A luta diária de uma médica para cuidar do problema que mais mata no país: as doenças do coração

A médica Ludhmila Abrahão Hajjar reitera que 2020 está sendo um ano muito difícil para o coração de seus pacientes. Coordenadora da UTI Cardio COVID do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e cardiologista intensivista dos hospitais da Rede D’Or São Luiz Vila Nova Star, em São Paulo; e DF Star, em Brasília, ela luta diariamente para reverter uma estatística perversa: 50% dos óbitos de vítimas do covid-19 ocorrem por problemas cardiovasculares. São aqueles pacientes idosos, cardíacos, hipertensos, obesos, entre outros, que fazem parte dos grupos de risco de letalidade da doença.

A cardiologista alerta, no entanto, que o vírus não é a única razão para o aumento de óbitos durante a pandemia. Enquanto o país sofre a perda de mais de 80 mil pessoas para a covid-19, uma outra letalidade vem crescendo de forma silenciosa. Entre 16 de março e 20 de julho, 90.014 pessoas em todo o país morreram vítimas de doenças do coração. Destas, 26.477 (29,1%) morreram em casa, sem qualquer socorro. Os dados são do Portal da Transparência do Registro Civil e revelam ainda um aumento de 31% dos casos em relação ao ano passado.

A especialista explica que o medo da contaminação tem também sua dose de letalidade:

—Medo, ansiedade, stress, sedentarismo, alimentação inadequada e falta de assistência médica estão entre as causas. O medo de contaminação é muito ruim por que o paciente deixa de procurar tratamento para o seu problema e agrava seu estado de saúde — explica a médica, uma pioneira no Brasil em Cardio-oncologia, uma especialização que busca reverter outro quadro de elevada gravidade; o de pacientes de câncer que sofrem do coração.

Antes de chegar à linha de frente da maior pandemia da história recente do planeta, Ludhmila começou a trilhar seu caminho muito cedo, ainda criança. Aos sete anos, pediu aos pais não uma boneca, mas o esqueleto com o qual começaria a estudar. Aos oito, já tinha seu primeiro kit para simular pequenas cirurgias.

— Eu sempre gostei de medicina. Não tinha nenhum parente médico, mas desde pequena me encantava com programas, com séries, histórias; eu gosto de anatomia desde sempre e realmente é o que vivo 24 horas.— conta a filha de fazendeiro de Goiás, que aos 17 anos entrou para a Universidade de Brasília e que aos 23 anos ingressou no programa de residência médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – HC-FMUSP e seguiu em residência em Clínica Médica no HC e em Cardiologia no Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - InCor-HCFMUSP.

Vinte anos depois, ela acumula diversos títulos, estudos e funções.

— Desde a faculdade eu fazia estudos em circulação em coração e fui encantada com a cardiologia desde sempre. Vim para São Paulo onde passei na residência no Hospital das Clínicas, fiz dois anos de clínica médica e fiz residência em cardiologia no Instituto do Coração. Depois fiz título de especialista em terapia intensiva, título de especialista em emergências médicas, doutorado em transfusão de sangue e depois fiz livre docência, e então prestei concurso para Professora de Cardiologia da Faculdade de Medicina, aos 33 anos.

O doutorado sobre transfusão de sangue trouxe uma descoberta que modificou os protocolos de cirurgia cardiovascular no país. Até seu estudo, a prática em cirurgias cardíacas com mais de três horas de duração previa a realização de transfusões para compensar a perda sanguínea. Uma regra antiga, de 1934, que surgiu com o americano John Lundy que, criou na Clínica Mayo, o primeiro banco de sangue do mundo.

— O meu estudo sobre transfusão veio de uma dúvida. Não existia no mundo nenhum estudo prospectivo que provasse que reduzir o limiar de transfusão de sangue era seguro após cirurgia cardíaca. E eu fui a primeira a fazer isto, foi minha tese de doutorado, publicada no Jama (Jornal da Associação Americana de Medicina). Este meu estudo tem mais de mil citações e ainda hoje é referência no assunto. A partir dele, as taxas de transfusão em cirurgias caíram consideravelmente no país todo — conta a médica.

Em 2003, Ludhmila assumiu a coordenação do programa de Pós-Graduação da Cardiologia da Faculdade de Medicina da USP.

— Eu tive a honra de liderar uma transformação da Pós-Graduação, que iniciou a sua história muito bem no Incor, porém, sob a minha coordenação, a Pós-Graduação passou a ser a número 1 do país, avaliada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Diretoria de Avaliação do Ministério da Educação), com nota máxima, nota sete.
Em 2010, aos 32 anos, Ludhmila tornou-se pioneira em cardio-oncologia no Brasil.

— Hoje meu dia é dividido entre atividades na faculdade de medicina da USP, que inclui o Incor e o Instituto do Câncer, fazendo cardio-oncologia, terapia intensiva, ensinando residentes, especializando pós-graduandos, fazendo pesquisa, coordenando a pós-graduação e as atividades na rede D’Or, onde tenho internado os pacientes e atuado em cardiologia clínica e terapia intensiva — conta a médica, que ainda encontra tempo para atuar como editora internacional na principal revista de cardio-oncologia do mundo, a JACC ( Journal of American College of Cardiology), a Revista do Colégio Americano de Cardio-oncologia.

