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EXCLUSIVO: ENTREVISTA COM LAUTER NOGUEIRA

Olimpíada de Tóquio celebrará novamente a reconstrução, como foi a de Londres em 1948

por Claudio Magnavita

Apesar dos pesares, adiar a Olimpíada de Tóquio para 2021 por causa do coronavírus foi a melhor decisão para todos. Para o consultor esportivo e comentarista da Sport atv e da Rede Globo, Lauter Nogueira, mesmo que a pandemia se encerrasse em maio, o que seria “um milagre”, não haveria tempo suficiente para produzir os Jogos à altura de uma verdadeira Olimpíada. O nível técnico certamente ficaria muito abaixo do normal. Atletas de todo o mundo, afinal, estão sofrendo com a doença. Sem falar nos efeitos psicológicos que vão seguir seu rastro.

Poucos brasileiros conhecem tão bem os esportes olímpicos quanto Lauter. Durante cinco anos, foi diretor técnico da Confederação Brasileira de Triathlon e coordenador da Seleção Olímpica permanente, diretor técnico e chefe da equipe de Triathlon nos Jogos Olímpicos de Sydney. Também esteve como diretor técnico nos Jogos de 2000, 2004, 2012 e 2016; além de delegado e coordenador técnico da ITU (órgão máximo do triathlon mundial), coordenou e organizou o Triathlon nos Jogos Pan Americanos de 2007. E ainda cobriu as últimas seis Olimpíadas para a TV.

O currículo vai muito além disso, tornando-o mais do que qualificado para analisar para o leitor do CORREIO DA MANHÃ essa situação incomum.

Como tudo na vida tem o outro lado, Lauter garante que, mesmo com perdas monetárias, a Olimpíada de 2021 tem tudo para ser um sucesso, com “casa cheia”. Ele também deixa uma mensagem positiva:

- A vida do verdadeiro atleta é feita de vitórias, derrotas e recomeços. Acho que assim também deva ser nossas vidas, com batalhas vencidas, perdidas, mas sempre prontos para recomeçarmos!

Correio da Manhã: Depois de presenciar de perto tantas olimpíadas, qual o impacto pessoal da notícia de um adiamento? Seria possível alguém prever que isso poderia ocorrer?

Lauter Nogueira: Este ano já tivemos cancelamento ou adiamento de grandes eventos esportivos internacionais. Só no atletismo, foram os campeonatos Mundial Indoor, Mundial de Cross Country, Mundial de Meia Maratona, de Marcha atlética, Maratonas de Tóquio, Paris, Londres, Roderdã, Boston (a centenária maratona que nunca havia sido cancelada ou adiada), etapas da Diamond League... Ufa... Então, esse tema, cancelamento ou adiamento de Tóquio 2020, já vem sendo discutido desde meados de fevereiro. Somado ao fato de que a cada semana os atletas de todos os cantos do mundo iam sentindo mais dificuldade de manterem uma rotina de treinos compatível com uma temporada Olímpica, que normalmente começa ainda no ano anterior e, a partir de março, iniciam uma rotina sequencial de competições progressivas, para obterem índices e marcas que lhes garantam a sonhada vaga olímpica, foi criando um clima forte de insatisfação, que fez com que estes mesmos atletas pressionassem suas federações, e estas fizessem o mesmo com seus Comitês Olímpicos nacionais. Estes, por sua vez, fizeram chegar ao comando do COI todo este clima de incerteza. A 

 

princípio, o COB manteve-se irredutível, inclusive solicitando ao G7, grupo dos sete países com economia mais forte no mundo, um apoio incondicional. Atitude triste, que beirou o patético, pois, a cada hora, o número de infectados e de mortos se multiplicava exponencialmente, revelando o que já era aparente há tempos: o fator financeiro importava mais do que a vida e a integridade física dos grandes protagonistas olímpicos, os atletas! E estes, diante deste cenário, se fizeram ouvir, e acabaram vencendo. Agora, é hora de vencerem a batalha pandêmica, e recomeçarem a vida esportiva, voltando aos treinos, às competições, enfim, à vida. A temporada esportiva de 2020 vai ser lembrada como aquela que não começou, pelo bem da humanidade. A vida do verdadeiro atleta é feita de vitórias, derrotas e recomeços. Acho que assim também deva ser nossas vidas, com batalhas vencidas, perdidas, mas sempre prontos para recomeçarmos!

CM - A tranquilidade e serenidade são insumos básicos para o desempenho de um atleta. Qual seria o impacto da realização dos jogos em um clima de stress planetário como o que vivemos?

LN - Seria impossível, pois não haveria tempo para que conseguissem preencher todas as 11.300 vagas para todas as modalidades esportivas que compõem o cardápio olímpico. Se a pandemia cessasse em fins de maio, o que seria um verdadeiro milagre, não haveria tempo hábil de se disputar os eventos pré- -olímpicos, as competições que pontuam para o ranking mundial e olímpico de várias modalidades e as seletivas nacionais para formação de equipes olímpicas em muitas modalidades. Muitos países, inclusive alguns já haviam se pronunciado a respeito, desistiriam de participar dos Jogos de Tóquio, tornando esta edição, provavelmente, a mais diminuída que já aconteceu. Me perguntaram numa entrevista se, caso os Jogos fossem confirmados, haveria muitos recordes mundiais. Eu respondi sinceramente: Talvez o único recorde que possa acontecer seja no dia do desfile de abertura, o recorde de países que desistiram de participar dos Jogos de Tóquio! Felizmente vencemos, isto não acontecerá!

