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Por Pedro Sobreiro

Motivo de fascínio dos navegadores portugueses, a Baía de Guanabara agoniza aos poucos e pede socorro. Descrita pelo Padre Fernão Cardim, próximo ao fim do século XVI, como “uma baía que bem parece que a pintou o supremo arquiteto do mundo, Deus Nosso Senhor”, a Guanabara está bem longe das águas límpidas e repletas de vida de 500 anos atrás.

De acordo com uma pesquisa do Movimento Baía Viva, a poluição da baía causa cerca de R$ 50 bilhões de prejuízo anual.

A situação fica ainda mais complicada porque fora o lixo industrial e os problemas de saneamento, a Baía de Guanabara é assolada pelo despejo de lixo flutuante, que consiste em peças de plástico, como sacolas e garrafas pet. Fora estruturas de sofás e eletrodomésticos erroneamente descartados nas águas. Esse lixo flutuante é confundido com alimento pela vida marinha.

- Nós temos algumas espécies ameaçadas de extinção, como a tartaruga verde e o boto cinza, que é símbolo da cidade do Rio de Janeiro, e está até no brasão da cidade. As espécies marinhas acabam comendo esse lixo - alerta o ambientalista Sérgio Ricardo, do Movimento Baía Viva.

Despejo diário

De acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a Baía recebe diariamente 90 toneladas de lixo, que é transportado por rios, canais e valões. Eles acabam se concentrando principalmente nas ilhas do Fundão, do Governador e de Paquetá, nas suas orlas, praias e áreas de manguezal.

- Os manguezais têm uma importância muito grande na biodiversidade, porque eles são berçários naturais de diversas espécies. Lá é produzido todo o alimento do peixe, camarão, pro caranguejo. Então, se os manguezais estão poluídos por lixo, isso afeta diretamente a produtividade pesqueira - completa Sérgio.

Além de desempenharem papel fundamental contra o aquecimento global, já que eles sugam muito carbono do ar enquanto realizam sua respiração. Sem contar que eles impedem a erosão sedimentar de encostas.

Estima-se que cerca de 200 famílias sustentadas pela pesca artesanal sejam diretamente afetadas por essa poluição.

Isso é apenas um dos diversos problemas econômicos que envolvem a Baía de Guanabara. O principal são as carências em saneamento básico e coleta seletiva no entorno das águas. Os moradores da região não vão deixar de ir ao banheiro por conta do péssimo trabalho governamental na região, então a Baía recebe vários litros de esgoto não tratado diariamente. O governo deveria investir urgentemente no saneamento e na coleta de lixo, porque só traria vantagens.

- Além dos problemas de saúde pública e dos impactos ambientais, nós temos uma grande perda econômica, porque a reciclagem desse lixo urbano poderia estar gerando emprego e ajudando a melhorar as condições do meio ambiente - afirma o ambientalista.

Usufruindo desses dois serviços básicos para viver, as comunidades teriam melhorias absurdas na qualidade de vida, chegando até mesmo a reduzir os números de doenças em crianças e adultos.

- Nós temos problema com saneamento básico, sendo que dois programas estão paralisados desde 2016 - afirma Sérgio Ricardo, referindo-se ao programa de despoluição da Baía de Guanabara, iniciado em 1995, e também ao Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios, que foi um novo financiamento do governo do estado para cumprir a promessa Olímpica de despoluir 80% da Baía de Guanabara. 

- Nós tivemos uma Olimpíada sem um legado ambiental para a cidade do Rio de Janeiro - conclui.

Visando não só reduzir o plástico na Baía de Guanabara, mas conscientizar o povo do entorno a não descartar lixo na água, o Projeto Mar Sem Lixo, em parceria com a UFRJ e o Movimento Baía Viva, vai realizar de 19 a 21 de março, no setor de Educação Física da UFRJ, na Ilha do Fundão, o evento “Guanabara Vive - Mutirão do Plástico”. 

O Mutirão será o primeiro de dois eventos para conscientizar os moradores. Esse primeiro evento trará exibições de filmes, atividades culturais e o mutirão de limpeza. Seu foco será mais nos habitantes da Ilha do Fundão. O segundo evento será realizado em 5 de junho, em homenagem à Semana do Meio Ambiente, e abrangerá toda a região da Baía de Guanabara.