— É muito trabalho, são casos muito difíceis, mas é ao mesmo tempo maravilhoso poder salvar pacientes tão graves e contribuir para o desenvolvimento da medicina.

Sobre o trabalho na Rede D’Or, Ludhmila destacou o pioneirismo de Jorge Moll, fundador da empresa e que iniciou uma série de inovações no tratamento de cardíacos no Brasil, para oferecer conhecimento e tecnologias para o profissional da saúde trabalhar e acolher os pacientes com segurança e equipamentos de ponta, como o CyberKnife, equipamento de radiocirurgia com braço robótico, capaz de direcionar alta concentração de radiação em pequenos pontos, proporcionando ao paciente um tratamento de maior precisão e menos efeitos colaterais.

Saúde

Em uma entrevista rápida, entre uma atividade e outra, Ludhmila falou sobre a situação hoje do coração brasileiro, agravada agora com a pandemia.

Como o Covid atua no coração do paciente? Por que tanta letalidade?

— Hoje sabemos que 50% dos pacientes que internam por covid-19 podem ter problema cardíaco. Eles podem ter problema pela infecção do sistema cardiovascular, como uma inflamação que acontece no organismo todo e pode atacar o coração. Os pacientes podem apresentar problemas no músculo cardíaco, arritmia e infarto agudo do miocárdio. O vírus pode afetar qualquer área do sistema cardiovascular, por isto tem que ter protocolos de diagnóstico e de tratamento.

Os riscos para o coração são hoje maiores? O que mudou no diagnóstico?

— O principal motivo ainda é o respiratório, mas o segundo é o problema cardiovascular. Nesta questão inicial o mundo acabou amadurecendo. Claro que o ideal é que a gente tenha em mãos uma medicina que possa atuar de forma precoce. E é por isto que os casos mais leves são orientados a ficar em casa, mantendo uma monitorização por telemedicina, para que, quando haja cansaço, falta de ar, febre, este paciente procure o hospital.

A telemedicina funciona para o paciente cardíaco?

— Ela tem sua aplicação, não vai substituir o exame clínico, mas ela auxilia, ela faz uma triagem, é uma excelente ferramenta para seguimento. A telemedicina hoje é estritamente necessária e sou favorável à sua implantação em todo o país.

A senhora é pioneira em cardio-oncologia. O que é esta ciência?

— A primeira causa de mortalidade no Brasil é a doença cardiovascular e a segunda é o câncer. Esta especialidade (cardio-oncologia) tem como foco o cuidado cardiovascular direcionado ao paciente com câncer. Primeiro, porque o paciente com câncer tem os mesmos fatores de risco que geram doenças cardíacas, que são a hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo. Além disto, o tratamento pode ser agressivo para o coração. Jovens, por exemplo, que têm linfomas e leucemias, doenças do sangue; eles tomam medicações tóxicas para o coração e também vão precisar do apoio da cardio-oncologia. Então, precisamos cuidar do coração destes pacientes, prevenindo contra complicações, diagnosticando precocemente a complicação e tratando da melhor forma para que o paciente possa continuar seu tratamento oncológico, e reduzindo os riscos de óbito e melhorando a qualidade de vida.

E como está o Brasil na cardio-oncologia?

— É uma ciência relativamente nova, que teve seu início em 2010, nos Estados Unidos e o Brasil vem ganhando o seu espaço. O Brasil está ganhando destaque internacional. Nós começamos em 2011, quando reunimos cardiologistas e oncologistas, sob a liderança inclusive do Professor Paulo Hoff, chefe da Oncologia da Rede D’Or e professor titular da oncologia da USP. Em outubro passado, sediamos pela primeira vez o congresso mundial de cardio-oncologia. Nós precisamos ainda disseminar o conhecimento no país todo, começando no ensino médico.

Como é liderar um setor da Medicina que sempre foi um território masculino?

— Isso vem mudando, mas a gente já lutou muito. Eu digo com certeza que para as mulheres é mais difícil, existe um preconceito. É triste falar isto em pleno século XXI, mas existe. Os desafios para nós são muito maiores. De uma maneira geral, nos empregos institucionalizados, as mulheres ganham menos e isto não é diferente na Medicina. O desafio para mim foi tão maior que eu acho que é por isto que me dediquei tanto e de maneira tão árdua; e venci muitas barreiras. Mas para isto também encontrei boas pessoas no caminho, bons professores, que me deram grande inspiração, e também contei com a ajuda de Deus e da família. De um tempo para cá, as mulheres vêm se destacando na USP. A diretora clínica do HC é uma grande mulher, já existem algumas titulares de outras especialidades que são mulheres. Então, devagarinho, a gente vai mudando esta história.


Por: Elenilce Bottari / Agência de Notícias EuroCom