'A Roquette pode ser o centro de produção de conteúdo audiovisual do estado’

Por: Barros Miranda

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Jornalista, historiador e colunista do jornal O Dia e do canal History Channel, Thiago Gomide faz uma grande transformação na tradicional Rádio Roquette-Pinto. Ele, que fez um trabalho bastante reconhecido até hoje na MultiRio, foi convidado pelo governador Cláudio Castro para criar um canal de comunicação do governo com a sociedade, mas, sobretudo, resgatar valores dos cariocas e fluminenses.

Cláudio Magnavita: Thiago, como é, aos 36 anos, presidir uma rádio histórica como a Roquette Pinto?

Thiago Gomide: Todo dia eu acordo com um frio na barriga, pois pilotar uma rádio com 88 anos é um desafio enorme. Mas eu me preparei para assumir a Roquette, para essa guinada, de trazer os valores educativos, valorizando a cultura e dando voz para aqueles que não têm. Portanto, é um desafio diário, é um aprendizado diário e, sobretudo, um prazer diário.

CM: A Roquette tem um público cativo, mas você tem ampliado esse público. Como é o perfil das pessoas que ouvem a Roquette hoje?

TG: As pesquisas que nós temos, não somente com a interação do público com a gente, mas de outras que acabam chegando a nossas mãos, diz que é um público voltado para a Zona Norte do Rio e da Baixada Fluminense. Esse é o nosso público em região geográfica. Agora, em relação à faixa etária, é da minha idade até os 70 anos. A Roquette tem uma tradição de ser uma rádio muito amiga do ouvinte, possibilitando que ele fale, dando oportunidade para músicos e artistas, sendo uma rádio da cultura do Rio de Janeiro.

CM: Uma rádio sem comerciais também é bom para o ouvinte?

TG: É ótimo para o ouvinte, pois ele não perde tempo. Enquanto as outras rádios, que eu nem trato como concorrentes, pois eu não acredito que a Roquette se enquadre em uma concorrência, se orgulham em falarem “agora, vocês vão ter um programa de uma hora sem intervalo”, a gente tem 24 horas sem intervalo.

CM: Algumas pessoas lembram de você como o garoto do History Channel. Como é essa sua relação com o canal, já que tem formação em História?

TG: Sou jornalista e historiador. Tenho uma coluna no History, tanto na TV quanto no site. Sou podcaster do History no Brasil e a minha relação é de muita amizade e troca, porque os conteúdos são feitos a muitas mãos. O History me permite refletir sobre a história, em especial a brasileira, mas dentro do editorial deles. Eu também tenho o meu canal no Youtube e no Tik-Tok, aliás, eu sou um dos três maiores influencers do Tik-Tok no estado do Rio, voltado para a educação. Então, eu levo a história onde ela acontece: na rua, nos espaços da cidade, nos espaços do estado. Esse é o meu lado de publicar e enxergar a história.

CM: Você teve uma passagem importante na MultiRio, o canal de educação da Prefeitura, e você, na gestão do Marcelo Crivella, revolucionou este canal. Comenta o que você fez para, até hoje, ser lembrada como uma gestão audaciosa.

TG: A MultiRio é uma empresa de mídia-educação, vinculada à Secretaria Municipal de Educação. Traduzindo rapidamente, é uma empresa que utiliza a mídia para educar. Então, é muito mais do que um canal de TV, ela também tem rádio, tem um portal e, acima de tudo, ela tem uma capacitação de professores, de profissionais da educação e dos estudantes, com eles também participando das produções. Eu fiz parte de um grupo que esteve à frente da MultiRio. A presidência começou com o Caique Botkay, que, infelizmente, faleceu e depois tivemos o Adolpho Konder, que hoje preside o Detran. Eu participei do processo de digitalização. Nós saímos de uma produção focada para a televisão e viramos uma plataforma, com uma produção muito maior.

CM: É algo parecido com o que você está fazendo agora na Roquette?

TG: É o que vai acontecer na Roquette. Se me derem espaço, é o que pode acontecer na Roquette.

Rio de Janeiro

CM: As pessoas achavam que você, por ser indicado do governador, iria fazer um jornalismo chapa branca, mas você tem seguindo a linha do governador Cláudio Castro, de ser transparente na gestão, sem ser político na administração da imagem. Como é esse cuidado, de ser isento?

