tenho certeza que não, mas eu divido isso em duas formas. Quando a gente fala da sustentação oral que são os julgamentos nos tribunais, há uma perda na qualidade. O subtexto faz diferença. Mas, tem uma vantagem… por exemplo, o advogado que está lá em Santo Antônio de Pádua, e para sustentar um processo no TJ precisa encarar cinco ou seis horas de carro até chegar aqui. Muitas vezes o cliente não tinha condição de pagar para que ele ficasse em um hotel, aquele processo ficava abandonado, ficava vazio, ninguém acompanhava o julgamento, só ia saber qual era o resultado no dia seguinte. O telepresencial, na segunda instância, permitiu isso. Pode não ter a mesma qualidade de estar presente, mas eu estou aqui, os pontos relevantes são esses… da mesma forma nos tribunais superiores. Mas quando a gente vai para a primeira instância, a audiência de instrução e julgamento, a tecnologia não permite a qualidade necessária que a gente precisa para uma boa jurisdição. Existe uma coisa que a identidade do magistrado, a percepção, a testemunha e do próprio advogado quando você está inquirindo uma pessoa, a linguagem corporal da testemunha, tudo isso no vídeo fica muito frio e a gente perde essa impressão pessoal. Então eu sou um crítico do acesso remoto nas audiências de primeiro grau. Quando você está rem primeira instância, acredito que nao é o ideal, mas houve um avanço na segunda instância.

CM: Eu queria agora voltar no seu trabalho, que é um trabalho de equipe, pois sua chapa está sendo bem renovada. Aliás, você conseguiu pegar todas as correntes. É de uma pluralidade que merece aplausos, pela primeira vez que você tem a cota feminina e de etnia. Fala como foi a composição da chapa e como foi o seu entrosamento com a atual diretoria?

LB: Tenho um entrosamento maravilhoso, primeiro com a minha vice-presidente, Ana Tereza Basilio, que representa muito a força da mulher advogada. A Ana é uma pessoa que construiu uma carreira do zero, e, com sua força e sua capacidade, representa muito isso. Me ajuda muito na vice-presidência. Nós temos um secretário-geral que cuida de toda essa área de pessoal, e na Ordem, nós temos quase 800 funcionários.

CM: Qual o orçamento anual da OAB-RJ?

LB: Em torno de R$ 100 milhões. Eu também sou o primeiro presidente a criar o portal de transparência. Está tudo lá. Tudo que é pago e arrecadado está disponível. É algo de que tenho um orgulho.

CM: Foi copiada de outros estados?

LB: Não sei dizer, mas acho que era uma obrigação minha, um compromisso. Tem uma diferença, não fica o dinheiro todo com a gente. Nós só ficamos com aproximadamente 60% desse valor, porque há as divisões obrigatórias: Caixa de assistência, Conselho Federal, Fundo de Desenvolvimento da Advocacia, são verbas que são da anuidade que vão para esses órgãos da advocacia nacional e não ficam aqui no Rio de janeiro.

CM: E a capacitação, como é que a OAB pode ajudar o advogado na parte de atualizações com cursos?

LB: Isso é fundamental, você vê como a pandemia atrapalha. Eu tinha um sonho, que era uma das minhas promessas, que era construir a maior escola superior de advocacia do Brasil, e a fez isso, a gente pegou aquele prédio histórico da Marechal Câmara onde funciona o Instituto dos Advogados Brasileiros, onde tem o Clube dos Advogados, naquele prédio nós construímos mais de 15 saladas de aula e levamos a ESA para lá e construímos a maior ESA do Brasil, mas o que aconteceu? No segundo mês veio a pandemia e fechou tudo. Então investimos na área digital. O papel da Ordem é fundamental. A gente tem que sempre ter cursos de possibilidades e envolvimento porque o direito é muito dinâmico. A gente tem o fato social, acontece essa mudança da sociedade, o mundo da tecnologia, e a gente tem essa mudança que veio desenfreada e aí veio o marco civil da internet, com a LGPD e é um universo absolutamente novo para ser explorado com oportunidades de desenvolvimento profissional para os advogados. E a Ordem oferece os cursos de treinamento no processo eletrônico.

CM: E a certificação?

