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Secretário de Comunicação da prefeitura tem despertado queixas dos colegas da imprensa

Por Cláudio Magnavita, Nelson Vasconcelos, Affonso Nunes e Barros Miranda

Secretários de Comunicação da Prefeitura do Rio não costumam dar entrevistas. Mas abrir espaço para Daniel Pereira, que está à frente da pasta desde o início do mandato de Marcelo Crivella, em 2017, é inevitável. Jornalista há 20 anos e músico “desde sempre”, Pereira tornou-se uma espécie de pitbull do prefeito, conhecido pelo seu temperamento calmo. No entanto, como imprensa e prefeito frequentemente entram em atrito, Pereira tem sido notado pelo estilo um tanto explosivo no trato com seus colegas de ofício. Há algumas semanas, decidiu barrar a entrada de jornalistas da Infoglobo, que edita os jornais “O Globo” e “Extra”, entre outros, por não concordar com a cobertura dos veículos a respeito da prefeitura. “Fiz isso porque eles não estão fazendo jornalismo”, disse Pereira, que acabou sendo advertido pela Justiça. A imprensa, afinal, tem que ser livre. Nesta entrevista, Pereira conta por que anda em pé de guerra com jornalistas em geral.

CORREIO DA MANHÃ: Conte um pouco sobre sua história e como chegou ao governo Crivella.

DANIEL PEREIRA: Sou jornalista, circulando em redações há 20 anos, além de passagens pela Secretaria de Segurança e pela Transpetro. Também sou compositor, já fiz uns 30 sambas de blocos e marchinhas. Em 2016, entrei na campanha do Crivella, ganhamos, e entrei como coordenador-geral de imprensa. Hoje estou secretário de Comunicação.

Chegou a fazer jingles...

Pois é. Fiz a primeira música para a campanha de rua. O pessoal gostou. No segundo turno fiz uma nova música, que tratava a questão da religião. Existia um preconceito muito grande com o Crivella por ele ser religioso. A forma que a gente imaginou de tratar isso foi com música, assumindo que de fato existia um evangélico ali. Foi então que entrei na vida da política.

Vocês estão mesmo vendo a possibilidade de reeleição?

Sim, desde o primeiro momento. Eu sou ateu. Mas o prefeito é muito religioso e sempre fala que quem planta colhe. Foram anos plantando muito. E foi muito difícil. Vou dar uma ideia de como a gestão Crivella recebeu o Rio: se a gente comparar os três últimos anos do último mandato do Eduardo (Paes, prefeito anterior) com os três primeiros do Crivella, a gente está falando de R$ 10 bilhões a menos de receita. Não é pouca coisa. A arrecadação diminui em três anos, proporcionalmente, R$ 10 bilhões. Some-se a isso R$ 6,8 bilhões de dívida olímpica. O que estou dizendo é: o Eduardo teve um sonho olímpico e deixou uma dívida de R$ 6,8 bilhões, em um cenário de R$ 10 bilhões a menos de arrecadação. Já é uma tragédia de cara. Mas some-se a isso um outro problema: 350 mil desempregados em 2016 e 2017. Esse cara tinha dinheiro para pagar um plano de saúde e uma escola particular para o filho.... e o que acontece com a rede pública com tanto desemprego? Inflou. Então, a gente tem muito mais demanda, com menos dinheiro e com uma dívida olímpica para pagar. Esse é o diagnóstico de como foi recebido o Rio. É evidente que seriam anos de muita dificuldade. E como a gente consegue mostrar toda essa dificuldade que estava passando, se a gente não tem espaço na imprensa? A questão, ao meu ver, é um preconceito claro por ele ser evangélico e, supostamente, representar a Record. Seja como for, a gente nunca teve espaço para contar essa história.

Redes sociais não estão quebrando essa concentração e influência da mídia?

O jogo está em mudança. A sociedade muda e a comunicação está mudando também. Não dá para negar que isso (a concentração) é muito forte. Mas, quando chega em época de eleição, você tem, por lei, um espaço para ser pronunciar. É o que está me dando essa confiança na reeleição. Vamos contar que o cara (Crivella) comprou uma das maiores brigas que poderia comprar pela sociedade, que foi o caso da Linha Amarela. A concessionária recebe, por dia, R$ 1 milhão, sendo que R$ 15 é o pedágio mais caro do mundo dentro de uma cidade...

Durante a gestão Crivella, houve sempre a polêmica em relação a subsidiar o carnaval. O CORREIO defende que está na hora de acabar com essa dependência do poder público.
Será mesmo que a população não concorda com o corte de subsídios do carnaval? Na enquete da “Veja”, 90% concordaram com o Crivella em tirar dinheiro do carnaval. No “Globo”, 80% concordaram. Então, como dizer que o povo não concorda? O que de fato ocorria até a gestão Crivella é que o carnaval custava R$ 70 milhões aos cofres públicos. Eram R$ 2 milhões para cada escola, mais a infraestrutura, o custo era de R$ 70 milhões. O governo, a cidade do Rio, a Prefeitura ganham alguma coisa com o carnaval? Não.

Tem a vinda de turistas, com a cidade bem cheia...