TG: Eu não sou bajulador. Eu tenho horror a bajulador. Muitas das vezes o que acontece com um gestor, ele acredita que para ser gestor público, mesmo indicado pelo governador ou por quem quer que seja, ele precisa, a todo o momento, ficar ali, abraçando. O que eu faço de melhor é trabalhar para uma rádio que é do Governo do Estado. Que é de todo mundo deste estado. Eu estou presidente da rádio. Isso daí é muito claro e o jornalismo da Roquette é um jornalismo que tem que informar, ele tem que traduzir o que está acontecendo. A gente não necessita ficar falando “o sensacional”, “o espetacular”. A gente tem que fazer uma coisa que o jornalismo nos ensinou, que é informar. E ser, também, o mais próximo possível do ouvinte, fazendo com que ele tenha as informações, também, do que o Governo do Estado está fazendo, sob a perspectiva da prestação de serviços, prestação de contas. Quando um secretário dá uma entrevista na Roquette-Pinto, ele está prestando contas à sociedade. E a rádio Roquette, nesta gestão minha, abre muito espaço, não somente para o pessoal que está dentro do governo, como também para deputados, vereadores, seja da situação ou da oposição, porque, uma marca do governo Castro, e da minha trajetória de vida, é o diálogo, abrir o espaço para que os diferentes se encontrem.

CM: Você não acha também que é importante trazer players da sociedade que estão esquecidos? Por exemplo, o trabalho que você faz com o corpo consular, que, geralmente, é esquecido pela mídia aqui no Rio, com o exército, Tribunal de Contas, Judiciário, é importante trazer esses players para dentro da rádio?

TG: Claro! É uma rádio pública e educativa do estado. Esses players também têm o que dizer sob o olhar educativo. Quando você tem o Tribunal de Contas do Estado, que me honra muito em ser parceiro da rádio, o que também acontece com o Exército, me honra muito eles estarem ali, eles têm o que dizer, eles têm o olhar e o que prestar contas, pois são entidades que a sociedade acompanha. Portanto, a rádio Roquette-Pinto é a primeira a oferecer um espaço ao Tribunal de Contas do Estado. É a primeira a oferecer para o Exército. É a primeira a oferecer para a Alerj. Agora, a gente firmou uma parceria com a TV Câmara. O minuto da Câmara na rádio Roquette-Pinto, mais do que fazer o ouvinte entender os vereadores das mais diferentes matizes estão fazendo, nós estamos fazendo uma multimídia. Nós estamos levando a Roquette para a TV, numa parceria inédita, que nunca havia acontecido nos 18 anos da TV Câmara.

CM: Você tem o trabalho do MIS, que é o Museu da Imagem e Ação, que tem muito a ver com o trabalho que a Roquette tem. Você não acha que tá na hora de pensar na fusão de atividade, por que são atividades complementares?

TG: O MIS, que tem a presidência de Cesar Miranda Ribeiro, jornalista, que foi da Globo, presidente da Art Filmes, uma pessoa por quem tenho um carinho imenso e também muito respeito. Acho que o MIS tem um trabalho que tem que ser observado de perto. A Roquette é uma rádio, que está trabalhando com essa radiovisão, que tem um conceito moderno de rádio de conexão, não somente de comunicação. Se os dois vão se encontrar em algum momento...

CM: É um fluxo natural dos dois trabalhos?

TG: Pode ser, mas não é isso que passa na minha cabeça.

CM: É questão de você trabalhar numa rádio com poucos recursos e você tem multiplicado isso com muita dedicação, qual é o milagre?

TG: Minha família é libanesa. Minha avó é fugitiva da guerra. Foi uma das primeiras mulheres a trabalhar na rua da Alfândega. Cresci com família de engenheiros, médicos, mas acima de tudo de empreendedores.

CM: Você é petropolitano?

TG: Sim, e eu aprendi desde cedo que é preciso fazer uma multiplicação dos seus recursos, então, com a Roquette, não é diferente. Meu dinheiro ali é muito pequeno, eu presto conta de três em três meses à sociedade e diariamente ao governo, porque eu sei quem está me pagando. É você que está me lendo agora. E eu tenho muito rigor com o dinheiro público. Porque eu tenho que prestar contas sobre isso. Eu aprendi desde o meu berço que eu preciso fazer a multiplicação com os ganhos que eu tenho e é isso aí que eu estou fazendo na rádio.

CM: O que levou você a mergulhar em história?