LB: O projeto de certificação que é para os advogados que saem crus. Tivemos dois projetos bacanas. Um é o de certificação profissional do advogado que sai da faculdade e para ele se preparar, como você atua no mercado. Porque ninguém ensina a ser advogado na faculdade. E o outro é de mentoria, que a gente pega advogados experientes e eles funcionam durante um mês ou dois como mentores de advogados iniciantes, para orientar eles da profissão. “olha estuda isso, se dedica a aquilo”. Foram iniciativas bacanas.

CM: Eu não me contive, e no Pinga-Fogo, do Correio da Manhã, acabei fazendo um desagravo que eu achei extremamente respeitoso, em plena campanha eleitoral, para uma pessoa que foi vítima da criminalização da advocacia, que é a sua vice-presidente Ana Basílio, em que o STF já está corrigindo, fosse utilizado com aquela violência, do que eu chamo de último bastião da sociedade, que é a advocacia,. Foram as imagens da operação, onde a televisão já ate sabia onde ia acontecer. Mistérios que envolvem o TRF. E de você ter a utilização política de algo que deveria ser repudiado, mas ao contrário...

LB: Eu vejo com tristeza, porque criminalizar a advocacia que a gente defende tanto. Fui muito criticado na época, porque eu tive a postura firme. O Rio de Janeiro, que foi ao STF e isso já está resolvido, porque já foi publicado o acordo do relator Gilmar Mendes. Foi um absurdo, uma agressão, é você querer confundir a atuação profissional, do advogado com o cliente. Então, fico muito triste. Pessoas que se propõem a assumirem a OAB, que sua primeira missão é defender a advocacia e defender a nossa liberdade, cada advogado, cada advogada, utilizar isso. Vejo com tristeza, mas fizemos com muita firmeza. Eu até publiquei uma foto porque temos que dar força e eu não tenho vergonha nenhuma. Aliás, tenho muito orgulho. Então publiquei uma foto minha com minha querida Ana Tereza Basílio, abraçados e com uma nota de desagravo assinada por mim, porque acho que a baixeza em uma campanha eleitoral é muito ruim, ainda mais em uma campanha de ordem. Então vamos discutir propostas.

CM: Eu o parabenizo em público por sua atitude, porque nós fizemos manchetes. Fiquei muito surpreso quando encontrei algo tão sórdido que criminaliza aquilo que eu chamo de última barreira de defesa da sociedade, que é o direito de ter uma advocacia plena. Eu queria falar também da utilização da advocacia, como, por exemplo, mostramos no Jornal que a Refit, que tem como grande operador um advogado, o Ricardo Andrade Magro, que ele estavam prorrogando uma questão da recuperação judicial só para ter uma blindagem das execuções que a PGE está fazendo. Também publiquei que a empresa estava pagando ao escritório dele, a Magros Associados, faturas de R$ 23 milhões, R$ 18 milhões, R$ 7 milhões. Uma empresa que está em recuperação judicial de R$ 60 milhões pagou isso de honorários. Como você vê, nesse caso pontual, a advocacia sendo usada para malfeitos, no caso, um calote no estado de R$ 6,8 bilhões. Por que um advogado desse não vai para o conselho de ética da OAB e perde seu registro da Ordem?

LB: Não sei dizer se tem algum processo correndo. Só para entender como é o processo. Primeiro temos um tribunal de ética e disciplinar que é um órgão autônomo. Os membros são eleitos pelo conselho pleno, que é onde entram os processos de infração ético-disciplinar. O conselho pleno, que é o que eu presido, julga essas ações apenas em grau de recurso. Então eu estou sendo sincero, não sei dizer se existe algum processo. O que posso dizer, é que neste período excluímos mais de 100 advogados no período que estou, por mal feitos. A gente pune e pune muito.

CM: Seria bom que todas as carreiras seguissem esse exemplo?

LB: Isso que eu ia falar. Se todas as carreiras fizessem o que a ordem faz, iriamos purificar as carreiras. Agora, pode ter certeza, que não há transigência da ordem quanto a mal feito. Os malfeitos que chegam são apurados e não temos qualquer receio de expurgar maus advogados, péssimos advogados dos nossos quadros.

CM: Pegando esse aspecto, nós estávamos mostrando nas capas do Correio da Manhã, que nós temos um advogado e ex-juiz, que é o Wilson Witzel, e sua esposa, que também usou contratos de advocacia, está nos inquéritos todos, pra camuflar a receita. Esses dois casos não são para Ordem suspender?

