Por Gustavo Barreto

O incêndio no Hospital Badim, na Tijuca, no último dia 12, foi o mais recente episódio da lista de tragédias semelhantes que têm ocorrido na cidade (veja box mais abaixo). Desta vez, foram 12 mortes confirmadas por inalação de fumaça. Todas as vítimas, com idade acima de 60 anos, estavam internadas na unidade. Imagens das câmeras de segurança mostram claramente que, pelo menos durante oito minutos, não foi feito qualquer movimento para a retirada dos pacientes da área do incêndio. É um tempo precioso, que poderia ter sido aproveitado para salvar vidas, mas foi desperdiçado.

Foto: Celso Pupo/Fotoarena/Folhapress

Enquanto a Polícia investiga, fica na cabeça do carioca uma pergunta que está longe de ser respondida pelas autoridades: até quando vamos testemunhar casos semelhantes? Como se percebe, os procedimentos básicos de segurança não foram respeitados. Segundo Rafael Pironi, coordenador de projetos da Fire Protec, empresa especializada em engenharia de segurança contra incêndio, ainda há muito a ser investigado no caso do Badim. Mas alguns pontos de preocupação já vieram à tona: 

– Acompanhei um pouco da perícia e existe evidência de que eles não tinham dois sistemas exigidos para o hospital: controle de fumaça e elevador de emergência. Para sabermos quais os sistemas exigidos para o hospital, teríamos que ter informações sobre qual a área construída e qual a altura do prédio. Contudo, o básico neste caso seria uma equipe de brigadistas bem treinada e um bom plano de abandono.

Esse plano para evacuação rápida prevê simulados periódicos que envolvem não somente os brigadistas e funcionários do hospital, além dos agentes públicos: corpo de bombeiros, guarda municipal, etc. Há suspeitas de que as equipes não estavam treinadas.

– Mas vi notícias dizendo que funcionários teriam deixado pacientes para trás – diz o consultor, lembrando que os bombeiros são responsáveis para aprovar os equipamentos de segurança, inclusive os geradores.

Segundo o consultor da Fire Protec, após a aprovação do sistema de segurança por parte dos bombeiros, cabe ao proprietário a sua manutenção regular.

A polícia informou que, no subsolo do hospital, havia quatro tanques com capacidade para 250 litros de diesel cada um, além do gerador. Há indícios de que não havia extintores no ambiente.

– A responsabilidade pela manutenção e revisão periódica do sistema é responsabilidade do proprietário ou responsável pelo uso da edificação. Mas o que nós vemos em todos os estados do país em que atuamos é a falta de uma cultura de combate contra incêndios, ou seja, quanto menos atuante o órgão de fiscalização, é menos provável que o responsável pelo prédio tome os cuidados necessários.

A situação é ainda mais delicada em hospitais como o Badim, com áreas de riscos variados, como cabines de energia, central de gases inflamáveis, cada de geradores. – Essas áreas requerem um tratamento especial e também específico, segundo suas características. Elas obviamente fazem parte daquilo que deve ser inspecionado pelo bombeiros antes da liberação da licença com certificados, o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros – afirma Rafael Pironi

Consultado pelo “Correio da Manhã”, o Corpo de Bombeiros não forneceu informações mais detalhadas sobre o caso até o fechamento desta edição. O Badim informou que está aguardando laudos periciais para se manifestar.

O incêndio teve início com um curto-circuito no gerador, e dutos de ventilação dos geradores estavam conectados a outras áreas do hospital, facilitando a propagação da fumaça mortal.

Parceria com Rede D’Or pode melhorar Badim

As evidentes falhas de segurança na infraestrutura do Badim não devem ter sido bem observadas na recente parceria do hospital tijucano com a Rede D´Or. Considerada empresa do ano 2019 pela revista “Exame”, ano passado a empresa fechou 2018 com uma receita de US$ 1,96 bilhão. Foi um crescimento considerável desde 2009, quando o faturamento ficou em US$ 126,5 milhões. No mesmo período, o lucro líquido subiu de US$ 6,7 milhões para US$ 308 milhões.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O crescimento da Rede D´Or também se traduz na ostentação do número de funcionários. Em 2014 eram aproximadamente 22 mil, enquanto que o número de hospitais chegou a 45 no mesmo ano. Ou seja: o Badim tem como se recuperar do baque.

Ao ter dentre seus sócios a Rede D’Or São Luiz, o Hospital Badim ganhou notoriedade por sua enorme estrutura luxuosa, também identificado em seu site como “o mais moderno do Rio”. Com 15,7 mil m², o Badim contava com 128 leitos de internação, 11 leitos na Unidade Cardio Intensiva e 60 médicos.