TG: Eu amo história, eu acho que a história me deu uma coisa que é fundamental, e eu não estou falando de leitura, é importante ler demais, é importante consultar múltiplas fontes, mas a história é compreender uma coisa que é a observação de que essa vida é extremamente consequência de inúmeros atos que se repetem. Portanto, a minha administração na Roquette é também de resgate histórico. Se você pegar o professor Edgar Roquette-Pinto, claro, um ser humano da década de 20, quando ele traz a rádio para o país. Mas eu estou trazendo também elementos que ele colocou. A sala de aula fica dentro da Roquette. Hoje você tem um quadro que é o Tá na Escola. Somos os únicos a chegar e multiplicar coisas que estão acontecendo nas escolas. Os únicos a chegar e falar “Olha só, o professor, professor como eu, que está em uma escola em Campo Grande, o que ele está fazendo em meio à pandemia que você pode repetir na sua sala de aula?”.

CM: Como é o historiador que ao mesmo tempo está fazendo resgate e história?

TG: Eu sei o peso ao qual estou atrelado, e eu não estou sozinho nisso. A história não se forma através de atos sozinhos. Isso é uma outra coisa que eu aprendi na história. Portanto, eu sei o meu peso durante o centenário da rádio no Brasil.

CM: Encontrar no fundo da rádio 94 FM o busto do Roquette-Pinto, para um historiador, é mexer nas entranhas?

TG: Eu era voluntário e saí da Roquette-Pinto quando tomaram essa atitude. E eu nem quero entrar no porquê de terem feito isso. Sei que quando mudaram para 94 FM, não sei se para trazer mais audiência, enfim... eu entendi o seguinte: rasgou-se um papel importante da história e não é da rádio, é do Brasil. Roquette-Pinto foi, entre tantas questões, importante para o museu. Ele foi presidente do Museu Nacional. Ele é o camarada que teve a chance de fazer debates e mais debates, claro que teve o lado polêmico, mas estou pegando o lado propositivo dele, sobre debate sobre a comunicação. Quando você corta o nome Roquette-Pinto, você corta educação, comunicação, e o rastro histórico de uma rádio que foi construída por inúmeras pessoas, inclusive pelo Boni, inclusive com passagens de diversos outros comunicadores. Então, quando você tira o nome, não é tirar um nome qualquer, é tirar a história.

CM: Eu queria que você falasse sobre o papel da rádio, que vai completar agora o centenário da primeira difusão, que é a rádio MEC, um embrião disso. Eu queria que você falasse sobre o Rio como um centro gerador nacional dessa comunicação pela Rádio Nacional. Vamos mergulhar um pouco na história da rádio?

TG: A gente tem que voltar para o dia 7 de setembro de 1922. Sempre haverá um debate sobre a mesma transmissão, os pernambucanos vão puxar de um lado, os cariocas de outro, mas é claro que na historiografia que a gente acaba seguindo, o 7 de setembro de 22 é o momento em que se marca a primeira transmissão conhecida. E aí, tem várias questões que o Roquette-Pinto vai trazer para o Brasil lá de fora que ele implementa aqui. Importante lembrar que o rádio vai se desenvolvendo, primeiro porque era muito caro você ter um rádio em casa, então era uma união, não só da família, mas também dos vizinhos, que se cercavam do rádio para acompanhar os programas. Mas também o rádio foi fundamental para unir o Brasil, para que o Brasil conhecesse o seu próprio umbigo, o seu próprio Brasil. A rádio nacional que você diz, avançando um pouco no tempo, indo para 1940, especialmente 1950, onde você vai conhecer os grandes cantores, as disputas de quem era a rainha do rádio, o rei do rádio. Quando você aprofunda, você traz o nordeste apresentado por Luiz Gonzaga. Você tem a rádio mostrando ao Brasil que o Brasil existe e isso antes da rádio era impossível.

CM: A matriz da TV, que surgiu nos anos 1950 e vai até os anos 1960, é o rádio. Foi o rádio com imagem?

TG: Diferente dos Estados Unidos. Eles vêm do cinema. O Brasil aproveita o conhecimento da rádio para expressar a sua televisão. A televisão no Brasil é uma televisão radiofônica, por isso é tão aclamada no mundo inteiro. Por isso que as novelas brasileiras são tão aclamadas, porque elas trazem um DNA do rádio.