LB: Pode até chegar a isso, né? O caso do Wilson Witzel, ele é advogado porque já era advogado antes. Esse é um caso que, até quando saiu a notícia, eu, que leio o Correio da Manhã todo dia de manhã – é a primeira coisa que eu faço –, principalmente a sua coluna, então eu fui lá checar. O que eu verifiquei? Ele saiu da Magistratura e como na Lei diz que o magistrado, procurador da república, promotor de justiça, tem certos cargos que não precisam fazer o exame da Ordem. Você sai e tem direito a reaver sua carteira. Então, antes dele ser governador, ele já tinha reativado a inscrição dele. Ele era advogado. O que aconteceu? Quando ele assume o cargo do executivo, que é um impedimento, que nem o nosso governador agora, Cláudio Castro, que é advogado, está impedido de advogar porque exerce um cargo no executivo. Então a inscrição fica suspensa. A partir do momento que ele deixa de ter o cargo no executivo, ele volta a ter a inscrição. Então ele tem a inscrição. O que acontece especificamente nisso? Existe um processo em curso. Assim que esse processo em curso contra ele tiver um ofício do ministério público, um encaminhamento...

CM: Um transitado e julgado.

LB: Exatamente. Não precisa nem a chegar a estar transitado e julgado, tá? Não precisa chegar a tanto porque nós somos uma entidade, que é administrativamente independente do judiciário. Mas, assim que tiver um momento de uma consolidação probatória, o processo judicial já é o suficiente pra abrir um processo ético-disciplinar, o que acontecerá.

CM: Só quero deixar claro que eu tenho definido editoriais e que a presunção de inocência tem que existir e ser o bastião da democracia. A pessoa é inocente até que se prove o contrário. Então, é necessário seguir isso para que não haja uma condenação prévia?

LB: Perfeitamente.

CM: Voltando ainda à questão da OAB-RJ, eu queria mergulhar um pouco naquilo que eu acho fundamental para o advogado que é a CAAJ. Como é que é a sua relação com a CAAJ e como é que a Caixa de Auxílio tem funcionado na sua gestão?

LB: Olha, nós buscamos trazer a CAAJ de volta para a função dela, que é a função assistencial. Durante esse período, nós tivemos uma reestruturação completa da caixa. E a caixa atuou, por exemplo, no atendimento psicossocial. Ou seja, não só os assistentes sociais, mas também psicológicos. Porque muitos advogados sofreram na pandemia. Imagina você, advogado, fazendo prazos em casa, com filhos estudando dentro de casa, você com aquilo tudo teve uma afetação. Nós atendemos mais de três mil advogados, eu não tenho o número exato aqui, posso até mandar o número certo pra você depois, mas eu sei que foram mais de três mil consultas feitas pela CAAJ, inteiramente gratuito, para advogados e advogadas nesse atendimento psicossocial. Nós vacinamos mais de 20 mil advogados com H1N1, lógico que não foi a da Covid porque só o governo que pode ter, mas com H1N1 já contribuímos pra isso. Porque sem H1N1 não há vírus da gripe, então mais de 20 mil. Nós conseguimos lá com o Butantã a H1N1 e vacinamos mais de 20 mil advogados. E além disso, nossos assistentes sociais fazem também o acompanhamento, nós restabelecemos o auxílio funeral, que é uma coisa importantíssima. Todo advogado e advogada tem direito a isso, é algo que a CAAJ oferece.

CM: Você tem o número de vítimas advogados?

LB: Tem um memorial, mas eu não tenho de cabeça. Mas tem um memorial no site da Ordem em homenagem a todos os nomes e números ali. Não tenho os números de cabeça, eu peço até desculpas, mas essas coisas muito ruins a gente tenta não ficar guardando. Ah, só mais uma coisa. A CAAJ voltou e oferece o plano odontológico pra todos os advogados do Rio. Então, esse é o investimento de trazer a CAAJ de volta para os advogados.

CM: Mas o plano de saúde é eletivo, certo?

LB: O plano de saúde é eletivo porque já tivemos plano de saúde há quase 20 anos atrás, era muito complexo e até hoje...

CM: Vai reeditar o que está acontecendo com a prefeitura?

LB: Exatamente.

