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Por: Nelson Vasconcelos*

Na nossa vã filosofia, o reino animal está no topo da evolução, com gente como Jair, você e eu representando o ápice da criação divina - e isso explica muita coisa. Por essas e por outras, talvez fosse melhor se tivéssemos as plantas como referência de inteligência. Elas são muito, muito mais espertas do que a gente pensa, como mostra “A revolução das plantas” (Ed. Ubu, R$ 54,90), do italiano Stefano Mancuso, especialista em neurobiologia vegetal.

O livro é desconcertante, bem sacado, cheio de ideias realmente revolucionárias. Uma delas me tocou particularmente: temos que repensar a tecnologia que usamos hoje, totalmente inspirada nas “funcionalidades” dos seres humanos, e entender as plantas como um modelo perfeito para as máquinas.

Explica-se. As tecnologias sempre foram criadas para servir como extensões do homem. Elas nada mais são que instrumentos para aumentar a potência criativa, a produtividade, a realização dos desejos e satisfação das necessidades humanas, sejam elas reais ou não. Uma faca é um instrumento tecnológico, assim como uma nave espacial.

Como somos o centro do Universo, criamos os computadores baseados no que conhecemos da medicina. A tecnologia da informação sempre adaptou à máquina o “modus operandi” do homem. É por isso que conseguimos traçar paralelos entre os computadores e nós mesmos. Temos as memórias (a descartável e a que permanece), o processamento (interno e em rede), a alimentação de informação (idem), e por aí vai o tal do “cérebro eletrônico”, como era outrora chamado o computador. E não é à toa que existem tantos robôs construídos à nossa imagem e semelhança.

Aí é que Mancuso entra de sola nesse condicionamento. Segundo ele, se usássemos as plantas, as máquinas provavelmente seriam ainda mais eficientes. Se não o fazemos, é por desconhecer totalmente como elas funcionam.
O argumento de Mancuso tem muita lógica. Para começar, cada parte do “corpo” da planta responde por várias tarefas diferentes, simultaneamente, e isso é fundamental para sua sobrevivência. Suas “habilidades” não são centradas em uma única estrutura; você não tem como cortar o cérebro da planta. Sua placa-mãe, digamos assim, está distribuída por todo seu corpo, assim como seu “HD”, ou o “coração”, o “pulmão”. E a gente sabe o que acontece quando o HD do notebook ou o coração do sujeito queimam abruptamente...

Baseado em décadas de pesquisas em todo o mundo, o que Mancuso deixa claro, com riqueza de detalhes e sem chatice, é que as plantas são, sim, organismos sensitivos, capazes de entender o que está acontecendo, buscar soluções para problemas, resolvê-los. Elas têm memória, aprendem, movimentam-se. Elas se comunicam, adaptam-se a mudanças ambientais, resistem a tragédias.

O pesquisador italiano também mostra como as plantas podem ser exemplo de organização distribuída por toda a sua comunidade, em contraposição à nossa organização social, que implica uma hierarquização nem sempre bem resolvida (novamente replicando a forma de organização humana e reproduzindo seus bons e maus resultados...).

Para leigos, os dados são intrigantes. As plantas respondem pelo peso de pelo menos 80% do peso de tudo o que está vivo no planeta. E há muito a ser descoberto, porque conhecemos a fundo menos de 50% das espécies de plantas existentes. Mais que isso, ainda será necessário muito tempo para que pesquisadores entendam como as raízes decidem o que estão fazendo, para onde a árvore vai crescer, como será a distribuição de energia etc. Como o sistema radicular consegue interagir ou evitar determinados nutrientes ou componentes do solo?

Tudo é um processo de ligação com o meio ambiente bastante sofisticado, que vai além do que conseguimos ver. Se alguém aí reparou bem, já deve ter percebido, por exemplo, que essa intricada organização descentralizada das plantas é muito semelhante à internet - uma das mais revolucionárias invenções humanas.

Trabalhos como o de Mancuso estão aí para clarear nossa cabecinha. E ele é bem eficiente, tanto que, além de estar vendendo como água, recebeu XII Prêmio Galileo de escrita literária de divulgação científica de 2018 - uma deferência nada desprezível.

*especial para o Correio da Manhã