Política de Witzel deixa em risco a Segurança do Estado do Rio

Por Marcelo Dutra, especial para o Correio da Manhã

O Estado do Rio corre sérios riscos na área de Segurança Pública, de acordo com especialistas no tema, devido à disputa política entre o governador Wilson Witzel (PSC) e o governo federal. O alerta foi dado após o governante fazer duras críticas à atuação da Polícia Federal (PF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) por meio de sua conta no Twitter, há uma semana, assim que duas toneladas de maconha foram apreendidas no Rio pela Polícia Civil. 

O governador chegou a escrever que entraria “...com ação no STF cobrando o ressarcimento do custo do Estado para fazer frente ao tráfico de armas e drogas, atribuição da União...”. O ataque às instituições federais e até ao Procurador Geral da União (PGR), Augusto Aras (vide box ao lado), é o mais recente capítulo da cisão política entre Witzel e o governo do presidente Jair Bolsonaro, e promete trazer prejuízos à sociedade fluminense, como ocorreu em governos anteriores.

O assunto é tratado com extrema cautela pelo Ministério da Justiça, responsável pela atuação da PF e da PRF. Por meio de sua assessoria de imprensa, o ministro Sérgio Moro disse ao repórter do CORREIO DA MANHÃ que prefere não comentar o caso, amplamente debatido nas redes. - Isso já ocorreu outras vezes e foi péssimo. No governo Garotinho, por exemplo, a guerra política entre o governador e a União fazia com que o dinheiro não chegasse à ponta, ou seja, havia muita dificuldade para a realização das ações policiais por falta de recursos – lembra o antropólogo e pesquisador da Uerj, o coronel da PM Robson Rodrigues. Para quem esteve durante quase três décadas na linha de frente da Segurança no estado, a ameaça é grave: - É fundamental que as forças que atuam na área de segurança trabalhem juntas, coesas, com o objetivo maior, uma vez que o desafio de vencer a criminalidade é imenso. O planejamento nessa área de proteção do cidadão, garantido pela Constituição, não pode ser maior do que a vaidade deste ou daquele governante - alerta Robson.

Para o sociólogo Ignácio Cano, um dos coordenadores do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da Uerj, é uma tradição no Brasil culpar o governo federal pela situação de segurança, em função do tráfico de drogas e armas e, dessa forma, os governadores que têm a principal responsabilidade fogem da sua própria obrigação:

- É uma tradição, ainda mais em ano eleitoral como este. As manifestações do governador se inscrevem nesse cenário de tentar dar visibilidade ao trabalho dele e de desgastar o governo federal o qual ele está claramente enfrentando - afirma Cano. - É uma piada ridícula Witzel dizer que vai pedir ressarcimento nos tribunais pelo trabalho das polícias federais. Isso não tem nenhuma base política nem jurídica. É mais um elemento folclórico desse governador.

O especialista também critica cortes na polícia.

- O Estado do Rio não tem moral para falar de sucateamento de polícia nenhuma no mundo. Historicamente o Estado suspendeu pagamentos de premiações, suspendeu pagamento de salários em alguns momentos. Enfim, todos sabemos das limitações das Forças de Segurança no Rio. As polícias federais, em geral, contam com mais condições de realizarem seu trabalho – afirma Cano.

Perigo à vista

A antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, professora do Departamento de Segurança Pública da UFF, é mais dura. Para ela, que tem 20 anos de doutorado na área de polícia, a politização da segurança pública pelos governos é inevitável e se, partidarizada e eleitoreira, torna-se tão perigosa quanto a aparente despolitização.

- A polícia é a política do governante em armas. Daí ser necessário cobrar um plano de segurança pública de fato conhecido e público à população. Bolsonaro e Witzel se elegeram com discursos de ultra-direita, espera-se que coloquem no papel seu plano de ação com orçamento, metas e resultados previstos para quarto anos. E parem de promover o terror e o medo que, no limite, vão assombrar em breve os seus palácios – alerta a antropóloga.

Renato Sergio de Lima, professor do Departamento de Gestão Pública da FGV e diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que a politização da segurança pública é muito perigosa.

- Na medida em que a segurança pública brasileira está assentada em um modelo/arranjo institucional frágil, que antagoniza instituições e não promove diálogo e coordenação entre elas, a politização é sempre uma constante e variável central na agenda da área. A segurança fica no terreno da ideologia e não nos das evidências, favorecendo projetos eleitorais que, muitas vezes, não guardam relação com as reais necessidades da população. Isso é perigoso – encerra Renato Sergio.

Intervenção

O deputado Felippe Poubel não poupou críticas ao governador e diz que, boa parte dos resultados comemorados por Witzel ainda são fruto da intervenção militar de 2018.

- O governador quer desviar foco de tudo que é maléfico no governo estadual. Não só impeachment, mas uso indiscriminado de helicópteros, por exemplo. Ele foi o governador que mais usou no primeiro ano de mandato, acusado de caixa dois na campanha, de montar bunker para produzir dossiê contra deputados. Criticar a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal é covardia, pois nunca houve tantas prisões e apreensões de armas e drogas como acontece no governo Bolsonaro. As principais aquisições na segurança pública no Estado do Rio ainda são frutos dos recursos deixados pela intervenção federal. Witzel se elegeu copiando Bolsonaro, tenta copiar em tudo, mas na verdade é um traidor. Tenho certeza de que esse governo Witzel vai de mal a pior e não termina mandato porque vai sofrer impeachment - afirma Poubel.