Rio de janeiro

CM: Luciano, vamos falar do quinto. Há o consenso de que foram feitos 59 candidaturas, que tem que virar uma lista de 18 e depois 9 saem do tribunal para o governador. Como é que vai ser essa triagem aí? E é verdade que já é um consenso que vai ser a nova diretoria que vai ser eleita no dia 16, que vai ser aguardada a posse do novo conselho pra escolher ou vai ser o atual conselho que vai escolher?

LB: Cláudio, já está marcada, no dia 18, uma reunião de diretoria para decidir quando será marcada a posse. Nós não definimos a lista. São 80 conselheiros que votam, né? Até impõe muitas vezes poderes ao presidente. Eu sou o único que não vota. Só se empatar. Então é o seguinte, somos 80 conselheiros e dia 18 vamos decidir.

CM: Mas qual a tendência?

LB: Nós temos a data de 26 de novembro pra fazer a lista esse ano. A ideia nossa é votar as três listas no mesmo dia. Há a possibilidade, mas nós vamos decidir isso no dia 18.

CM: Mas o que você acha? Qual o prognóstico seu?

LB: Eu acho que, se eu for apostar com você, o prognóstico tem uma chance maior de ficar pro ano que vem.

CM: Até porque, como há uma pluralidade de votos, muda-se o jogo completamente. Agora, acho muito importante ter esses pré-requisitos, porque são representantes. Nós acabamos de deixar agora o Claudio Mello Tavares, que era um representante do quinto, que chegou a presidir a corte. É importante você ter esse processo de triagem?

LB: E transparência. Eu acho muito importante...

CM: É recorde esses 59? Deve ser, né, porque tem três listas.

LB: Eu acho que é porque são três listas, então teve esse número todo.

CM: Então a terceira vaga do Ministério Público embolou. Vocês vão usar o mesmo critério, de votar os líderes na cabeça? Vai ter sorteio? Como que vai ser?

LB: É isso que as pessoas não entendem do processo da Ordem. A Ordem é diferente porque é muita gente, são 80 votantes. Então não é tão simples essa mágica dessa organização. É muito complexo isso e são advogados.

CM: Mas a lista de corte vão ser os 18 mais votados?

LB: Então, como é que funciona? Abre a primeira lista, aí vota a primeira lista.

CM: Os 59 podem entrar na primeira lista?

LB: Nem todos se inscreveram nas três. Tem gente que se inscreveu em uma só, tem gente que se inscreveu em duas... Mas a maioria se inscreveu nas três. Então quem faz 41 votos entra. Então, lógico, vai ter gente que vai ter 70, 79 votos... Pode ser. Então faz aquela lista. Fez 41, entra, até completar seis. Completou seis, aí fecha a lista. Aí abre a segunda lista. Lógico que quem já entrou na primeira não entra nas outras, porque você não pode repetir, então seria uma situação inédita.

CM: Mas aí você vai botar o, vamos dizer, os pole position todos numa lista só?

LB: Não, é difícil. Não tenho como fazer isso porque cada conselheiro vai ter o seu voto. E sabe porque eu não tenho como fazer isso? Porque diferente dos outros, a votação na Ordem é aberta.

CM: No Ministério Público eram 10 para escolher 18?

LB: Exatamente. A votação é aberta, o processo é transparente, todo mundo vai saber quem votou em quem.

CM: Eu queria entrar nos seus aspectos pessoais, mas antes eu queria te perguntar, OAB é partido político?

LB: De jeito nenhum. A Ordem tem que representar a sociedade, o partido dela é a Constituição Brasileira.

CM: Como você vê o nosso presidente nacional nessa vida política-partidária?

LB: Felipe não é afiliado a partido nenhum.

CM: Mas ele já foi pré lançado pelo Eduardo Paes.

LB: Eu acredito que essa gestão nacional teve vitórias importantes, como a lei de abuso de autoridade onde a gente conseguiu colocar a criminalização das prerrogativas dos advogados, o processo que consolidou da inclusão do advogado no simples, a inclusão como serviço essencial. Vitórias que tivemos no STF quanto aos honorários de sucumbência.

CM: Mas houve uma politização. Quando ele estava na sua cadeira, ele politizou?