O fortalecimento da Rede D’Or se intensificou em 2015, com a entrada de capital estrangeiro. Segundo o UOL, o grupo Carlyle (especializado em investimentos) comprou parte da Rede D’Or, que teve que dividir o controle da empresa com um fundo soberano de Cingapura e a família Moll (os fundadores).

Descaso com vidas humanas vira rotina

O incêndio no Hospital Badim é mais uma entre tragédias semelhantes que têm ocorrido no Rio nos últimos tempos. A destruição do Museu Nacional, em setembro de 2018, foi o primeiro grande chamariz para um problema recorrente e ainda não resolvido no cotidiano carioca: a falta de equipamentos de emergência contra o fogo. Dois meses depois, novo acidente - e o pior: com vítimas.

Em novembro, o segundo andar da Coordenação de Emergência Regional (CER) do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, pegou fogo após um curto- -circuito. Mais de 50 pacientes tiveram de ser transferidos às pressas. Três pacientes não resistiram ao processo de transferência e faleceram a caminho do hospital. A última vítima faleceu no dia seguinte. Já em 9 de fevereiro último, o Rio amanheceu de luto pela perda de dez adolescentes no incêndio no Ninho do Urubu, em Vargem Grande, Zona Oeste. Causado por um curto-circuito no ar-condicionado dos contâiners em que os meninos estavam alojados, o fogo se alastrou enquanto eles dormiam.

O local onde os garotos dormiam não havia sido vistoriado pelos bombeiros nem tinha alvará de funcionamento da prefeitura. Além dos dez mortos, três jovens ficaram hospitalizados, mas sobreviveram. Sete meses depois, o Flamengo ainda está negociando um indenização para os familiares das vítimas.

Apoio aos sobreviventes e às famílias das vítimas

O incêndio no Hospital Badim resultou, até segunda-feira (16), na morte de 12 pacientes idosos e na transferência de 57 pacientes para outras unidades hospitalares públicas e privadas, segundo uma nota do próprio hospital. Até o momento foram registradas também 20 altas de pacientes desde o mais recente comunicado do hospital. Entre os pacientes ainda internados, 20 deles são familiares, cuidadores e funcionários que inalaram fumaça.

Ainda, segundo a matéria, o Sindicato dos Enfermeiros do Rio informou que há dez profissionais hospitalizados, sendo cinco deles internados em estado grave. Em nota divulgada no fim de semana, o hospital afirmou que nem todas as vítimas foram internadas por inalação de fumaça. “Ressaltamos que a maior parte das pessoas segue internada para a continuidade do tratamento das patologias que motivaram suas admissões no Hospital Badim e não por conta de inalação de fumaça”. A afirmação surge como forma de resposta às suposições de que a permanência do número de internados se deve à inalação de fumaça.

Já o laudo pericial realizado pela Polícia Civil no último sábado (14) confirmou que o incêndio se iniciou com um curto-circuito no gerador do Hospital Badim, que se localizava no subsolo da instalação médica.

Foto: reprodução/redes sociais

Em declaração à imprensa, o delegado responsável pelo caso, Roberto Ramos, da 18ª DP, afirmou que ainda há muito a ser investigado pelas equipes da perícia: - Sabemos que problema foi no gerador. Vai ser feito um estudo mais aprofundado para saber sobre a manutenção e como se deu esse problema.

Ainda de acordo com o delegado, as investigações continuarão com uma nova rodada de perguntas sobre os procedimentos que estavam sendo adotados para a segurança dos pacientes e da própria infraestrutura dos prédios.

A assessoria do Hospital Badim também informou sobre como estão sendo tratados os pacientes: “A direção do Hospital Badim informa que o comitê de apoio, formado por psicólogos e assistentes sociais está disponível através do número de WhatsApp 07101-3961 e do e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. para que os familiares dos pacientes envolvidos no episódio do incêndio sejam acolhidos e orientados”.

Ainda de acordo com a assessoria, os pacientes foram transferidos para os hospitais Américas, Casa de Portugal, Caxias D’Or, Copa D’Or, Gafree Guinle, Israelita, Albert Sabin, Norte D’Or, Quinta D’Or, Rios D’Or, Samaritano, São Bernando e Unimed Barra. Já sobre os ressarcimentos das famílias afetadas, a assessoria informou que o Hospital Badim assumirá o custo de todos os sepultamentos. Além disso, começou também a fornecer apoio psicológico e psiquiátrico às famílias das vítimas.

O Badim ainda está oferecendo estadia em hotéis aos vizinhos que precisaram sair de suas casas durante o incêndio, que provocou muita fumaça tóxica durante várias horas.