Por Claudia Collucci (FOLHAPRESS)

 A epidemia de zika no Brasil e o nascimento de milhares de bebês com microcefalia ajudaram a melhorar a notificação de outros defeitos congênitos em recém-nascidos não relacionados à infecção pelo vírus.

Entre 2010 e 2017, as más-formações não associadas à zika passaram de 70 para 75 a cada grupo de 10 mil nascidos vivos no Brasil -um aumento de 7%. Na região Nordeste, que teve o maior número de casos de microcefalia, o crescimento foi de 16,4%.

A conclusão é de um estudo do Cidas (Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde) da Fiocruz Bahia que analisou a base de dados de nascidos vivos (Sinasc) nos períodos pré-zika (janeiro de 2010 a setembro de 2015) e pós-zika (setembro de 2015 a dezembro de 2017).

Em maio de 2015, o vírus da zika foi confirmado como a causa de doença parecida com a dengue e, em seguida, como o responsável por casos de microcefalia em bebês -foram 2.782 em 2015, contra uma média de 150 em anos anteriores.

A hipótese é de que, com a maior atenção dos profissionais de saúde e da sociedade em relação às más-formações ligadas à zika, como as cerebrais (microcefalia) e as oculares, outros defeitos congênitos que antes passavam despercebidos se tornaram mais evidentes e passaram a ser mais registrados nos sistemas.

As taxas de malformações de face e pescoço e do sistema circulatório, por exemplo, passaram de 6,5% e 7,2% para 9,2% e 11,1%, respectivamente, entre 2010 e 2017. Nesse período, a idade materna e distribuição do sexo das crianças, fatores que poderiam trazer algum viés aos resultados, permaneceram similares.

Um das razões que explicam essa subnotificação é a má qualidade dos sistemas de informações, especialmente nas regiões mais pobres. Entre as anomalias subnotificadas estão a fissura labiopalatina e as más-formações dos sistemas circulatório e urinário.

"Aquelas imagens dos bebês com as cabecinhas pequenas causaram uma comoção social e uma cobrança aos profissionais de saúde, levando à melhoria na notificação de todas as anomalias congênitas. Muitas vezes, elas não eram notificadas mesmo quando o profissional observava que elas existiam", diz a epidemiologista Enny Paixão, uma das autoras do estudo da Fiocruz.

Segundo o pesquisador em saúde pública Moreno Rodrigues, também coautor do trabalho, as pessoas que atuam com sistemas de informação sabem que existe uma parcela de subnotificação nos dados.

"São várias situações que levam a isso, desde anomalias que não são muito evidentes até como a informação é coletada e transmitida para a central de dados. Essa perda pode ocorrer em várias etapas."

O trabalho, publicado na revista científica Plos Neglected Tropical Diseases, mostra que, após o ponto de corte (que divide o período pré e pós-zika), houve aumento nas notificações tanto das anomalias congênitas relacionadas ao zika como de outras. Isso ocorreu em todas as regiões do país, exceto o Sul, mas de forma mais evidente no Nordeste.

Com o fim da epidemia, os defeitos de cérebro e olhos relacionados ao zika diminuíram, enquanto os do outro grupo apresentaram um aumento mensal lento, mas significativo em relação à era pré-zika -em média, de 0,2 por 10 mil nascidos vivos.

Na opinião de Paixão, além da comoção geral, outro fator que levou a um maior número de notificações foi o treinamento recebido pelos médicos brasileiros para o reconhecimento e registro de todos os defeitos congênitos.

A própria microcefalia causada por outros fatores que não o zika, como a rubéola, citomegalovírus, herpes, toxoplasmose e alguns estágios da sífilis, passou a ser mais notificada, segundo o geneticista Salmo Raskin. "Casos que antes não eram enxergados passaram a ser porque pensavam que tinham relação com o zika."

Para ele, o Brasil precisa aprimorar os serviços de vigilância epidemiológica. "Temos dados razoáveis, mas ainda há muita subnotificação de anomalias pelas maternidades. No entanto, depois o sistema falha muito no acompanhamento dessas crianças."

A notificação dos defeitos congênitos é importante porque, quanto antes forem registrados, mais rapidamente a criança pode ser encaminhada para tratamentos especializados que corrijam as anomalias, evitando complicações.

Um exemplo é a fissura labiopalatina, uma má-formação do lábio superior que pode atingir o céu da boca, deixando um buraco. Em 2017, 1.369 bebês nasceram com ela.

Sem tratamento, como a correção cirúrgica, o problema afeta a nutrição, a deglutição, a respiração e a fala da criança, segundo o cirurgião craniofacial, Cristiano Tonello, do Centrinho da USP de Bauru, instituição referência no tratamento dessas anomalias.

Tonello diz que outro impacto da subnotificação dos dados é que isso dificulta a cobrança de políticas públicas. "Se os casos não aparecem, não há recursos para ampliar diagnósticos e tratamentos."

Nas anomalias cardíacas, também existem muitos casos com indicação cirúrgica logo após o nascimento do bebê, o que demanda um diagnóstico precoce, segundo o cirurgião cardíaco Marcelo Jatene.

"Na transposição das grandes artérias [a aorta e a artéria pulmonar são invertidas], a cirurgia faz toda a diferença e precisa ser feita nos primeiros dias de vida." Caso isso não ocorra, a criança morre.