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Por Nelson Vasconcelos, especial para o Correio da Manhã

Por menos que você creia em deuses e igrejas, não tem como escapar da influência cristã sobre a sociedade ocidental. É por isso que “Martinho Lutero – renegado e profeta”, da historiadora Lyndal Roper, torna-se uma leitura marcante e, digamos, “inspiradora”. A biografia deixa claro, por exemplo, que os abusos cometidos em nome da fé têm que ser combatidos a qualquer custo - o que certamente nos faz refletir sobre os dias de hoje.

Muita gente lembra, do tempo da escola, que Lutero foi um monge alemão que balançou a estrutura da todo-poderosa Igreja Católica em plena Idade Média. Não o fez por vã rebeldia. Era agostiniano estudioso, homem de fé verdadeira. Certa vez, passou seis horas se confessando, para desespero de seu confessor, Johann von Staupitz. Devoção total.

O que moveu Lutero contra a Igreja foi a certeza de que os desejos divinos estavam sendo desvirtuados por religiosos que exploravam a boa fé e a inocência dos fiéis (e olha nós aí outra vez). Lembremos que, na época, vendia-se a salvação das almas por qualquer trocado. Quanto mais grana o sujeito gastava nessa intenção, menos tempo ele passaria no purgatório, rumo ao paraíso.

O marketing estava, literalmente, na alma do negócio. O frei dominicano Johannes Tetzel, por exemplo, tinha um lema nada sutil: “Quando a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório vai se livrar”. Certa vez, ele chegou a dizer que essas indulgências poderiam redimir até quem estuprasse a Virgem Maria. Pegou pesado pra burro.

Nada convencia Lutero da seriedade dessas práticas, sendo tudo a mais sórdida manifestação da ganância. Nas discussões intramuros, ele quis mostrar que, sagradas ou não, as palavras escondem múltiplos significados e intenções, e daí a origem de tantos conflitos, golpes e desencantos. É um tema bem atual, aliás.

Filosofias à parte, o monge foi à luta contra a mercantilização da fé sob as bênçãos dos papas. Em 1517, aos 34 anos, pregou na porta da igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses questionando as ordens da Igreja. Uma afronta. O documento foi impresso, ganhou as ruas e prontamente chocou a Europa.

Com sua ousadia, Lutero conseguiu defensores e inimigos. Seu raciocínio tinha lógica, apelo popular e apoio de nobres que gostariam de ver Roma com menos poder - ou seja, menos apetite pela grana alheia.

Para a Igreja, o problema é que toda a argumentação luterana deixava em risco um das mais importantes fontes de arrecadação que sustentavam a Igreja. Pior que isso: ao brigar contra esse sistema, estava desafiando a autoridade do próprio papa. Ou seja, mexeu com gente grande.

Como se sabe, a Igreja da Idade Média não costumava ser boazinha com seus oponentes. Lutero não teve medo e encarou a discussão. Foi apenas excomungado, e tudo bem, porque poderia até ter parado na fogueira.

Nascia então a Reforma, o movimento que resultou na divisão da Igreja, abrindo caminho para múltiplas denominações religiosas, que hoje conhecemos tão bem. Tampouco defendia os tribunais morais, outra característica com quem temos que conviver nos últimos tempos.

Muito sangue correu à medida que Lutero quebrou a ordem vigente não só na religião, como também na filosofia e na economia cristã. Não por acaso, o monge foi chamado também de o último homem da Idade Média e primeiro da era moderna. Tem a ver.

As questões teológicas apresentadas por Lyndal são interessantes. Para Lutero, era mais do que saudável manter uma certa desconfiança em relação à fé. Ele também de sejaria não ter livre arbítrio, porque seria uma espécie de prisão para os fieis da época. Detestava Roma, onde estivera apenas uma vez, para ver “a fronte de toda a maldade e o assento do Demônio.” 

Aliás, e quanto a falar de paraíso, purgatório, inferno? Para entender melhor a história de Lutero e seu movimento, consideremos real a existência desses mundos paralelos e seus personagens, apenas isso, e reitere-se que Lyndal não está discutindo a validade de qualquer crença. Sua questão é contar a história de um religioso que, à parte suas boas intenções, não era exatamente santo.

Tratava-se, por exemplo, de um antissemita agressivo, inaceitável para os padrões de hoje, tão baseados na hipocrisia e no politicamente correto.

Da mesma maneira, era também machista – mas não dos piores. Como tinha implicância filosófica com a Virgem Maria, sempre deixava a mulher em segundo plano. Mas defendia o prazer para ambos os sexos, não renegava o desejo carnal – que, afinal, seria uma criação divina. Suas ideias sobre sexualidade eram notavelmente desinibidas, diz sua biógrafa.

Mesmo religioso exemplar, Lutero não tinha a costumeira aversão ao corpo feminino. Era deveras esperto e, não por acaso, chocou seus pares quando se casou com Katharina von Bora – que era freira. Juntos, tiveram quatro filhos e viveram até a morte dele.

Lutero morreu em 1546, na mesma cidade em que nascera, Eisleben. Estava lá por acaso, numa viagem, mas já adoentado. Teve velório e enterro digno de um rei, com cortejos acompanhados por nobres, professores, estudantes e, claro, muitos fieis que reconheceram sua importância para uma nova era que ele ajudou a inaugurar.