Rio de Janeiro

CM: Estamos publicando esta entrevista na semana em que estreia o programa do Ricardo Cravo Albin, sem dúvida um dos historiadores com o conhecimento mais profundo na área musical. Você traz o Ricardo, você trouxe uma grande âncora para as manhãs. Fale um pouco sobre esse resgate de talento na Roquette-Pinto.

TG: Ricardo Cravo Albin eu conheço desde que eu tinha 17 anos. Para quem não conhece o Ricardo é simplesmente o homem que faz o dicionário mais importante da música brasileira. São 40 mil VPs. É um cidadão que se você olha para mim e fala de parcos recursos, nós temos que aprender com o Ricardo Cravo Albim como se faz um instituto com mais de 200 mil itens sendo um guerreiro com pouquíssimos recursos para o Instituto. Ele é o homem que conseguiu revelar e mostrar a música brasileira, a partir da década de 1960, para o mundo inteiro e é respeitado por todos os brasileiros. Ricardo Cravo Albim estar longe da rádio hoje é um absurdo.

CM: E como foi você com essa consciência ouvir a voz dele no microfone da Roquette-Pinto?

TG: Estou arrepiado até agora. Sabe por quê? Porque é um absurdo para um historiador, um educador como eu, ver pessoas com mais de uma determinada idade serem esquecidas pela mídia. Comigo isso nunca vai acontecer, a gente tem que abrir espaço em uma rádio pública educativa para aqueles que não tem voz. Ricardo Cravo Albim é um grande nome para expandir isso, não somente para os mais velhos, mas para os mais novos também, porque na Roquete-Pinto tem espaço para os talentos.

CM: Estávamos falando de passado, agora vamos falar de futuro. Como você vai fazer aumentar a penetração da Roquette nos mais novos?

TG: Primeiro eu acredito em rádio formadora, não acredito mais em rádio só de comunicação. O que eu quero dizer com isso, a rádio precisa capacitar e ser o ponto de encontro com os mais diferentes públicos. Portanto, no primeiro momento a gente vai fazer uma abertura da rádio para poder educar jovens a utilizar os equipamentos, os pensamentos radiofônicos, a Escola Roquette-Pinto de Rádio, que é meu grande sonho. Nós já entramos nas redes sociais. Quando assumi, tínhamos uma caminhada muito tímida. Estamos avançando, hoje temos por volta de 15 mil seguidores, já estamos no Spotfy e podemos encontrar a Roquette nas lojas de aplicativos. Se Deus permitir iremos fazer um novo site com mais acessibilidade, teremos uma penetração maior nas redes sociais que é algo que eu sou praticamente voltado para isso. Então o público abaixo dos 36 anos tem um papel, mas eu não posso esquecer dos outros que tem um papel muito importante e não pode ser esquecido, então a gente vai fazer uma rádio que consiga congregar os mais diferentes.

CM: Ou seja, você vai dar ferramentas para que a nova geração fale com a nova geração?

TG: Exatamente, mas não só a nova geração, mas os professores também. O que está acontecendo hoje é que eu sou professor e dou aula até hoje. Então à partir das 13h toda terça-feira ninguém pode me ligar. Porque digitalmente eu dou aula em uma escola. O que eu acompanhei no meu mestrado e na minha caminhada é que durante a pandemia, os professores foram jogados ao léu. Claro que as escolas particulares tem a vantagem dos recursos, mas as escolas públicas enfrentaram muitos desafios porque os professores não foram capacitados antes para pensar e produzir digitalmente. O podcast é a terceira mídia mais consumida nos Estados Unidos, na pandemia cresceu por demandar menos banda larga. Então se você tem uma internet mais difícil, você tem chance de ouvir um recado, mas não um vídeo que é mais pesado. Então a Roquette tem que prestar esse erviço para os nossos professores e claro para os alunos.

CM: Como é a vida pessoal com essa multiplicidade de tarefas?

TG: Sou casado com a Fernanda, um grande parceira que eu tenho e companheira de vida, ela entende que eu estou em processo de me entregar a rádio que eu amo. Diferente de ser, eu estou presidente de uma rádio que eu amo, fui voluntário sete anos. A Fernanda também foi voluntária comigo. Porque acreditamos que a radiodifusora com esses conceitos que a gente conversou. Sou um cara com horário contado, vou sair agora da entrevista e vou nadar com ela para praticar um exercício. Na sexta-feira somos mais caseiros, mas na gravação do “Tá na História” ela está sempre comigo. Ela é uma das criadoras do programa, ela é uma grande intelectual.

CM: Qual foi a grande alegria que você já teve com o “Tá na história”?

