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Nos primeiros dias de janeiro, a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro foi surpreendida. Uma substância escura, de sabor intragável, começava a jorrar de suas torneiras. Outrora de qualidade, a água da Cedae, que já saciou a sede da cidade que sediou importantes partidas da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, tornou- -se fonte de doenças.

Comandada à época por Hélio Cabral, a Cedae demorou a admitir a gravidade da situação. O governador Wilson Witzel, em plano momento de crise, passava férias na Disney, provavelmente nos tomando pelo Pateta. A alegação oficial era a contaminação por uma alga denominada geosmina, mas o fato é que a companhia havia demitido ao longo de 2019 valorosos técnicos que faziam o controle de qualidade da água fornecida aos fluminenses.

O desmanche da Cedae foi antecipado na edição de 10 a 16 de janeiro do CORREIO DA MANHÃ. “Fato inédito há pelo menos 19 anos no Grande Rio, o episódio expôs o desmonte promovido pelo governo Wilson Witzel na companhia de saneamento, sob influência do Pastor Everaldo, presidente do PSC, partido do governador. Em março de 2019, 54 profissionais de nível superior, sendo 39 engenheiros responsáveis pela qualidade da água distribuída pela Cedae, foram exonerados. Todos com mais de duas décadas na empresa”, informa a reportagem.

O desmonte da companhia, moeda de garantia do Estado no programa de recuperação fiscal, foi executado fielmente pelo executivo Hélio Cabral, um engenheiro que nunca atuou na função e fora conselheiro da Samarco, protagonista de uma das maiores tragédias ambientais de nossa história recente: o estouro da barragem de Brumadinho (MG).

A escolha de Cabral, como boa parte das decisões de Witzel, teve influência direta do Pastor Everaldo. Cabral reformulou toda a diretoria. Antigo diretor financeiro da companhia, Cabral foi alvo de investigação interna por suspeita de beneficiar empresas de segurança sem licitação.

De volta das férias de brinquedo, Witzel precisou beber da água com gosto de terra. As medidas paliativas da Cedae foram demoradas e até hoje há quem perceba o sabor terroso numa substância que deveria, como ensinam os livros escolares, incolor, insalobra e inodora.

Nem mesmo o padrinhamento do Pastor Everaldo segurou Hélio Cabral no cargo. O executivo foi demitido. Dias depois, convocado para depor numa audiência da Assembleia Legislativa, saiu sem nada dizer sobre como lidou com o episódio. Mas uma coisa é certa: sua gestão ignorou a vela máxima de que “a regra é clara” e passou por cima de todos os procedimentos-padrão em caso de contaminação da água. Tudo isso faz parte do Plano de Contingência da Bacia do Guandu, uma vasto tutorial para lidar com crises dessa natureza. O descaso de Cabral foi denunciado em reportagem do CORREIO DA MANHÃ em sua edição de 28 de fevereiro a 5 de março.

O certo é que imagem da companhia ficou tão suja quanto a água por ela distribuída. A empresa, que obteve lucro de R$ 800 milhões em 2019, será privatizada no que depender de Witzel para quem os atuais problemas enfrentados pela Cedae inexistiriam sob gestão privada. A tese é pouco plausível visto que o Estado não está estruturado para fiscalizar a companhia. A Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico (Agenersa) emitiu multas praticamente simbólicas e sua atual composição não é de técnicos, mas de apadrinhados políticos.

Uma dessas indicações, aliás, causou mais constrangimentos ao chefe do executivo estadual. Witzel indicou para o cargo Bernardo Sarreta, um ex-sócio de Lucas Tristão (secretário de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais). Seu despreparo para ocupar o cargo ficou evidente durante sabatina realizada por deputados na Asselmbleia Legislativa e Witzel, humilhado, retirou a indicação.