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Por Cláudia Chaves, especial para o Correio da Manhã

“O Brasil não tem povo, tem público”. A frase emblemática da obra de Lima Barreto cunhou desde sempre uma fina observação, às vezes satírica, às vezes dramática e muito irônica da sua visão do Brasil. A luta contra o preconceito, a loucura, a inadaptação social é o que vemos no monólogo “Lima entre nós — Estudo compartilhado a atualidade de Lima Barreto”.

O projeto de Leandro Santanna, dirigido por Márcia do Valle, é resultado de um profundo e bem combinado quebra-cabeças que evidencia a potência de um texto que aponta para as mazelas estruturais do Brasil. Vestido de branco, em um figurino que ora parecendo roupa de escravos , ora pijama de hospício, Leandro, ao lado de um pequeno móvel e rodeados de folhas escritas, desfia textos tirados da literatura, de cartas, dos diários, que se transformam em um importante depoimento de um sujeito sofrido, às vezes apartado do mundo quando internado nos manicômios, com sua inadaptação ao mundo chamado “normal”.

Leandro, negro, morador da Baixada, é ator, produtor e diretor da Companhia Teatral Queimados Encena, consegue estabelecer um diálogo com a plateia de forma que somos levados a perceber que é importante se encarar o Brasil de hoje com a mesma coragem com que Lima encarou no século passado. A voz é forte, as palavras bem pronunciadas, a interpretação varia de acordo com o tom do que está sendo dito: revolta, alegria, perplexidade, desalento, coragem, e uma imensa tristeza de o Lima/personagem se ver sozinho na luta com a sua própria loucura, mas sobretudo no combate aos horrores do Brasil.

A peça vai num crescendo, do homem simples ao complexo, do lugar ao deslugar e a transformação de um sujeito subalterno, seja pela doença, seja pela cor, caminha para o imortal artista. Descalço, ao final Leandro/Lima coloca um terno listrado, símbolo dos poderosos da época, calça sapatos, um dândi, tipo emblemático das elites da época. Leandro/Lima vai além da atualização do texto. Como grande ator, Leandro entende o papel do artista e consegue incorporar o desejo do autor: o povo é nosso público sempre.