TG: Foi ver pessoas do mais diferentes lugares falando que o Rio de Janeiro é incrível. A gente precisa conhecer mais esse lugar. Você que é um homem do Turismo, um dos grandes representantes desse trade sabe que estamos em uma batalha de imagem, onde o tempo inteiro estão tentando derrubar o Rio de Janeiro, isso é uma jogada estratégica. A gente está numa cruzada e eu estou meio da rua mostrando que o Rio de Janeiro não é bom, ele é o melhor.

CM: Você acha que pelo fato do Rio ter sido, quando a família real veio pro Brasil, capital do Reino de Portugal, depois capital do império brasileiro e, até 1960, da república, que os nossos problemas são os do Brasil? Como é que você percebe essa falta de bairrismo do carioca? Porque aqui, por exemplo, você pega o Correio da Manhã, O Dia, que você escreve, um jornal coirmão nosso, Jornal do Brasil, O Globo... Em Minas é O Estado de Minas, em São Paulo é O Estado de São Paulo... Esse centro do pensamento levou o carioca, o fluminense, de uma forma geral, a ser muito pouco bairrista. Você acha que isso atrapalha?

TG: Você acha que o paulistano... Você é baiano. Você acha que o baiano ia permitir, ou o paulistano em especial, ia permitir que a capital saísse daqui para ir pra Brasília? Eles iam atacar o JK na esquina. O Rio de Janeiro se condicionou a acreditar que somos incríveis, maravilhosos. Somos, mas é o seguinte: a gente tem que entender que a gente precisa se defender. Que isso faz parte de um povo. Se entender dentro de seus problemas, mas também se valorizar suas qualidades. Agora, a gente também não pode acreditar que o mundo inteiro roda ao nosso redor. Não é verdade.

CM: E nem Deus é carioca...

TG: E nem que Deus é carioca! A gente tem que fazer uma capital que seja interessante, mas a gente também tem que olhar para o nosso estado.

Rio de Janeiro

CM: Dentro da autoestima, o que você espera que o governador Claudio Castro possa fazer pela rádio? Aproveita para fazer os seus pleitos porque eu acredito que o governo precisa efetivamente olhar a Roquette-Pinto com outro olhar. Não é aquele chato lá na Erasmo Braga fazendo o trabalho de rádio. É exatamente ter a grande caixa de ressonância no estado. O que você espera do governador?

TG: Não só na Erasmo Braga. Depois de 40 anos e diversas tentativas, nós somos a primeira gestão – e única, né? – a conseguir entrar no Palácio Guanabara.

CM: Você montou um estúdio dentro do palácio?

TG: Nós montamos um estúdio com pouquíssimo dinheiro, já que você falou sobre isso. Com muito pouco dinheiro, nós conseguimos montar um estúdio com os nossos recursos. Nós refizemos alguns equipamentos que nós tínhamos e nós estamos transmitindo não apenas da Erasmo Braga, mas também de dentro do Palácio Guanabara.

CM: Mas o que você acha que o governador pode efetivamente fazer, em termos de orçamento? O que você precisa para que a rádio tenha a caixa de ressonância e não dependa mais desse sacrifício pessoal seu, do seu vice-presidente Fernando Nogueira e da sua equipe?

TG: É uma grande equipe. Você falou da Ermelinda Rita mais cedo. As pessoas acreditam na Roquette como um propósito. E é por isso que eu consigo levar as pessoas a nossa audiência. Eu estou aqui elogiando minha equipe porque eu sozinho não sou absolutamente nada. Mas vamos lá. Não é algo especialmente ao governador Cláudio Castro, é um recado para todos. Eles precisam entender que a Roquette-Pinto é uma rádio que tá conectando-se com o povo. É um espaço para prestação de contas e prestação de serviço. E o que que pode ter de investimentos melhores? Para a gente poder dar um salto de qualidade na Roquette, aí, meu amigo, não tem jeito. Não são cinco balas Juquinha que vão resolver. A gente precisa de uma caixa para fazer com que a Roquette seja muito mais do que uma rádio, até mesmo do que uma formadora, mas sim ser uma produtora de conteúdo e permissora de conteúdo para aquele que não tem chance. E o que eu quero falar com isso? O YouTube Space, que ficava ali no centro da cidade, parou onde? Eles meteram o pé aqui do Rio de Janeiro. E quem é que pode ocupar esse espaço? A Roquette pode ser o lugar em que as pessoas vão lá gravar. E aí a gente pode ser o grande centro reunidor de todo o estado para a produção de conteúdo audiovisual. Isso não tem em lugar nenhum do Brasil.