LB: Eu acho que ele foi um presidente muito importante em um momento de transição. E eu acredito, sinceramente, que ele teve uma posição de muita defesa aos advogados nesses pontos importantes de Construção Legislativa. A advocacia nunca avançou tanto na questão legislativa. Muitas vezes é um pouco diferente a posição do presidente do Conselho Federal, ele fica muito exposto a algumas questões. Agora estão dizendo que o confronto contra o presidente da Câmara dos Deputados por conta dos precatórios. Mas a gente precisa defender os precatórios, porque é ali que estão os honorários dos advogados. Então eu acredito que possa haver alguns momentos que possa acontecer, mas de maneira geral eu acredito que a Ordem avançou muito nesses assuntos, principalmente no Legislativo.

CM: Eu tenho visto muitas petições que dá vontade de chorar com os erros de português. Você é filho da Dona Leila, que era professora de português, como era isso, ela puxava muito a sua orelha?

LB: Era duro, não podia errar no português não. Ela professora de português, literatura e o autor favorito era Machado de Assis, então o trabalho era duro, ela puxava e muito a minha orelha.

CM: Seu irmão mais velho é médico, pegou a área biológica então não sofreu tanto?

LB: Ele era dessa área, mas sofreu também, ninguém podia ir mal no português em casa, não, era uma exigência.

CM: Seu pai, Sérgio, como engenheiro elétrico foi o responsável por grandes usinas e colocou luz no Brasil inteiro. Dá orgulho olhar para trás e ver esse legado do seu pai?

LB: Eu tenho um orgulho muito grande, o meu pai fez parte da primeira geração de engenheiros formados no Brasil e que construiu as usinas hidroelétricas no país, que gerou esse avanço no Brasil. Grande parte das usinas dos anos 70 e 80 meu pai participou do processo eu acredito que, para mim ele sempre será um herói, mas foi uma pessoa que contribui para o desenvolvimento do Brasil. Antes dele quem fazia as usinas eram os americanos. Então eu tenho muito orgulho e acho que ele foi um brasileiro muito importante.

CM: Quem tem uma memória como a do Sérgio para preservar precisa andar direito, é por isso que você sempre anda na cartilha do bom moço na OAB?

LB: Eu sou assim, prefiro ter a consciência tranquila e dormir bem a noite.

CM: Você tem duas filhas e a mais velha está fazendo direito. Qual foi a sua influência nela?

LB: Eu acho que não foi bem influência. Mesmo porque eu nunca disse para ela fazer nada, ela não me perguntou e nem me procurou para conseguir o seu estágio. A Luiza é independente e foi atrás das coisas dela, se inscrevendo nos processos de seleção, passou para dois grandes escritórios e apenas me comunicou. Eu parabenizei ela e fiquei feliz.

CM: Agora a segunda faz psicologia.

LB: Exatamente, deve ser para entender o pai e a irmã.

CM: Você é casado com uma gaúcha, como é o matriarcado gaúcho?

LB: Eu sou minoria, elas que mandam. Mas eu gosto de estar nesse universo feminino, as mulheres têm uma capacidade de solução dos problemas que muitas vezes os homens não tem. Elas têm uma visão e uma objetividade que muitas vezes nós homens não temos. Eu aprendo muito isso com elas. Acho isso muito positivo para a minha vida.

Rio de janeiro

CM: A sua oponente foi sua vice-presidente na OAB-Barra. Aliás, você foi o primeiro presidente da OAB-Barra. Como está sendo, para você, esta campanha?

LB: Eu tenho uma excelente relação com a professora Sylvia, que foi minha vice na OAB-Barra por dois mandatos. Democracia é isso e acho que todos que cumpram os requisitos de disputar a eleição, apresentando propostas sem ofensas, como é o meu estilo. Você nunca me verá levantando a voz ou ofendendo alguém. Eu apresento o que fiz e ela, com toda a legitimidade, juntamente com as outras duas chapas, de apresentar suas ideias. Vamos discuti-las e os advogados vão escolher qual o melhor projeto.

CM: Queria voltar sobre a questão familiar. Como sua esposa está te vendo nesta campanha?

LB: Eu digo que ela demorou um pouco para entender, pois ela não é advogada, e sim administradora, com uma carreira acadêmica, Eu explico para a Juliana e para as pessoas também que a gente abre mão do escritório, do tempo com a família, eu sou advogado há 27 anos e nunca tive outra atividade profissional.

CM: Como o direito te tocou?

