Rede D’or realiza Simpósio Internacional de Cardiologia online, com cirurgia ao vivo

No Brasil, mais de 1200 pessoas morrem por dia de doenças do coração. De janeiro até às 15h desta sexta-feira (07) haviam sido computados 242.859 óbitos pelo “Cardiômetro” da Sociedade Brasileira de Cardiologia.  Para os profissionais desta ciência em que o êxito de salvar vida do paciente está na corrida contra o tempo, o fluxo de conhecimento também não pode parar.  Por esta razão, a Rede D’Or São Luiz realiza neste sábado um Simpósio Internacional de Cardiologia online, com a participação de 30 palestrantes e mais dois mil inscritos. Será uma espécie de avant première do 1º Congresso Internacional de Cardiologia presencial da rede que seria realizado este ano em São Paulo, nesta mesma data, mas que foi adiado para 2021 em razão da pandemia.

Para o evento foi criada uma plataforma especial que recriará, em um ambiente virtual, o espaço de um congresso real, com salas de discussões e estandes. Mas, aproveitando a carona da tecnologia, o evento permitirá também aos seus mais de dois mil participantes, acompanharem ao vivo uma cirurgia cardíaca que estará sendo realizada na Suíça, recriando também o ambiente de um hospital universitário.

— A cardiologia da Rede D’Or São Luiz sempre fez reuniões científicas e simpósios internacionais de cardiologia, porque é importante manter a qualidade assistencial e também a informação de ponta nos hospitais, com médicos atualizados, mas também porque os simpósios e congressos permitem esta troca de experiência entre colegas. Este ano teríamos o nosso primeiro Congresso Internacional de Cardiologia, que suspendemos por conta da pandemia. Para manter a atualização médica continuada, tão essencial à nossa atividade, nós idealizamos quatro simpósios virtuais internacionais — defende a diretora nacional de Cardiologia da Rede D’Or São Luiz, Olga Souza, uma das organizadoras.

Os quatro simpósios virtuais terão duração de cinco horas e serão gratuitos. O primeiro acontece neste sábado, a partir de 8h30m e terão duas salas simultâneas.

— Nós contratamos uma empresa brasileira que desenvolveu uma tecnologia própria para o evento, uma plataforma digital que, ao se inscrever no evento, você é encaminhado para o ambiente virtual de um congresso. O ambiente do congresso oferece assistente virtual, como se fosse uma recepcionista e o médico ou profissional de saúde pode escolher entre a “Sala 1”, que é uma sala de cardiologia geral, com temas como infarto, insuficiência cardíaca e síncope, entre outros; ou se vai para a “Sala 2”, mais especializada, que neste sábado será dedicada à intervenção coronariana. — detalha Olga Souza.

Para viabilizar o Simpósio, a rede fez parcerias com empresas que também terão expostos estandes virtuais dos patrocinadores, como acontece nos congressos.

— O participante poderá entrar e sair das salas quando quiser e também visitar os estandes. Só não vai dar para tomar cafezinho e confraternizar com os colegas — comentou a médica, animada com a tecnologia desenvolvida para os eventos.

Segundo ela, apesar do custo para a produção da plataforma digital, o evento será mais barato porque não terá os custos de passagens aéreas internacionais dos palestrantes, diárias de hotéis e aluguéis e montagens de espaços para congressos de grande porte como este.

—  Uma das vantagens é que permite um maior alcance, porque as pessoas podem assistir de onde estiverem e até do celular. E isto também dá oportunidade de ter convidados de qualquer lugar.

Outra novidade trazida pelo congresso virtual será a forma de participação dos inscritos. Segundo André Feldman, coordenador Cardiologia Rede D'or São Luiz- Regional SP, foram criados mecanismos de participação do público no evento.

— A programação será ao vivo e a ideia é trazer a discussão de casos através de votação eletrônica. Teremos casos reais, de pacientes da vida real, e com perguntas ao longo do caso, como “o que você acredita que é o diagnóstico? ”, “qual exame pediria? ”, “qual o tratamento que proporia? ”; com as alternativas de respostas para que os participantes possam votar. 

Segundo André Feldman, os resultados das votações dos participantes serão usados para alimentar o debate dos palestrantes:

— Ao longo da apresentação os debatedores terão a oportunidade de discutir as respostas dos participantes. Através desta votação eletrônica e com painéis de perguntas que o público também poderá encaminhar, a ideia é fazer com que o simpósio seja bem interativo — explicou o organizador.

Segundo ele, o primeiro dos quatro módulos do simpósio internacional virtual acontece na data marcada anteriormente para a realização do 1º Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or São Luiz, que foi adiado em razão da pandemia.

