Witzel mentiu em rede nacional

Governador negou na CNN Brasil negócios com Tristão que contavam na sua declaração de 2018

Por Cláudio Magnavita*

No dia 13 de fevereiro, o Correio da Manhã publicou editorial com o título “Siga o Dinheiro”. Falava da origem dos R$ 215 mil doados pelo próprio candidato a sua campanha, e que teve origem no escritório de advocacia de Lucas Tristão.

A Folha de S Paulo confirma nesta sexta, 29 de maio, o recebimento de R$ 284 mil do escritório do seu super secretário, ex-aluno e agora comprovadamente mantenedor.

No mesmo período, segundo a Folha, a firma de Tristão recebeu R$ 225 mil de empresas do Mário Peixoto, fechando o ciclo que o Correio da Manhã apontou em reportagens.

Questionado esta semana na CNN Brasil pelo jornalista Fernando Molica sobre a sua sociedade com Tristão, Witzel negou ter tido qualquer relação comercial com seu secretário.

A Folha comprova agora que o Governador mentiu ao vivo na televisão ao esconder o seu relacionamento com o Secretário, que passou a controlar agora a Casa Civil e a Secretaria da Fazenda, duas pastas que tinham o seu acesso barrado pelos antigos titulares.

O Ministério Público Federal está preocupado com as mudanças ocorridas na calada da noite desta quinta e com os super poderes outorgados a Tristão, pela possibilidade de poder ocorrer a ocultação de provas e mudanças em documentos que comprometeriam não apenas ao secretário, como ao próprio Governador.

Como o Correio da Manhã alertou, foi só seguir o dinheiro para encontrar o quadro real da origem do seu aporte na campanha.

Leiam a seguir na íntegra o que o Correio publicou nomeia 13 de fevereiro e o que a Folha publicou nesta sexta :

Editorial 13/02/2020 - Siga o dinheiro...

O advogado Lucas Tristão se transformou na pedra do sapato do governador Wilson Witzel e abriu frentes de atritos por um amadorismo político inimaginável. Conseguiu colocar a Assembleia Legislativa em pé de guerra contra o governo ao revelar um esquema de arapongas bisbilhotando a vida dos 70 parlamentares.

O mais grave porém é o ilícito de Tristão ter virado secretário e continuar como sócio de uma firma de advocacia, fato denunciado pelo CORREIO DA MANHÃ e confirmado por ele.

Denúncia aponta também que o outro sócio da firma de direito tributário é Carlos Augusto Jeniér, atual diretor substituto de assuntos jurídicos da Caixa Econômica no Governo Bolsonaro e que entrou na sociedade quando ainda era conselheiro titular do Carf. Em surto amnético Tristão afirmou que desconhecia a sua própria tentativa de também virar conselheiro.

O caso fica mais grave quando atinge o próprio governador. Para justificar o auto-aporte de R$ 222 mil na sua campanha, Witzel afirmou que o valor tinha origem de “Luvas recebidas” para entrar como sócio de um escritório do Rio e um outro no Espírito Santo. No do Rio, a sociedade efetivamente ocorreu, mas não houve luvas e os pagamentos ocorreram, mas só depois da saída da sociedade como consequência da eleição. Este fato deixa para o escritório do Espírito Santo a fonte do recurso e esta sociedade seria exatamente com Tristão, como publicado na imprensa e nunca desmentido.

Esta possível relação financeira entre Tristão e Witzel precisa ser esclarecida. Na época, o candidato a governador que declarou ao TSE ter a conta bancaria zerada e magicamente surgiram R$ 222 mil de depósitos para a campanha, antes dos aportes do escritório carioca. Se o esquema de arapongas do estado tivesse focado no Tristão, ele já teria sido ejetado da cadeira.

https://www.jornalcorreiodamanha.com.br/rio/1205-editorial-siga-o-dinheiro

Folha de S Paulo - 29/05/2020


Witzel recebeu R$ 284 mil de escritório investigado em ano de eleição, e governador muda versão

Pagamento em 2018 consta na declaração de Imposto de Renda do governador, em análise pela Procuradoria-Geral da República, no âmbito da Operação Placebo.

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

O governador Wilson Witzel (PSC-RJ) recebeu no ano em que foi eleito R$ 284 mil do escritório de advocacia de Lucas Tristão, seu atual secretário de Desenvolvimento Econômico.

Esse pagamento a Witzel em 2018 consta na declaração de Imposto de Renda do governador, em análise pela Procuradoria-Geral da República, no âmbito da Operação Placebo. A banca do secretário recebeu no mesmo período R$ 225 mil de firmas do empresário Mário Peixoto, segundo a investigação.