CM: Já estamos encerrando a entrevista, mas queria fazer um apelo, porque o Correio da Manhã, outro dia, fez uma crítica sobre a comunicação do governo federal, que se comunica muito mal. E o governo federal tem uma estrutura de comunicação, de televisão, de rádio que poderia estar sendo utilizada dentro desse pensamento seu. Mas o estado também passa por um estado de má vontade da comunicação, dos jornalistas e alguns colegas da área de televisão, que consideram o estado uma caixa de porrada. Ou seja, ser dirigente público é para apanhar. Não se pode elogiar ideias boas. Então, você tem hoje um contraponto muito importante que é a Roquette-Pinto, que pode ser uma plataforma de imagem, de som, e que possa fazer isso. Então, é importante que o governo acorde para essa questão da ferramenta que tem na mão e que possa contribuir, já que tem gestores competentes, para que essa caixa de ressonância seja de contraponto sobre os aspectos positivos de um jovem governador, que tem uma equipe jovem?

TG: Maganvita, eu tenho desafios enormes e orgulhos também grandes. A gente é a primeira gestão a ter um conselho editorial, um conselho que me ajuda a gerir a rádio. Você faz parte desse conselho, secretário de educação, subsecretário de comunicação, o agora subsecretario de acessibilidade, de cuidados para traduzir melhor, Marcos Salles, Denise, Alexandre Valle e junto de você e Ricardo Cravo Albim. Não vou construir essa rádio sem ajuda dos mais diferentes grupos, não é possível. Inclusive da própria imprensa, que tem carinho a mim porque sabe que sou também um repórter. Estou presidente porque sou historiador, professor e acima de tudo repórter, que é por onde consegui toda a minha trajetória. Então, Magnavita, o que eu sempre peço aos meus colegas, e hoje almocei conversando com um, amanhã vai ser assim e depois assim, é mostrar o que está sendo feito na Roquette e levantar também não apenas um pedido de paz, mas também um pedido de “poxa, vamos olhar o que está sendo construído”...

CM: É um apoio afetivo, mas que também precisa de um apoio efetivo. Eu tenho uma perguntinha final antes da gente terminar. Como você pretende blindar o futuro? Você fez um belo trabalho na prefeitura e esse trabalho está sendo destruído pela atual gestão, está andando pra trás. Você não tem medo que depois o trabalho que você faça na Roquette acabe sendo varrido? Como blindar e evitar que o crime como o que está acontecendo com a MultiRio ocorra?

TG: A Roquette tá tendo a parceria de CNPJs e não de CPFs. O que eu quero dizer com isso? Que hoje eu estou presidente. Amanhã eu posso receber um telefonema do mesmo Cláudio Castro que me convidou dizendo “Olha, Thiago, obrigado e não sei o quê”. É claro que vou ficar chateado, mas vida que segue. Mas vai ter que explicar para o Tribunal de Contas do Estados, BNDES, vai ter que explicar pro Correio da Manhã, pra imprensa, pra diferentes organizações da sociedade civil... Você vai ter que explicar não é a minha saída, mas por exemplo você trocar o nome de Roquette-Pinto para 94 FM.

CM: Mas você fica triste com o que está ocorrendo na MultiRio, não fica?

TG: Eu não tenho acompanhado a MultiRio de tão perto. O que eu acho da MultiRio é que é uma empresa que pode ser utilizada de forma muito profunda para capacitação dos professores, ainda mais em um momento tão delicado como esse. Eu tenho acompanhado à distância, eu acho que faz parte da vida de um gestor público, e eu fui lá assessor especial da presidência, também deixar que aqueles que estão lá neste momento, tem quadros muito bons concursados na MultiRio, e eu chamo atenção para o diretor de mídia e educação, Eduardo Guedes, que a MultiRio pode ir muito longe. São mais de duas dezenas de concursados que foram elevados de cargos, pela primeira vez, numa valorização da empresa, visando o concursado público.

CM: Fica aqui o nosso apelo ao prefeito Eduardo Paes. Muito obrigado, foi um enorme prazer trazer um especialista que tá tendo muito a contribuir, mas que também traz um frescor de lucidez e muito amor e dedicação ao que faz ao estado do Rio de Janeiro.