— Contratamos uma empresa para desenvolver conosco o ambiente de um grande congresso, mas como passar um dia inteiro diante de um computador seria muito pesado, dividimos o simpósio nestes quatro módulos, onde vamos tratar os principais temas da cardiologia. Será um evento bem audacioso.

Saúde

O médico André Feldman

Responsável pela sala da Cardiologia Intervencionista (procedimentos com cateter), o médico Cleverson Zukowski pontuou que a dinâmica deste simpósio virtual será original. Segundo ele, os participantes desta sala poderão assistir à uma transmissão ao vivo de um caso que estará sendo realizado em um hospital na Suíça, com o médico de grande experiência no procedimento em questão.

— Bem diferente de uma aula ou conferência por webinar. A intervenção ao vivo será feita pelo médico Daniel Weilleman, de um hospital na Suíça. Depois teremos aulas e seguiremos para Cleveland, onde trataremos de outro caso de intervenção, mas desta vez, editado. O médico Guilherme Attizani apresentará o caso de uma cirurgia que ele terá realizado no dia anterior, para mostrar o paciente já recuperado e em alta. É um caso muito interessante porque se trata de um problema que tradicionalmente era tratado apenas por cirurgias convencionais e agora, com o desenvolvimento da cardiologia, estamos conseguindo tratar de forma minimamente invasiva. Ou seja, um paciente que demoraria pelo menos trinta dias afastado, pode retornar ao trabalho em até três dias — comentou Cleverson, como os outros da equipe, também sentindo um “friozinho na barriga”, tamanha a ousadia do evento.

Saúde

O médico Cleverson Zukowski

Os outros módulos do 1º Simpósio Internacional de Cardiologia online da Rede D’Or São Luiz ocorrem entre setembro e novembro, sempre aos sábados. Em 12 de setembro, será realizado o segundo módulo, cuja a “Sala 2” será sobre arritmia, um problema que cresce no Brasil e no mundo. Em 3 de outubro, acontece o terceiro módulo, onde a “Sala 2” será sobre a cardio-oncologia, que será coordenada pela médica Ariane Macedo, que também organiza a pós-graduação em cardio-oncologia da Rede D’Or. A programação se encerra em 7 de novembro, com o simpósio que tratará de inovação e tecnologia em saúde.

— Em outubro teremos a participação de renomados palestrantes da Sociedade Internacional de Cardio-Oncologia e da Oncologia D’Or. É uma ciência que surgiu junto com o avanço da terapia do câncer. Houve a necessidade de controlar e minimizar os efeitos colaterais, principalmente dos remédios, que podem afetar o sistema cardiovascular de maneira indireta, incidental. Também, o envelhecimento da população acabou impulsionando o desenvolvimento da cardio-oncologia. Hoje podemos ter pacientes de câncer, de 80 anos, que estão na praia jogando vôlei, mas carregam com eles todo o risco cardiovascular de uma pessoa com esta idade — pontuou Ariane Macedo.

Saúde

A médica Ariane Macedo

“Pacientes com infarto têm que ser atendidos, diagnosticados e tratados em até 90 minutos”

Uma das organizadoras do 1º Simpósio Internacional de Cardiologia online da Rede D’Or São Luiz, a médica Olga Souza acumula também as funções de diretora Nacional de Cardiologia da Rede e também diretora administrativa da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Formada há 37 anos e apaixonada pela cardiologia, ela é a responsável hoje pelo projeto que há cerca de cinco anos integrou 36 dos 50 hospitais da Rede em todo o país, em um mesmo modelo assistencial de gestão em cardiologia. Segundo ela, não importa o hospital, ou o estado, os pacientes serão atendidos da mesma maneira. Entre os principais indicadores de qualidade está a velocidade do atendimento:

— Entre chegar a unidade, ser diagnosticado com infarto e realizar o cateterismo serão ao máximo 90 minutos.

Saúde

A médica Olga Souza

Como funciona o sistema integrado de atendimento da Cardiologia da Rede D’Or São Luís?

Olga Souza:  A rede tem 51 hospitais, destes, 36 hospitais trabalham com o mesmo modelo assistencial de gestão da cardiologia. Independente da unidade ou estado, o paciente será atendido dentro do mesmo rigor no padrão de atendimento.  Trata-se de um projeto que visa justamente a garantia da melhor qualidade assistencial. Os pacientes cardiológicos, quando não tem seu médico assistente, são acompanhados pela equipe da cardiologia do hospital. Durante a internação, o paciente será acompanhado pela equipe de cardiologia desde sua entrada no pronto socorro até a alta hospitalar. Em casos nos quais a causa da internação não seja por doença cardíaca, caso o médico assistente identifica alguma alteração cardiológica, pode haver a solicitação do acompanhamento da equipe de cardiologia que será feito de forma integral, até o momento da alta.

Como é este monitoramento?

