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Por Affonso Nunes

Do alto de seus 90 anos, Fernanda Montenegro hoje não coleciona apenas a admiração nacional. A grande dama dos palcos, que anunciou uma pausa na carreira ao longo deste ano, será a grande homenageada na cerimônia de premiação dos vencedores da 63ª edição do Prêmio APCA, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Artes nesta segunda-feira (17), em São Paulo. A diretoria da entidade decidiu conceder o Prêmio Especial da APCA para a atriz “por seu protagonismo na defesa da liberdade de expressão, representatividade e contribuição inequívocas em quatro categorias das artes contempladas pelo troféu: cinema, literatura, teatro e televisão”.

Involuntariamente e justamente no ano em que celebrava os 90 anos, a atriz se viu no meio de uma polêmica ao ser criticada de forma agressiva em setembro pelo então diretor do Centro de Artes cênicas da Funarte, o dramaturgo Roberto Alvim, que a chamou de “mentirosa” e a acusou de proferir “falas carregadas de preconceito e ignorância”, ao referir-se a uma entrevista da atriz concedida à revista cultural “Quatro Cinco Um” cuja capa mostrava uma foto da atriz vestida de bruxa junto a uma fogueira de livros. Fernanda critica o desprezo à cultura que, segundo ela, verifica-se no atual governo.

Em vez de uma advertência, o ataque rendeu a Alvim uma promoção no governo federal. Acabou sendo conduzido à Secretaria Nacional de Cultura, cargo equivalente ao comando do Ministério da Cultura (extinto). Mas Alvim ficou tempo no cargo após fazer um pronunciamento inspirado em Joseph Goebbels, ideólogo nazista, que repercutiu mal em vários setores da sociedade, principalmente na comunidade judaica.

Desagravo

E as agressões dirigidas à Fernanda mobilizaram a quase totalidade da classe artística em defesa da veterana atriz que produziu como nunca em 2019: lançou três filmes (“A vida invisível”, “O juízo” e “Piedade”), participou de uma novela (“A dona do pedaço”), publicou sua biografia, além de atuar em diversos teatros Brasil afora.

Sua incrível trajetória rendeu, inclusive, reportagem de capa na edição que marcou a volta da revista O CRUZEIRO. O ano sabático, avisou a atriz, não significa aposentadoria e poderá ser interrompido caso a grande atriz seja seduzida por um projeto que a interesse.

Também serão contemplados pela APCA vencedores nas áreas de arquitetura, artes visuais, cinema, dança, literatura, música popular, rádio, teatro, teatro infanto-juvenil e televisão. Celso Curi, presidente da APCA, destaca a necessidade de atuação e fortalecimento da crítica cultural, num momento em que a luta é contra quaisquer tipos de retrocesso.

- A livre atuação da crítica cultural é também uma garantia de resistência no campo artístico. Nossa luta é e será sempre pelo respeito à Constituição, que no seu artigo 5º. inciso IX diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença” – reforça.