O setor de turismo, sim. Agora, R$ 70 milhões são o custo da infraestrutura. Quanto ganha a Rede Globo para transmitir os desfiles? R$ 240 milhões são as cotas que a Rede Globo ganha para acontecer aquela festa. Quanto ganha a Liesa? Mais de R$ 100 milhões com os ingressos. Então, calma aí. O que estou querendo dizer é o seguinte: a Liesa ganha R$ 100 milhões, a Globo ganha R$ 240 milhões e quem paga a conta de R$ 70 milhões é o povo. Sendo que lá não é um lugar em que o povo entra. Um camarote na Sapucaí hoje custa R$ 3 mil. É uma coisa genuinamente para o povo? Não. Qual foi a linha que o Crivella adotou? Vão falar que é preconceito, mas não, é questão de lógica. Este ano, o carnaval da Intendente Magalhães, que é de graça, ganhou R$ 3 milhões. Nos blocos, tem Comlurb, tem Rio-Luz, tem guarda municipal, mas, nos lugares em que são pagos, não tem cabimento a gente colocar dinheiro público. É claro que, a despeito da vontade individual de grupos de comunicação, enfim, o que vão dizer: “Está mexendo no meu bolso aqui”. Então vão falar que ele está fazendo isso porque é crente.

Houve interlocução com as escolas sobre essa questão?

Crivella chamou as escolas, e a explicação foi a seguinte: o Eduardo tinha dado R$ 2 milhões no último ano dele. O Crivella chegou e disse que não tinha como dar R$ 2 milhões. Em 2015, a subvenção que o Eduardo deu foi de R$ 1 milhão. Em 2016, último ano dele, ele dá R$ 2 milhões. Olha o peso que ele passa para o sucessor. Crivella chega e fala o seguinte: “Este ano vou dar R$ 1 milhão e depois vou começar a diminuir até vocês terem as próprias pernas”. Ele usa uma expressão muito boa: “O carnaval é aquele bebê parrudo, que já está com as perninhas grossas, que tem que andar sozinho, como qualquer festa privada”. Veja se o Rock in Rio vai bater lá e pedir R$ 70 milhões para fazer a festa. Só para terminar, ele explicou: “Este ano eu vou dar tanto. Ano que vem eu vou dar menos e vai ser assim sabe por quê? Porque cada aluno das creches conveniadas da Prefeitura recebia R$ 350 per capita. Isso para tudo: merenda, uniforme. Em São Paulo eram R$ 650; em Minas, R$ 650. O que estou querendo dizer é que vou diminuir aqui, mas vou aumentar lá. Sempre que vocês desfilarem vão saber que, por trás disso que a gente está fazendo, estamos ajudando as crianças”. Essa foi a história e isso foi feito. Hoje, vai a R$ 650 e, em alguns casos, são R$ 850 per capita. Pode perguntar ao pessoal que administra essas creches. Essa é a história. A Prefeitura pagava para a iniciativa privada ter lucro, e isso não pode. Agora, quem é que vai ficar feliz, sabendo que está perdendo dinheiro? A narrativa é de que ele está fazendo isso porque é evangélico.

Esse preconceito persiste?

Pelas pesquisas que a gente tem, a gente percebe que sociedade, de modo geral, foi na direção do evangélico. Hoje você vê todos os candidatos buscando o voto evangélico ou atrás de um vice que seja evangélico.

O que leva um jornalista tarimbado a proibir colegas ou veículos de acessar as coletivas?

Quando teve a proibição, vieram me perguntar lá do “Globo”: “Por que você nos proibiu de entrar na coletiva?”. Respondi: porque a coletiva era de imprensa. Isso que eles estão fazendo lá, e falo com todas as letras para quem quiser ouvir, não é jornalismo. Eles mentem descaradamente porque não estão recebendo dinheiro. A gente está falando de R$ 150 milhões que o Grupo Globo ganhou no governo Eduardo. Com a gente não tem negócio. Não vamos abrir mão disso, não vamos pagar para eles falarem bem. É isso que justifica.

Nessa briga com a imprensa, não pesa o fato de Crivella ser sobrinho do Edir Macedo, da concorrente Record?

É um componente de pólvora mais para eles do que para a gente. Estamos aqui para fazer gestão e não para discutir caminho de comunicação ou se o prefeito é crente, se não é. Isso não importa para a Band, por exemplo.

Nestes quatro anos já deu para diluir o impacto da gestão do Eduardo Paes? Como vai ser a futura administração, se o Crivella for reeleito?

O Crivella nunca creditou ao Eduardo todos os problemas dele. É claro que teve uma irresponsabilidade olímpica de se gastar tanto dinheiro. Falaram na época que não tinha dinheiro público, e teve. Muita gente quis negar que essa dívida existia. Agora, por exemplo, a gente deixou de pagar uma parcela do BNDES e teve conta bloqueada. Então, o que o BNDES está cobrando se a dívida não existe? Existiu uma irresponsabilidade olímpica que deixou uma dívida muito grande. Mas o Crivella, nem de longe, vai colocar no Eduardo todas as culpas dos problemas do Rio, que são históricos.