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Por Francesca Angiolillo e Úrsula Passos/ Folhapress

Ao passar pelo portão de entrada do museu Casa do Pontal, onde um aviso informa que as visitações estão suspensas, já é possível notar que alguma coisa não vai bem. O caminho coberto por pedrinhas até a casa está cheio de lama e, em alguns pontos, há buracos enormes.

Nos fundos do terreno, um funcionário retirava papelão encharcado por uma porta de madeira talhada com motivos de animais; outros dois, com enormes rodos, puxam água pela porta de saída. Cadeiras e pufes secam ao sol.

Esse era o cenário na três dias depois de o museu no Recreio dos Bandeirantes, que abriga o mais importante acervo de arte popular do país, sofrer a maior inundação de sua história, no dia 1º de março.

Nas paredes das salas de exposição, ficaram as marcas de até onde a água chegou. Em alguns pontos, elas estão a cerca de meio metro do chão; em outros, chegam a quase um metro.

Os funcionários ainda terminavam de limpar o piso e as paredes e tentavam estimar o que precisaria ser feito. Talvez, segundo um deles, pintar as paredes não bastasse e fosse necessário trocar algumas placas de madeira.

Quando a chuva começou a ficar mais forte, os funcionários se adiantaram, subindo as peças dos lugares mais baixos das vitrines para os mais altos, onde a água não chegaria.

Peças maiores apoiadas no chão ou em pequenos pedestais foram levadas para o andar de cima do museu. A água passou a entrar com mais força à tarde, depois que o canal ao lado da casa transbordou.

Segundo Lucas van de Beuque, diretor-presidente do museu, ainda que nada tenha sido perdido, as inundações põem em risco um acervo composto em sua maior parte por obras feitas de material sensível, como madeira, barro, nem sempre com cozimento, e papel machê -peças que não podem ser molhadas nem sofrer grande variação de umidade.

A Casa do Pontal foi criada nos anos 1970 por Jacques van de Beuque, designer francês que por 40 anos construiu uma coleção de itens de arte popular.

Em 2011, teve início a construção de um mega-condomínio nos fundos do terreno do museu -hoje de uso residencial, o conjunto de prédios antes seria destinado a receber pessoal vindo para a Olimpíada de 2016.

O condomínio foi erguido sobre um aterro, justamente por se tratar de uma região alagadiça. Com isso, porém, o museu ficou um metro e meio abaixo das novas ruas, o que o expôs às enchentes recorrentes.

Reconhecendo a responsabilidade pelo problema, a prefeitura doou, há quatro anos, um terreno na Barra da Tijuca para a construção de uma nova sede.

As obras tiveram início em junho daquele ano, tocadas pela Calper, a título de pagamento de uma dívida da construtora com o município.

Os trabalhos foram orçados em R$ 11 milhões, dos quais R$ 7,5 milhões representariam o pagamento da dívida da Calper ao município, e R$ 3,5 milhões viriam do museu.

Em abril de 2017, contudo, as obras foram interrompidas após pedido de recuperação judicial da construtora, que ficou devendo quase R$ 2 milhões de sua parte na obra.

A construção da nova sede ficou parada até janeiro deste ano, quando Lucas van de Beuque e o museu cansaram de esperar uma decisão da prefeitura quanto ao acordo e, com dinheiro levantado entre empresas e pessoas físicas, retomaram os trabalhos.

Em seu site, o museu tem uma campanha de financiamento coletivo (museucasadopontal.com.br/salveomuseu). O objetivo é arrecadar R$ 3,5 milhões até o fim de março. Os fundos cobririam o que a prefeitura não pagou e também os acréscimos que a obra teve graças à paralisação –cerca de R$ 1 milhão.

Procuradas, as secretarias de Infraestrutura e a de Urbanismo disseram que o caso da verba para a nova sede do museu não lhes compete. A assessoria da prefeitura encaminhou as perguntas da reportagem à Secretaria Municipal de Cultura, que não respondeu até a conclusão desta edição.

Nas obras da nova sede, já é possível ver as paredes e as escadas que levam aos diferentes andares; no momento está sendo feita a cobertura.
Se, na sede atual, é como se uma floresta tropical envolvesse o visitante, na nova, em meio a área ainda livre de prédios na Barra da Tijuca, é possível ver a pedra da Gávea.

A visada da pedra é uma dos aspectos valorizados pelo escritório mineiro Arquitetos Associados, de modo a "trazer a ambiência" que o museu original tem, nas palavras de Paula Zasnicoff, uma das responsáveis pelo projeto.

Para os arquitetos -experientes em áreas expositivas, sendo responsáveis, por exemplo, pelas galerias de Miguel Rio Branco e Claudia Andujar no Instituto Inhotim-, o novo terreno foi como "uma folha em branco", sem "a preexistência muito incrível" do espaço original, que além do luxuriante jardim, carrega a história da formação da coleção por Jacques van de Beuque.

O escritório pensou, então, numa espécie de praça de acolhimento de grandes dimensões, que tivesse vegetação e água. O projeto desse recinto ficou a cargo do escritório de Burle Marx.

Mas, embora tenha sido definitivo para a concepção da nova sede, o grande jardim da entrada não poderá por ora ser realizado. O prédio tampouco poderá ocupar toda a extensão prevista no projeto.

"O museu teve que repensar essas demandas; essa estratégia garantia a permanência do acervo", diz Zasnicoff.

A arquiteta afirma que essas adaptações, bem como um futuro crescimento do espaço, são favorecidas pela lógica modular que orienta o projeto. Nele, as áreas de exposição se alternam com espaços vazios, formando jardins internos que "trazem luz e qualidade espacial" para as salas.

"Claro que a situação ideal seria construir tudo junto", diz a arquiteta, mas o fundamental, acrescenta, é "aproveitar esse momento que é muito triste para essa necessidade de resgatar e manter a coleção".

A expectativa de Van de Beuque é que a obra acabe em julho deste ano, o que possibilitaria que o museu inaugurasse a nova sede em novembro.

Na Casa do Pontal, que recebe, em média, 4.000 visitantes por mês, as visitas devem ser retomadas na próxima semana, segundo o diretor do museu.

"Manter o museu aberto garante visibilidade", diz. Fechar o espaço enquanto a nova sede não fica pronta está fora de cogitação, segundo ele. "Ter mantido o acervo à vista, em exposição, com equipes monitorando as obras, foi o que nos permitiu não ter perdas."

A partir de 11 de março, uma amostra do rico acervo da instituição poderá ser vista no Sesc Santos, no litoral paulista. Organizada por Angela Mascelani, diretora da Casa do Pontal, a exposição "(Re)Inventar - Artistas Criadores", com mais de 200 obras de 33 artistas, ficará em cartaz até 26 de julho.