Olga Souza:  Os indicadores de qualidades assistenciais são continuamente acompanhados para verificar o nosso nível de atendimento, qualquer desvio do padrão é prontamente identificado e corrigido. Um exemplo disso é a monitorização do paciente que chega ao hospital com infarto. Ele é monitorizado desde a sua abertura da ficha, tempo até atendimento médico, diagnóstico e tratamento no laboratório de hemodinâmica. Todo este processo não pode ultrapassar 90 minutos.

Como funciona este fluxo de atendimento do paciente cardíaco?

Olga Souza:  Ainda neste exemplo da dor no peito, nos hospitais da Rede D’Or o paciente que chega com dor no peito tem que ser diagnosticado em até dez minutos através da realização do eletrocardiograma e sua interpretação pelo médico. Este indicador chamamos de tempo “porta-eletro”. Quando o paciente entra no hospital e aciona, no totem de atendimento, o item “dor no peito”, imediatamente a equipe de enfermagem recebe uma mensagem deste acionamento e o direciona para uma sala específica onde é realizado um eletrocardiograma. Durante a realização do exame o médico já é acionado para realizar avaliação clínica do paciente e interpretação do exame. A totalidade deste processo deve ser inferior a dez minutos. O médico, em caso de necessidade após a identificação de uma alteração clínica ou do eletrocardiograma, desencadeia o início do tratamento que segue um protocolo assistencial uniforme em todas as unidades da Rede, desenhado a partir das recomendações das diretrizes internacionais. As medicações são administradas e o paciente é levado ao setor de hemodinâmica onde ele irá realizar um exame chamado de cateterismo. Em caso de necessidade, um procedimento de desobstrução (chamado de intervenção coronária percutânea) já pode ser imediatamente realizado. A duração deste processo desde o acionamento do totem até a desobstrução do vaso tem que durar menos do que 90 minutos.

Em que momento o paciente deve procurar o hospital?

Olga Souza:  A Sociedade Brasileira de Cardiologia e a própria Rede D´or São Luiz realizam constantemente campanhas de conscientização da população a fim de orientar acerca dos sintomas de infarto. Tais campanhas têm o objetivo de informar ao paciente sobre a importância do se identificar os sintomas de alerta que devem ser considerados relevantes e não ficar em casa com dor no peito minimizando a importância do problema ou com a falsa impressão que não é nada grave e que vai passar espontaneamente. Um fato que pudemos observar durante a pandemia, não somente no Brasil, mas também no resto do mundo, foi o aumento da mortalidade domiciliar; a maioria dos pacientes que faleceram por infarto ou morte súbita em casa não procurou a assistência médica por medo de ir ao hospital e ser contaminado pela Covid.

Quais são os sintomas que devem ser observados?

Olga Souza:  O que caracteriza um infarto é a dor no peito, geralmente de forte intensidade. Esta dor no peito pode ser no centro do tórax e pode irradiar para o braço esquerdo e a mandíbula. Ela pode ou não vir acompanhada de náusea, sudorese e costuma ser prolongada. Estas características, quando presentes, devem ser consideradas como um alerta para procurar um serviço especializado.

Mas se a dor parar, ainda assim, o paciente deve ir para o hospital?

Olga Souza:  Esta pergunta é importante, pois é comum a dor melhorar e depois voltar ainda mais intensa. O importante é o paciente não desconsiderar sua relevância e ir procurar o hospital. O médico irá avaliar pois ele terá mais propriedade para descartar ou confirmar a hipótese de infarto e realmente determinar se é algo grave ou mais simples. Uma observação interessante é que, atualmente, é mais comum a apresentação de infarto em pacientes mais jovens do que a gente atendia no passado, porque estes fatores de risco que levam a doenças cardiovasculares, como hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo, colesterol elevado, sedentarismo, estão cada vez mais presentes na vida moderna.

Os sintomas de dor no peito sempre virão acompanhados com náuseas e sudoreses?

Olga Souza:  Não necessariamente. Você pode ter a dor forte, e não ter outros sintomas. Mas a dor varia muito de um paciente para outro.

Se a dor no peito passar e o paciente ficar em casa, qual o risco?

Olga Souza:  O infarto é uma obstrução ao fluxo de sangue de uma artéria que irriga o músculo cardíaco porque formou-se um coágulo obstruindo o fluxo sanguíneo. Desta forma, seu tratamento deve ser o mais precoce possível pois, caso contrário, a falta de fluxo de sangue provoca a morte das células musculares cardíacas originando um tecido cicatricial sem capacidade contrátil, levando à perda da função de bomba do coração. Se a perda celular for muito intensa, pode levar à falência completa do coração e à morte. A desobstrução precoce do vaso impede a morte das células e preserva a função do coração.

Por Elenilce Bottari/ Agência EuroCom