O dinheiro repassado a Witzel pelo escritório de Tristão, à época coordenador de sua campanha eleitoral, foi uma das justificativas usadas pelo então candidato para explicar como doou R$ 215 mil de recursos próprios para sua campanha mesmo tendo declarado à Justiça Eleitoral não ter dinheiro em conta.

O valor doado correspondia a mais da metade do patrimônio declarado, de R$ 400 mil, composto apenas por uma casa até hoje não vendida.

Quando questionado sobre a origem dos recursos, sua assessoria respondeu que “Witzel presta consultoria jurídica e recebeu, além de honorários, luvas [pagamento pela entrada numa sociedade] para ingressar em dois escritórios de advocacia, um no Rio de Janeiro e outro no Espírito Santo”.

Em entrevista à Folha durante a campanha, Witzel afirmou que um dos escritórios a que se associou era o de Tristão. Ele inclusive disse que auxiliou o advogado na análise da defesa da Atrio Rio, uma das empresas da família de Peixoto, numa ação contra a Secretaria de Educação do estado.

“Ele [Tristão] me apresentou a petição para que eu analisasse, se estava adequada. Entendi que estava e que haveria possibilidade de sucesso”, afirmou Witzel na ocasião.

Em entrevista à CNN Brasil na última quarta-feira (27), Witzel negou que tenha sido sócio de Tristão.

“Nunca fui sócio do Lucas Tristão. O único escritório em que fui sócio foi do Medina Osório [Advogados], ex-ministro da AGU [Advocacia-Geral da União]. Agora, o Lucas foi meu aluno. Em várias oportunidades ele vinha conversar comigo sobre processos que não estavam na minha jurisdição”, disse Witzel.

Os registros da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Espírito Santo mostram que o escritório de Tristão não teve mudança societária durante a campanha.

O relacionamento entre Tristão e Peixoto também foi evidenciado por interceptação telefônica feita pela Polícia Federal com autorização judicial. O filho de Mário, Vinicius Peixoto, contou para sua mãe que o secretário furou a quarentena em abril deste ano para visitar o empresário em casa.

Witzel foi alvo da Operação Placebo, que apura suspeitas sobre o contrato para construção de um hospital de campanha contra o coronavírus e na relação de Witzel e seu entorno com um empresário investigado desde a gestão Sérgio Cabral (MDB).

Uma das investigadas é a primeira-dama, a advogada Helena Witzel, que firmou contrato com a DPAD Serviços Diagnósticos. A empresa é ligada, segundo a Procuradoria, ao empresário Mário Peixoto, preso na Operação Favorito, deflagrada há duas semanas.

O contrato previa o pagamento de 36 parcelas mensais de R$ 15 mil por serviços advocatícios. Os pagamentos se iniciaram em agosto de 2019, segundo comprovantes obtidos pela investigação. Há a suspeita de que o repasse seja uma propina paga ao governador, por meio de um contrato fraudulento.

Witzel disse que o valor foi "fruto de trabalho jurídico, muito antes de ele ser governador". "O valor foi recebido e devidamente declarado no Imposto de Renda, sendo fruto de trabalho jurídico, muito antes de ser governador", disse Witzel, em nota.

Ele não explicou, porém, porque declarou durante a eleição ser sócio de Tristão e ter usado a entrada no escritório como justificativa para a doação de recursos próprios para sua campanha.

"O valor doado por Wilson Witzel à sua própria campanha é fruto de honorários que ele recebeu como advogado e a doação está dentro do previsto na legislação eleitoral. As contas da campanha foram aprovadas por unanimidade no TRE-RJ. Wilson Witzel nunca foi sócio de Lucas Tristão e jamais advogou para empresas de Mário Peixoto", diz a nota do governador.

O secretário de Desenvolvimento Econômico não comentou o caso. O advogado Alexandre Lopes, que defende Peixoto, disse que não existe relação ilícita entre o empresário e o governador.

“Qualquer acusação neste sentido é absolutamente descabida e irreal. Questões políticas não se misturam com questões jurídicas. Investigações policiais devem ter como norte a imparcialidade. Nenhuma empresa vinculada a Mário Peixoto contratou com o Governo do Estado, na área de saúde, durante a epidemia de Covid-19”, disse o advogado. (...) (Folha de S. Paulo)

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*Cláudio Magnavita é diretor de redação do jornal Correio da Manhã