CM - Por outro lado, Tóquio 2021 poderá ter a energia da superação. Qual a energia que haverá neste encontro planetário após o que estamos vivemos?

LN- Tóquio será a vitória da humanidade! O mundo se uniu para vencer um inimigo comum. Sem ter medo de ser repetitivo: Eros vence Tanatos pelo bem da humanidade. Vimos médicos e cientistas chineses com o vírus, se espalhando mundo afora, em socorro de países europeus. Acompanhamos médicos cubanos voluntários, desembarcando em vários países, de variadas ideologias, levando conhecimento e afeto. E o que dizer do México, que, diferentemente de seu grande vizinho do Norte, escancarou suas fronteiras (mesmo sabendo que o número de infectados deles era 200 vezes maior do que o da galera de Tijuana), para receber cidadãos do país que sonha em construir uma muralha intransponível, para evitar o fluxo contrário???!!! Ah, como diria Caetano: alguma coisa está fora da nova ordem mundial! Esta será a energia reinante em Tóquio 2021, a Olimpíada em que o esporte celebrará a vitória da humanidade e da fraternidade!

CM - Os jogos de 1940 em Tóquio foram cancelados e agora, adiados. Já se pode falar de uma “Síndrome de Tóquio”?

LN- Acho que seria maldade! Se estudarmos os Jogos de Tóquio 1964, veremos que também foi uma edição especialíssima, onde um povo e um país dizimados por uma guerra cruel e genocida, mostraram ao mundo, mais uma vez, a força da humanidade: em apenas 19 anos (o tempo entre a rendição japonesa e o dia da abertura dos Jogos de Tóquio 1964), o povo japonês conseguiu reconstruir um país, receber o mundo em sua casa e celebrar uma das Olimpíadas mais bem executadas. Nunca vimos algo assim. Talvez o exemplo inglês, quando Londres, destruída quase totalmente em 1945, conseguiu sediar os Jogos Olímpicos de 1948!

CM - Rio ganha mais um ano para ser substituída como a sede Olímpica. Devemos repensar neste momento o que estes jogos significaram para o nosso povo?

LN - Infelizmente, não soubemos o que fazer com a oportunidade de sediar uma edição de Jogos "em casa". Fizemos uma bela festa, é certo, onde todos se divertiram. Aconteceram provas e competições espetaculares, novos ídolos surgiram e antigos se despediram, alguns de forma heroica, outros melancólica. Muitas imagens ficaram marcadas em nossos corações e mentes. Trabalhei duro, como todos meus colegas de profissão, levei meus filhos para assistir, contarei para meus netos o que vi. Mas fica na alma do carioca uma sensação triste. A mesma que acomete o androide de “Blade Runner” que jaz à beira da morte e, sentido, como nenhum androide poderia sentir, diz: Agora tudo irá se perder, como uma lágrima na chuva! Sim, uma lágrima que nunca deveria ter brotado.

CM - Os prejuízos financeiros são incalculáveis com este adiamento. Cronogramas milimetricamente elaborados estão sendo rasgados. Será necessária a flexibilidade brasileira para ajudar os japoneses nesta hora?

LN - Temos em realidade, apenas três opções viáveis neste momento:

1) Cancelar simplesmente os Jogos de 2020, que é o pior cenário. Aí sim, perdas financeiras irrecuperáveis, acompanhada de desvalorização do Olimpismo e da marca olímpica. Perda irrecuperável dos valores olímpicos.

2) Adiar para novembro deste ano. O mundo ainda não estaria recuperado, nem financeiramente, nem psicologicamente. Também não haveria tempo hábil para uma disputa justa pelas vagas olímpicas, através de rankings ou torneios pré-olímpicos. Vários países, quase devastados - como China, Inglaterra, França, Itália, EUA... - não estariam suficientemente recuperados e, com certeza, abririam mão dos Jogos, mesmo que adiados para esta data.

3) Adiar para 2021: Cenário ideal. Sim, com perdas monetárias. Mas que poderiam ser minimizadas com a apresentação de uma Olimpíada de sucesso!! E com "casa cheia"! Adesão em massa de países, atletas e, principalmente, público!! Venceu a razão! A terceira via nos traz a um cenário favorável em quase todos os sentidos!

CM - O COB foi uma das primeiras entidades a pedir o adiamento. Isso demonstra uma retomada da nossa importância e a liderança no cenário internacional depois dos últimos escândalos?

LN- Na verdade, nunca fomos protagonistas em esportes e no mundo Olímpico. Nossa importância no mundo olímpico sempre foi relativa, continental (apesar de perdermos terreno para países sul-americanos, como a Colômbia). Os escândalos ligados a compras de votos na eleição da cidade-sede para os Jogos de 2016 apenas corroboraram na percepção que os outros países tinham de nossos dirigentes esportivos. Nossos dirigentes, não todos, quando falavam em "jogadas", geralmente não se referiam a estratégias ensaiadas em treinamentos para serem executadas durante competições. E olhe que se gastou muito! Muitos hospitais (como fazem falta hoje, estes hospitais não construídos, não é mesmo, Ronaldo?), escolas, sistemas de saneamento urbano, deixaram de ser construídos em nome do LEGADO OLÍMPICO. Vou parando por aqui, uma renitente lágrima quer brotar e rolar na chuva. O COB só se pronunciou depois que vários países sinalizaram que se não houvesse adiamento. Para eles não haveria Jogos Olímpicos. Não houve nenhum protagonismo do COB.