LB: O direito surgiu porque sempre gostei muito de história, de ler e achei que essa era a melhor profissão para unir as duas atividades. E o direito, nesses 27 anos, como explicava antes, me deu a oportunidade de ter uma profissão, de criar minha família e de ter uma vida. E estar na presidência da OAB-RJ é uma retribuição a isso tudo. Eu participo da minha última eleição no sistema da OAB, porque eu acredito que as tradições precisam ser respeitadas e aqui no Rio é de apenas uma reeleição e essa é a única que vou disputar. Depois, vou me dedicar integralmente ao meu escritório. Então, acho que é uma retribuição. A gente teve um grande presidente nacional da Ordem, que foi Seabra Fagundes, num momento muito difícil, da redemocratização. E ele, quando eu era presidente da Barra, tinha escritório aqui e ficava assistindo a reunião dos conselhos da OAB-Barra, porque ele era membro honorário e vitalício, e ele tinha uma frase que gosto muito: “Não existe advocacia forte, sem uma OAB forte. E não existe OAB forte, sem uma advocacia forte”. Então, acho que é uma obrigação de todos os advogados e advogadas doarem um pouco do seu tempo para a OAB. O meu tempo, está acabando.

CM: Concordo em número, gênero e grau, mas por que tem advogados que não vão votar?

LB: Eu acho que tivemos um índice alto de abstenção especificamente aqui na Barra, por ter sido chapa única. A Barra é uma subseção muito grande, a segunda, depois de Niterói. Então, eu acredito que, havendo disputa, vai subir muito o nível de comparecimento. Mas, eu vou pedir aqui, para os advogados, que se dirijam à urna e escolham com a sua consciência, o que você vê de melhor para a Ordem dos Advogados.

CM: Como está a OAB de Petrópolis?

LB: Está maravilhosa. O Marcelo Schaefer faz um trabalho tão bom que unificou a OAB toda, pois lá ele é chapa única. Toda a advocacia petropolitana já o reelegeu. Ele é uma pessoa muito dedicada, de uma família muito tradicional da advocacia de Petrópolis. Uma pessoa que tenho admiração profunda.

CM: E a OAB de Teresópolis?

LB: Em Teresópolis, o Rodrigo Ferreira está saindo, pois completou os dois mandatos dele, o que é a nossa tradição, mas está deixando o vice dele, Edinho, uma pessoa muito dedicada, que tem um carinho pelos advogados e advogadas. E lá também, por unanimidade.

CM: Para encerrar essa trinca serrana, a OAB de Friburgo.

LB: Alexandre Valença, um homem com semblante sério, mas um doce de pessoa. E ele é aquela pessoa que vai para a porta do Fórum brigar pelo direito do advogado. E em Friburgo, também é chapa única.

CM: E Três Rios?

LB: Em Três Rios tem disputa, mas a advocacia lá está bem servida.

CM: O interior sofreu muito com a pandemia e a OAB foi salvadora, não?

LB: Sim, foi. No interior, o principal é a qualidade da infraestrutura de internet. A gente precisa, e foi muito importante esse leilão do 5G. Eu vou dar um exemplo, no jogo do Flamengo desta semana, no Campeonato Brasileiro, pela internet, e não consegui ver o jogo. A internet estava tão ruim que o jogo ficava parando.

CM: Por que a eleição logo depois do feriado?

LB: É uma tradição no Rio ser na segunda quinzena de novembro e no primeiro dia útil. Então, se você for pegar, em todas as eleições, foram sempre no primeiro dia útil da segunda quinzena.

CM: Eu queria finalizar com a sua despedida, mas, sobretudo, com sua mensagem aos eleitores.

LB: Eu queria dizer para os eleitores que, no dia 16, eu conto com o apoio de cada um. Quero que vocês votem e se dirijam às urnas e permitam que a gente continue fazendo este trabalho de construção de uma OAB forte, unida, ampliando essa rede de proteção a advocacia, de estrutura, de escritórios e de qualidade. Eu peço a cada um de vocês que no dia 16 votem na chapa 1, OAB Forte e Unida.

CM: Uma honra recebê-lo, eu sou testemunha do trabalho que você faz e é muito importante a continuidade deste trabalho ainda mais em um processo de pacificação no Rio e a OAB precisa ser forte. E você está conseguindo isso. Eu digo que esses mandatos com uma única eleição é um mandato de seis anos, com uma revisão no meio. Muito obrigado Luciano Bandeira por essa entrevista.